Carta 093
Capivara cintilante
Estou cansada de histórias cagadas sobre mulheres. Precisamos de mais referências de conquistas retumbantes e menos manuais de sobrevivência. Quero capivaras cintilantes, não elefantes rosas.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita se encontra nessa ensolarada sexta de agosto?
(Aqui em Brasília, pelo menos, tá um sol para cada unidade de ser humano)
A carta de hoje é um misto de desabafo com pitadas de piquete com pneu queimando no meio da rua.
Existe um fenômeno que eu apelidei de “despertar feminista”, esse fenômeno ocorre de maneiras diferentes para cada mulher: estamos vivendo nossa vida lá de boa, preocupada apenas com os boletos, com a agenda da próxima semana, com a nossa carreira e DUNADA descobrimos que, durante toda nossa existência, uma força enorme e esmagadora esteve regendo nossa vida.
Descobrimos, em um curtíssimo espaço de tempo, que boa parte do que acreditávamos sobre nós e sobre o mundo, num era bem o que achávamos.
Um dia maquiagem é só maquiagem.
No outro, ela se torna a pontinha de toda uma indústria que nos convence que nosso papel é sermos belas.
Em uma bela tarde de verão, sonhamos com véu e grinalda.
No outro, estamos contando em todos os dedos de todos os membros as amigas que namoravam príncipes e acabaram casadas com ogros que não lavam a louça.
TUDO MUDA.
Em algum momento, nos damos conta que já não somos a mesma mulher de antes, não sabemos precisar exatamente que dia de qual ano descobrimos a “verdade”.
Mas, simplesmente não dá para desver.
Depois do despertar feminista, entramos em uma outra era da nossa biografia.
E entra aqui a minha reclamação com ares de petição:
A partir desse momento, somos inundadas de histórias de mulheres que se deram mal.
Não porque as tragédias com mulheres passam a acontecer com mais frequência , mas simplesmente porque agora nós SABEMOS identificá-las.
Conversamos com a ciclana que abriu mão do trabalho para seguir o fulano na carreira e acabou deprimida em uma cidade sem sal e sem conhecer ninguém.
Identificamos todos os maridos que pareciam deuses gregos, mas que decidiram mudar sozinhos o status da esposa para mãe solo.
Lemos sobre a outra que nunca teve um desejo ardente de ser mãe, mas o marido queria tanto e agora ela se vê enclausurada em casa se arrependendo de ter cedido.
Somos inundadas por essas referências.
Porém, todas essas histórias nos ensinam uma verdade: se tu é uma mulher, você vai se dar mal.
Mas, eu me recuso a aceitar que esse seja o enredo que povoa nossa cabeça.
Eu simplesmente tô cansada de histórias cagadas sobre mulheres.
Ou, melhor, de histórias infinitas onde as mulheres se lascam no final.
Se tem uma coisa que nós mulheres estamos sabendo demais é que o mundo tem mil e uma armadilhas para nos limitar.
Sim, nós sabemos disso.
Mas, ao mesmo tempo, é broxante (ou ovariante) só termos essas histórias cagadas de referência.
Os livros que desfiam as lamúrias da nossa história tem sido intragáveis para mim (nós precisamos deles! Mas, eu quero mais que isso).
Tenho que passar 98 horas navegando na Amazon para encontrar uma biografia feminina que não fale sobre os duzentos e noventa e oito batalhas dignas de hércules que a protagonista precisou superar para ser quem é hoje.
Viver no momento histórico em que vivemos nos traz essa enorme contradição temporal.
Descobrir as histórias cagadas das mulheres nos salvou.
Mas, ao mesmo tempo, não temos material suficiente de histórias onde não precisamos nos salvar de poha nenhuma.
Estamos no meio do caminho ainda.
E estar no meio do caminho quando você já consegue ver um final retumbante, porém inacessível, para a sua geração é no mínimo desalentador.
Já conseguimos antecipar a sensação de tirar o sutiã apertado assim que conseguirmos chegar em casa.
Mas, sabemos que ainda precisaremos chegar “em casa” para fazermos isso.
Quedê pelo amor de deus as centenas de histórias de colegas que conquistam cargos maravilhosos?
As comadres que escolhem a si antes de escolherem o mundo?
Aquelas que tão seguras de quem são não são tentadas nem por um segundo a cair nas garrinhas do patriarcado?
É essencial, para não dizer VISCERAL, que a gente conheça as armadilhas do patriarcado.
Mas, eu também tenho percebido que não adianta só fugir do que não queremos.
Temos que ter algum modelo de para onde queremos IR.
Modelos de relacionamento conjugal.
De maternidade.
De carreira.
De relação saudável com seu corpo.
Queremos mais do que manuais que nos digam o que não fazer:
Não abra mão da sua carreira.
Não seja mãe se não quiser.
Não ultrapasse seus limites.
Não seja boazinha só porque o mundo quer.
Acho eu que temos uma quantidade suficiente de NÃOS a seguir.
(Eu, inclusive, sou forte propagadora de vários deles, mea culpa)
Mas, hoje quero levar a gente para o outro extremo.
Se eu te disser “não pensa num elefante rosa”
Você pensou no diacho do elefante rosa.
A grande tristeza é que isso te impediu de imaginar uma capivara cintilante, por exemplo.
Quantos outros animais com tons hilariantes deixamos de imaginar porque estamos desesperadas fugindo do elefante cor de rosa?
Eu quero que nós mulheres como classe possamos imaginar periquitos furtacor, formigas neons e calopsitas prateadas.
Elefante rosa é tão blasê.
Quero livros que nos inspirem, histórias familiares que nos impulsionem, zilhões de exemplos conhecidos de mulheres que se deram bem para PPK.
Que escreveram histórias que não precisaram de uma linha de superação.
Jornadas cheias de aventura, satisfação e nem um pingo de “foco, força e fé”.
Quero histórias fáceis.
Conquistas tranquilas.
Sucesso natural.
Nós estamos precisando de doses cavalares disso.
Por isso, minha petição, convocação ou que mais você quiser chamar é para que a gente construa a nossa própria biblioteca de referências não cagadas.
As mulheres que vieram antes de nós só tiveram tempo (infelizmente) de nos deixar os manuais de todos os perigos que devemos evitar.
É nossa missão escrever os manuais que registrarão em detalhes tudo aquilo que fomos capazes de fazer DEPOIS que superamos cada um desses perigos.
Ao invés de instruções detalhadas de como sobreviver, quero manuais inteiros sobre como VIVEMOS.
Como nossas histórias foram repletas de aventuras deliciosas, conquistas retumbantes e felicidade irrestrita.
Nos deixaram um kit de sobrevivência com mantimentos desidratados, água racionada e mapas de túneis escondidos.
Que a nossa herança seja apagar “sobrevivência” do dicionário das próximas gerações.
Registre o seu sucesso.
Converse sobre suas vitórias.
Povoe o mundo de histórias onde tudo que fizemos foi dar certo.
Combinadas?
Beijos reluzentes e cintilantes,
Mari Fernandes.