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Carta 094

Arrogante

Numa aula experimental de beach tênis, percebi que passei tempo demais buscando justificativas para as minhas próprias habilidades. Você não precisa de motivo para ser boa. Seja arrogante.

Mulheres

BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS.

Há uns belíssimos 10 anos eu tenho papos comigo mesma sobre um tópico específico que senti de trazer para vocês hoje.

Depois de 94 cartas, creio eu que já temos intimidade o suficiente para compartilhar com vocês vozes mais profundas da minha própria cabeça.

Na minha visão, muito do sofrimento que a gente tem (como mulher, como empresária, como mãe), pra além do que acontece na realidade, pra além do machismo, pra além da dupla carta de trabalho, pra além de receber menos…

É um sofrimento mental.

Um sofrimento emocional na verdade.

Que é consequência da forma como a gente foi educada para cumprir papéis específicos e para não cumprir outros.

Sinto que existe dicotomia, um paradoxo que a gente tem que cumprir.

Temos que ser impecáveis, a boa aluna, boa menina, boa esposa, boa mãe.

E, ao mesmo tempo, não podemos ser boas “damais”

Porque ser boa demais vai fazer com que a gente seja, na verdade, vista como arrogante.

Não podemos ser boas demais em negociação, vendas, negócios, liderar…

Mas precisamos ser exemplos no servir ,limpar, maternar , cuidar…

Percebe a loucura aqui?

O dilema?

A dicotomia?

Quando eu falo a gente, eu me incluo nisso.

Quando eu falo a gente, eu falo de nós — mulheres.

E todas nós, mulheres, vivemos isso.

E hoje vim trazer um relato pessoalístico sobre isso.

Como que é a minha relação com isso? Como que se desenvolve a minha relação com ser competente ao mesmo tempo precisar não parecer tão-competente-assim?

Vou trazer um exemplo simples, mas que ilustra muito bem como isso acontece na minha vida:

Eu, como você sabe, sou uma atleta não-atleta. Não é minha profissão, mas é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Fazer esporte, atividade física, seja qual for.

E eu sempre fui muito boa nos esportes que me propus a fazer, mas demorei muito pra perceber isso.

(Se você não sabe, eu sou muito baixinha. Eu não tenho nem 1,60m, ok? Eu tenho 1,59m)

Imagine então como era a minha estatura quando eu estava na escola, no ensino fundamental.

Nessa época, participei de uma seletiva para o time de vôlei da escola.

Não havia passado pela minha cabeça, até muitos anos depois, que eu era uma tampinha minúscula e que eu muito provavelmente não me daria bem no vôlei.

Fui lá fazer a seletiva

E eu lembro de eu estar lá fazendo a seletiva e entraram várias meninas, sei lá, era uma tarde de seletiva e devia ter, sei lá, umas 40, 50 meninas ali jogando.

Em algum momento eu me dei conta que tinha tipo 5 meninas na quadra e não 40, como estava no início.

Achei estranho “uai, cadê as mulheres tudo que estava aqui?”.

Eu me lembro dessa sensação de me perguntar pra onde raios foram essas meninas.

Eis que ao longo das seletivas, os professores foram dispensando as meninas. E deixaram fazendo os testes as meninas que foram selecionadas.

Transformando uma história longa numa história um tico mais curto, o fato é que entrei para o time de vôlei.

Depois joguei futebol.

Depois basquete.

Depois handebol (essa fase durou alguns belos anos, até a faculdade quando machuquei o joelho e precisei me afastar de esportes de contato).

Fui então para o crossfit, circo e outras dezenas de atividades físicas até que…

Há poucos dias, fui fazer uma aula experimental de beach tênis.

Nunca joguei nada parecido com isso (a não ser frescobol na praia como hobby, se contar). Fui pra uma aula experimental de 6h às 7h e logo emendei em outra (também de beach tênias) de 7h às 8h.

Lá pelas tantas, o professor da segunda aula perguntou há quanto tempo eu jogava esse trem e eu falei “hm, tem aproximadamente 2 horas”. E ele me olhou com aquela cara estranha, uma risadinha irônica.

Aquilo foi me gerando uma angústia, um negócio esquisito, porque eu percebi que ele não estava acreditando em mim.

Parecia que eu estava mentindo. E uma das coisas que eu tenho bastante dificuldade de fazer na minha vida é mentir. Muito difícil pra minha pessoa fazer isso.

