Carta 099
Espero que essa carta te assuste
Um CEO misógino virou notícia e você se surpreendeu — mas esse deveria ser o menor dos seus sustos. Essa carta é um sacode urgente sobre o machismo escancarado no mercado digital e por que a nossa ingenuidade nos faz mais vulneráveis do que gostaríamos de admitir.
BUENAS TARDES, MULHERADA.
A carta de hoje não tem introdução, atualização nem amenidades iniciais.
Os acontecimentos dessa semana pedem pressa.
Já vou começar contextualizando, caso a senhorita tenha ficado por fora.
O CEO de uma empresa aí de educação empreendedora fez um story misógino, dizendo que jamais casaria com uma mulher CEO, porque, na visão dele (que é CEO), isso masculiniza demais a mulher e tira ela do papel “único” de cuidar da casa, dos filhos e do marido. Ele segue falando umas bostas desse nível para baixo, mas já deu para você entender.
Agora você deve estar pensando: “Nossa, mas que filho da puta! Quem é esse cara? Como é que ele fala uma coisa dessas?”\n\nEntão, se você pensou isso, a gente precisa urgentemente conversar.\n\nA carta de hoje é um sacode que todas nós estamos precisando.\n\nNão espere açúcar.
Quando lemos declarações como essas, nossa reação é de surpresa.
Ficamos pasmas quando descobrimos que “esse tipo de pensamento” está na cabeça de um homem à frente de uma empresa digital.
Vamos para a internet conversar sobre esse absurdo.
Compartilhamos com amigas o choque que foi descobrir que fulano segue ele.
Nós ficamos surpresas porque partimos do pressuposto que esse é um pensamento minoritário.
GENTE EM QUE PLANETA VOCÊS ESTAMOS VIVENDO?
Esse é o pensamento MAJORITÁRIO da população brasileira.
Esqueceu que já fomos OBRIGADAS a adorar o sobrenome dos nossos maridos?
Que não tínhamos permissão para ter conta em banco?
Que os nossos pais literalmente passavam a nossa posse para o homem que escolhesse se casar conosco?
Que precisamos BRIGAR para escolher nossos governantes?
Que trabalhamos 10 horas a mais por semana em casa do que os nossos companheiros?
Esqueceu?
Aprenda de uma vez por todas: minoria somos nós.
Quando eu falo até cansar que o ambiente dos negócios não foi feito para nós, eu acho que, no fundo, enxergamos isso quase como algo do passado, velado.
Algo meio silencioso que a gente só descobre quando está lá dentro mesmo.
NÃO, NÃO E NÃO.
O empresariado brasileiro não só é machista como é misógino.
A maior parte dos homens que você conhece fala atrocidades de você e das suas companheiras nos grupos de WhatsApp dos amigos.
O cara que vende a porra do curso de marketing digital que você venera te acha uma incapaz.
A gente tem que parar de ser idiota.
A nossa ingenuidade nos faz fracas, frágeis, facilmente massacradas.
É maravilhoso lutar com uma inimiga que nem percebe que você a está atacando.
Eu vou repetir: a maior parte dos homens que você conhece odeia mulheres.
Quanto antes você entender isso, melhor para você.
Não só para você, mas para nós como classe.
Porque sim, nós mulheres somos uma classe.
O problema é que talvez sejamos a única que não reconhece seu inimigo como ameaça.
A única que espera do seu captor bondade.
Que se assusta quando o sequestrador não te recebe com rosas.
Somos presas muito fáceis.
Tão fáceis que, mesmo sendo a MAIOR parte da população, nós nunca recorremos aos métodos utilizados pela outra parte para nos manter cativas.
Já parou para pensar que nunca usamos a violência?
Que todos os nossos direitos a gente “conquistou” com tudo, menos ameaça física?
Mesmo sendo levadas para a fogueira, nós permanecemos com faixas, protestos e palavras de ordem.
E eu não estou dizendo que temos que usar violência, mas estou tentando te mostrar aqui o enorme desequilíbrio de forças que rege o que a gente chama de sociedade.
Se você se assusta com uma declaração machista de um CEO, você ainda não entendeu o mundo em que vive.
E se a gente não sabe onde está pisando, seremos atraídas, tal qual João e Maria, com migalhas direto para o cativeiro.
Seja um relacionamento medíocre,
Um pai ausente que deixa a carga da criação inteira para nós,
Um chefe que sabota suas promoções,
Um mentor que vai fazer de tudo o que ele pode para você se sentir sempre menos que ele,
E vai te cobrar (caro) por isso, enquanto você posta sobre ele nas suas redes sociais.
