Carta 096
A larápia de assentos
Uma desconhecida roubou minha cadeira no clube. Devolvi sem me explicar, sem voz adocicada, sem pedir licença. Esse episódio virou minha nova regra pessoal: nunca mais deixar alguém me fazer de trouxa calada.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega nessa sexta feira dia 938 de agosto?
Eu chego afrontosa (como a senhorita poderá constatar nas linhas que lerá a seguir).
Na carta de hoje, vou te contar um causo que rolou há pouco tempo na minha vida e uma regra pessoal que eu institucionalizei a partir dele.
É um evento banal, que boa parte de nós já deve ter vivido mas que eu nunca tinha parado para enxergar desse forma.
Simbora começar.
Eu tenho um ritual (mais um rsrs) de todo sábado de manhã tirar esse período para mim.
É o MEU dia, nada nessa universo me faz cancelar esse momento: vou para a minha yoga, tomo café da manha com calma, me estiro no sol tal qual uma lagartixa do cerrado e fico boas horas fazendo um total de vários nadas.
É a hora que eu apenas existo.
Bom, eis que no final de semana passado eu estava nesse ritual, deitadinha na minha cadeira de praia desfrutando da belezura que é num ter um mísero criativo para gravar.
Ah, e aqui preciso dizer que nesse sábado eu estava no clube.
Como eu chego cedo, costumo poder escolher a mesa e o lugar que quero ficar, quase sempre sou a primeira a chegar.
Pois muito que bem, esse final de semana foi a mesma coisa.
Cheguei antes de qualquer outra viva alma, escolhi minha mesinha (afastada o máximo possível das caixas de som) e me estirei para desfrutar da minha existência.
O tempo vai passando e as mesas em minha volta vão sendo preenchidas.
Chega uma mãe com 2 crianças aqui, um grupo de amigos do futebol ali e assim o entorno de minha pessoa vai sendo povoado.
A ponto de 98% de todas as mesas e cadeiras já terem donos.
Bateu uma sede, peguei meu belo copo Stanley (por essa você não esperava né? depois conto essa história que é boa também) e me levanto para ir até o bebedor catar umas moléculas de H20 para hidratar minhas células.
Agora vou precisar descrever o layout do local para você visualizar a cena comigo:
Imagina que os bebedouros são afastados do local onde minha mesa se encontrava. Mas, ainda assim, eu conseguia ver diretamente toda a área da minha mesa.
Bem de frente mesmo.
Pois então, caminhei para o bebedor, abri meu copo e comecei a enchê-lo de água.
Quando eu menos espero, vejo uma pessoa se dirigindo até a minha mesa.
Ela vai certeira, segura e muito calma até o lado da minha mesa.
Pega a minha cadeira com uma das mãos.
Anda alguns metrinhos com ela e aloca habilmente a minha cadeira em torno da própria mesa.
Cadeira alocada, ela acomoda confortavelmente seus glúteos no assento que outrora tinha aparado minha própria bunda.
Sim, eu acabo de ter minha cadeira furtada por uma desconhecida.
Minha mesa CLARAMENTE estava ocupada, minhas coisas estavam em cima dela, minha canga esticada em cima da cadeira. Tava bem na cara que aquela cadeira tinha sim uma dona.
E a dona era eu.
Assim que eu vi essa cena um duelo se trava em minha cachola.
O primeiro sentimento foi “mas que fila da puta, por que essa muié roubou a minha cadeira?”
Porém, tão rápido como o primeiro pensamento, velozmente me aparece um segundo:
“Mariana, você tem uma espreguicadeira E uma cadeira, você pode ficar sentada na espreguiçadeira”
Imediatamente a vozinha um declama.
“Mas eu posso ter uma espreguiçadeira AND uma cadeira se eu quiser oras”’
E aí começa a discussão.
A voz boazinha me trouxe muitos argumentos convincentes para que eu apenas aceitasse o destino e fosse acomodar minha poupança em outro lugar.
“Deve ter mais alguma cadeira disponível, você pega outra”
“Agora que a mulher já tá sentada na cadeira, vai ficar muito chato você ir lá pedir de volta”
“Se você for pedir a cadeira de volta, todo mundo vai achar você chata”
BINGO.
Essa frase me acordou do transe.
Eu não queria pedir a porra da cadeira de volta porque fazer isso me faria parecer CHATA aos olhos de um bando de gente que importa um total de zero nadas na minha vida.
Eu ponderei por muitos milésimos que, apesar de a cadeira estar na minha mesa, repleta de coisas, apesar de estar óbvio que aquela cadeira tinha uma dona, eu poderia ABRIR MÃO dela para não parecer chata…
A vozinha numero 2 ganhou volume e resolveu berrar a plenos pulmões: você não tem que resolver um problema que nem foi você que criou!
PEÇA A PORRA DA CADEIRA DE VOLTA.
Ela foi bem convincente, então eu obedeci.
Me dirigi até a mesa da usurpadora de assentos.