(E, de quebra, sou uma pessoa que valoriza absolutamente a confiança)

Aquela situação toda ficou meio esquisita, o professor rindo de mim tipo “ah, você tá brincando” e entre raquete pra lá, raquete pra cá, o ambiente como um todo não parecia colaborar para eu parar e explicar que minha primeira aula foi no horário das 6h e que eu emendei na aula do horário das 7h também,

Essa parada me incomodou, sai dessa segunda aula com uma sensação esquisita no corpo que gerou toda essa carta aqui.

Qual é a reflexão aqui? O que aconteceu naquele lugar ali?

Eu precisei explicar e explicar de novo e outra vez que eu não fazia nenhum outro esporte com raquete pra ter “facilidade” nesse novo esporte.

Num joguei tênis, nem squash, nem badminton.

Só tinha jogado ping pong e frescobol.

Mas, de alguma forma, eu tava tentando encontrar formas de explicar porque diabos eu era boa num trem que nunca tinha feito na vida.

Eu gosto de esportes.

Eu gosto de competir.

Eu gosto de me desafiar.

A minha sã cabeça estava buscando coisas que justificassem o fato de eu ser muito boa.

E tá aqui a reflexão.

O que eu percebi é que, para algumas pessoas, as nossas habilidades vão parecer tão fora do comum que elas vão precisar de uma explicação do porquê nós somos tão boas em alguma coisa

Eu mesma não precisava de nenhum motivo para o fato de eu estar ahazando na poha da aula com 2 horas de experiência

Eu não precisava

Quem precisava era o professor

E o fato DELE se espantar com as minhas habilidades me fez ficar por sei lá quanto tempo buscar uma JUSTIFICATIVA para as minhas habilidades

Mas, na boa, falo isso pra você enquanto falo para mim mesma:

Você não precisa de um motivo para ser boa

Leia denovo

Quantas vezes eu suavizei competências nas quais eu sou naturalmente boa pra caralho tentando explicar para outras pessoas o fato DELAS não compreenderem minhas habilidades.

E eu vou elencar aqui para você vários pontos sobre mim para que você faça isso na sua vida e elenque pontos sobre você.

Eu sou muito boa de comunicação.

Eu sou excelente de oratória, de retórica, de negociação.

Eu sou muito boa transmitindo ideias.

Sou boa em todas essas coisas não porque comecei a dar aula muito nova ou porque fiz licenciatura ou por qualquer outra razão que possa vir na minha cabeça pra justificar isso.

Eu sou boa nessa merda e PONTO.

Eu não sou uma ótima tia porque eu trabalhei com crianças. Eu sou uma ótima tia porque eu sou uma ótima tia.

Porque eu me importo, porque eu me dedico, porque qualquer coisa não interessa.

Interessa que eu sou.

Não preciso de nenhuma justificativa, de nenhum motivo, de nenhum diploma, de nenhuma história na minha vida pra justificar algo que eu sou boa.

E você também não precisa.

Por que eu estou te dizendo isso?

Pra que você se autorizar de uma vez por todas a ser boa sem motivo

SEJA BOA SEM MOTIVO

Você não precisa buscar na sua história nada que justifique porque você é boa de vendas, porque você é boa mentora, porque você é boa mãe, porque você é uma excelente psicóloga, porque você é uma boa arquiteta, porque qualquer coisa que te interessa

Você é boa e ponto final.

Quando buscamos motivos, muitas vezes deixamos de reconhecer que isso faz parte de quem a gente é.

A maior problemática disso é que a gente começa a atribuir as nossas competências e as nossas habilidades a eventos externos.

Não tem evento externo.

É você, meu amô.

Você é boa nessa porra (seja qual porra for).

Que você leve dessa carta a certeza de que não precisa nunca mais se explicar para ninguém e que você jamais suavize uma habilidade sua tentando buscar na tua história algo que justifique o fato de você ser boa.

Tu já viu alguém entrevistando o Neymar querendo saber porque ele é bom no que ele faz?

Não.

Ninguém pergunta isso aos homens.

Mas nos olham incrédulos na primeira aula de beach tênis.

Nós mulheres precisamos nos autorizar a sermos incríveis sem precisar de motivo.

Talvez isso nos faça parecer “arrogantes”? Talvez

Mas, talvez seja exatamente isso que a gente precise ser.

Arrogante.

Com o esplendor das nossas próprias habilidades.

E se o mundo não consegue explicar porque a gente é tão boa no que a gente faz, azar do mundo.

Eu sou.

Você é.

Nós somos.

Responds esse e-mail me contando no que você é boa? Quero saber as suas habilidades e nenhuma justificativa pra elas.

Beijos com arrogância e habilidade nata de beach tênis,

Mari Fernandes.

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