Quando eu afirmo que a maior parte dos players do marketing digital são machistas, eu estou sendo LITERAL.
Literal.
O dono da maior escola de marketing do Brasil, e aqui vou ter que falar o nome desse cara para ver se vocês acordam, Ícaro de Carvalho, é OVACIONADO em todos os eventos de marketing que vai, inclusive pelas mulheres.
Tu viu o que ele postou ontem?
Viu ele dizendo que “quem conhece o Tallis (o macho que fez os stories sobre não querer mulher CEO) sabe que ele pularia na frente de um carro para defender uma mulher” e seguiu passando pano para uma declaração que sequer tenta esconder o desprezo pelas mulheres?
Você viu?
Mas você enxergou de verdade quem ele é?
Ou aprendeu a suprimir seus sentidos mais primitivos porque o cara “deu certo”, porque “sabe muito de marketing”, porque “tem muito para ensinar”?
Tem muito para ensinar o quê?
A como arrancar dinheiro de quem você despreza?
É isso que você quer aprender?
Precisamos parar de financiar machista com a nossa ingenuidade.
O machista perigoso não é aquele tal qual Bolsonaro, que fala aos quatro cantos que odeia mulher.
Esse aí é fácil de identificar.
O pior machista é aquele que esfrega sutilmente seu machismo na nossa cara, e nós aplaudimos cada pisada que ele dá na nossa autoestima.
É a síndrome de Estocolmo no seu nível mais trágico.
Parem de comprar cursos de homens.
Parem de bater palma para mentores homens.
Parem de referenciar o trabalho desses caras.
Quantas declarações machistas, racistas e horrendas precisaremos para aceitar o fato de que a minoria somos sim nós?
Estejam atentas.
Quem anda com esses caras tem a MESMA visão que eles tem sobre nós.
Se você esta surpresa, você ainda não acordou.
Nós financiamos essa visão porque achamos, no nosso mundo cor de rosa, que vencemos.
Que o mundo é justo.
Que os machistas são a minoria.
E todo mundo acredita que gestão e feminismo têm tudo a ver.
Eu não criei a Fluida porque queria jogar confete entre amigas.
Eu precisei criar a Fluida porque, na maior pré-aceleradora de startups do MUNDO, um mentor não teve nenhum constrangimento em dizer que MULHER NÃO TEM MINDSET EMPREENDEDOR.
Eu tive que criar a Fluida porque metade das mulheres que abrem uma empresa faz isso porque ficou SEM EMPREGO assim que virou mãe.
Porque um cadáver não pode ter os seus órgãos retirados para SALVAR VIDAS,
Mas uma mulher não pode decidir interromper uma gravidez em VIDA.
Você já observou isso atentamente?
Nós temos menos direito sobre os nossos corpos do que um corpo sem vida.
Lê de novo.
Entendeu onde estamos?
Empreendedorismo feminino que põe calça de alfaiataria, brinco dourado e vai falar sobre mentalidade de abundância e arquétipo não é só inócuo como é um desserviço.
Deveríamos estar discutindo nas escolas de negócios como é que vamos aumentar os investimentos em negócios femininos.
O que vamos fazer para planejar nossas empresas para a nossa velhice, que será mais longa, mais cara e mais sobrecarregada do que a dos homens.
Empreendedorismo feminino sem feminismo é ingenuidade pueril.
Nos comportamos como donzelas indefesas que não conseguem ver que o lobo mau, vestido com uma touca e um avental, não é a nossa vovó querida.
Eu espero que o tom dessa carta te assuste, te faça estranhar a aridez dessas palavras, que o meu tom te faça pensar com espanto se essa é a Mari que você conhece.
Sim, sou eu.
Mas deveríamos ser todas nós.
Se o machismo óbvio no mercado que você escolheu para você ainda não te assustou,
Eu espero que você se assuste comigo.
E que passe a ver que ninguém vai nos tirar dessa se não nós mesmas.
Eu não estou aqui para te ajudar a ganhar um punhado de plaquinhas de faturamento.\n\nMeu compromisso é com a FORMAÇÃO Feminista de empresárias que aprenderão, de uma vez por todas, que quem manda na porra do mundo é o dinheiro.\n\nE que nós precisaremos aprender a fazer montantes obscenos dessa moeda para corrigir o rumo da história das mulheres.
Meu compromisso é com a história das mulheres.\n\nE é só isso que me interessa.\n\nO resto é branding para te manter passiva.