Enquanto dava os meus passos até ela, a vozinha numero 1 tentou me convencer a pelo menos EXPLICAR para a larápia que eu precisava da cadeira, que eu gostaria de usá-la em breve pois iria usar o computador para resolver algumas coisas e seria mais cômodo fazer isso sentada.
Veja a falta de senso da vozinha um: ela tava tão amedrontada de incomodar uma mulher totalmente desconhecida que pedia com muita ênfase para que eu pelo menos fizesse isso de um jeito gentil.
GENTIL É MINHA OVA.
Cutuquei a senhora.
Olhei para ela e disse:
“Oi, você pegou a minha cadeira”
E mantive o silêncio.
Sem explicar nada.
Sem pedir desculpa pelo incômodo.
Sem fazer aquela vozinha aguda e açucarada que nós fazemos sempre que não queremos parecer exigentes demais.
Eu aguardei pacientemente.
O desconforto na cara da minha interlocutora.
A vergonha explicita na face dela.
A surpresa com a minha abordagem tão direta.
Eu, então, afirmo calma e objetiva:
“Devolve para a minha mesa”
Ela se levanta, com uma cara de pouquíssimas amizades e retruca:
“Nossa, se for por isso eu mesma pego outra”
Eu continuo em silêncio aguardando que a cadeira sob minha guarda seja alocada no seu lugar de origem.
Cadeira no lugar.
Larapia envergonhada.
Eu sinto quase como uma obrigação agora usar a cadeira.
A vozinha solta um berro desesperada:
“PELO AMOR DE DEUS SENTA NA CADEIRA AGORA, VAI FICAR MUITO FEIO SE VOCÊ NÃO USAR A CADEIRA”
A vozinha 2 apenas sussurra: ” deixa ficar feio. A cadeira é sua”.
Mas, o que caralhos eu resolvi escrever uma carta inteira sobre a cadeira e uma larápia de assentos?
Te explico:
Durante esse duelo mental entre vozinha 1 e vozinha 2, percebi quantas outras MILHARES de vezes na minha vida eu segui a vozinha 1 (a boazinha caso você tenha se perdido nos números).
O cara que fura fila do mercado e eu fico quieta para “não causar confusão”.
O frentista que coloca 200 reais de gasolina mesmo eu tendo pedido 100, e eu pago sem reclamar.
O mecânico que tenta me enganar e eu saio da mecânica em silêncio e vou tentar buscar outra sem esfregar na cara do individuo que eu sei que a peça que ele segura na mão não é do meu carro.
Eu consegui visualizar MILHARES de trechos da minha vida em que eu PERMITI que as pessoas me fizessem de trouxa, mesmo sabendo que elas faziam isso sem o menor pudor apenas para que eu não fosse MAL VISTA.
Agora pensa comigo: como é que não ser mal vista por quem a gente nem conhece pode empurrar tanto a gente para a permissividade?
Por que mera ideia de ser vista como mal educada, deselegante, CHATA por quem a gente nunca nem viu a fuça tem tanto poder sobre nós?
A resposta a gente já cansou de discutir aqui e repito: porque socialização feminina para a docilidade é um PROJETO.
Mulheres que não impõe limites e que se deixam serem passadas para trás serão (em toda a sua vida) exatamente isso: PASSADAS PARA TRÁS.
Quantas vezes você tentou abordar uma pessoa que tinha feito algo errado com você com EDUCAÇÃO?
Quantas vezes afinou a voz, fez um sorriso simpático para exigir algo que é seu direito?
Quantas vezes você ficou calada ao ver alguém ultrapassando sem pudor os seus limites?
Eu posso contar milhares de vezes.
Milhares delas.
Mas esse episódio da cadeira me fez institucionalizar uma regra pessoal:
Acredito que ela é tão benéfica para as não portadoras de testículos que venho aqui compartilhar ela com você.
Segue minha nova regra pessoal:
Nunca mais deixar alguém me fazer de trouxa calada.
Nem sempre eu vou conseguir a cadeira de volta.
Nem sempre vou conseguir que o frentista sugue os 100 reais de volta de combustível do meu tanque.
Nem sempre vou conseguir que o machista fdp que comanda a multinacional recontrate todas as puérperas que ele demitiu assim que já não era mais ilegal fazê-lo.
Mas, eu nunca mais vou permitir que qualquer uma dessas coisas aconteça comigo emudecida.
Se eu não posso resolver todas as agrugras cagadas que nós passamos todo dia, eu vou pelo menos falar.
Sem me explicar.
Sem fazer a vozinha adocicada.
Sem pedir licença.
Preciso te dizer que essa nova regra pessoal em feito MILAGRES para a minha cútis.
Não se importar com a visão que o outro tem sobre nós é libertador.
Parar de tentar cumprir uma idealização que o fulano criou sobre quem somos é êxtase puro.
Você não precisa explicar os seus limites.
Você só precisa comunicá-los.
Eu não sei quem foi o último larapio que cruzou os seus limites e você permaneceu calada.
Mas a partir de agora você tem autorização expressa para apenas comunicar.
DEVOLVA A MINHA CADEIRA.
Beijos sentada,
Mari Fernandes