Carta 089
Bundamolência
Sobre chegar na meta e dobrar a meta — e a armadilha de uma ambição que esquece que quem decide a velocidade é você mesma.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Como as senhoritas se encontram nessa sexta?
A carta de hoje vai ser direta ao ponto:
Vamos falar sobre chegar na meta e dobrar a meta.
Comecemos.
Como as senhoritas sabem, tem 2 semanas que voltei de férias.
Voltei no ritmo ragatanga já com diversas demandas engatilhadas para encaminhar pós-férias.
Primeiramente, revisar o primeiro semestre do ano. Segundamente, planejar o segundo semestre.
Só isso já é um trabalho considerável.
Bom, se você acompanha a gente há mais tempo, sabe que temos um ritual sagrado em dona Fluida que é fazer junto com o time todo uma imersão de planejamento no final de cada ano.
Paramos uns 3 ou 4 dias para fazer SÓ isso e mais nada.
Analisa planilha daqui, projeta número acolá, escreve projeto no Notion, rascunha ideia no papel, discute e debate caminhos… eu amo esse processo.
No final de 2023, nós fizemos o planejamento de 2024 e definimos algumas metas para o ano.
Incluindo a meta mais famosinha do mundo dos negócios: a do faturamento anual.
Modéstia nenhuma à parte, eu sou boa de projetar cenários baseada em dados.
Catei todos os dados de 2023, passei horas analisando eles exaustivamente, fiz uma CACETADA de conta até, enfim, conseguir encontrar caminhos matematicamente prováveis de batermos as metas definidas.
Uma semana antes de eu viajar, nós ultrapassamos a meta estipulada para o semestre,
comemoramos juntas em reunião e eu fui muito bem orgulhosa para as minhas férias de todo o resultado que conquistamos até aqui.
Nós dobramos o tamanho da Fluida em 6 meses, em equipe, em número de mentoradas, em faturamento e mantivemos a margem de lucro lindíssima.
Um feito e tanto que me orgulho para cacete de termos conseguido.
Fui para as minhas férias, mal pisei o pé em casa e voltei no ritmo ragatanga.
Eu sou muito impulsionada por inícios de ciclos, todas essas abstrações que a humanidade inventou para fatiar o tempo funcionam ridiculamente bem para mim.
Segunda-feira SEMPRE é um dia que eu amo porque sinto que “tô começando de novo”.
Réveillon a mesma coisa.
Fim de mês.
Início de semestre.
Nesse quesito, meu QI é de uma ameba alcoolizada, meu cérebro acredita de verdade que estamos entrando em “um novo ciclo”.
E isso me dá uma energia desgramada de AÇÃO.
Eu fico com fogo no cool querendo planejar “o novo ciclo”, alcançar novas metas, criar novas coisas.
Isso é muito bom.
Mas, pode não ser tão bom assim.
Vou te explicar.
Uma vez que eu percebi que batemos a meta do primeiro semestre mais fácil do que eu imaginava, automaticamente meu ambicioso cérebro chegou na seguinte conclusão:
“Cara se a gente conseguiu esse resultado no primeiro semestre, dá para ULTRAPASSAR a meta que eu tinha definido para o ano”
Ou seja, meu querido cérebro decidiu que então era hora de AUMENTAR a meta anual.
Não bastasse eu ter ultrapassado a meta do primeiro semestre, agora que eu tinha alcançado ela, eu deveria deixar a próxima meta ainda mais DIFÍCIL.
Automaticamente me imprimi um ritmo de maratonista com dor de barriga no meio da prova.
Acelerei tudo.
Ideias, feedbacks, projetos, reuniões.
Comecei a correr para daqui a 6 meses alcançar a NOVA meta e poder de novo sentir esse gostinho maravilhoso de dever cumprido que senti.
Eu amo tanto conquistar coisas com meu time, acho tão maravilhoso o orgulho que ficamos quando alcançamos os trem que eu queria sentir isso DE NOVO.
Acompanha comigo se faz sentido:
Quando você acabou de terminar uma maratona em primeiro lugar você deve fazer o que?
Resposta A:
Pegar seu troféu, subir no pódio e tomar um banho de champagne com a sua equipe
Resposta B:
Se hidratar, descansar e recuperar os pobi coitado dos seus músculos que trabalharam no seu máximo para você chegar em primeiro.
Resposta C:
Se dirigir para uma próxima corrida com o dobro da distância daquela que você cabou de chegar em primeiro lugar.
Responde para mim o que uma pessoa sensata faria?
Uma pessoa sensata escolheria sem pestanejar a opção A ou a opção B.
Apenas uma pessoa desprovida de qualquer átomo de sanidade cometeria a insanidade da opção com ela mesma.
Concorda?
Nesse exato momento que tô escrevendo essa carta eu também concordo com você.
Mas, nas última semanas, eu me comportei como a desmiolada que voluntariamente escolhe a opção C.
Eu terminei uma maratona em primeiro lugar e comecei uma nova corrida em direção ao próximo pódio.
Tem cabimento um trem desse?
NÃO TEM.
Veja só, eu acabei de ULTRAPASSAR as metas que definimos para o semestre.
A margem de lucro tá um xuxu.
To com agenda lotada para o Conselho.
Negando sessões de consultoria porque tô sem agenda.
Tá tudo LINDO.
A coisa mais sensata a fazer num era dobrar a meta do ano.
A coisa mais sensata a fazer é só desacelerar.
Desfrutar do pódio alcançado.
Recuperar os músculos consumidos.
Mas, **nem sempre nós, **portadoras de CNPJ, somos sensatas.
(Se você acha que eu sou um poço de sensatez você tá lendo as cartas de sexta errado)
Absolutamente NINGUÉM me disse que eu tinha que dobrar a meta.
Não tem um ÚNICO número nessa empresa que me indique que a gente tem que começar a correr como se estivéssemos prestes a menstruar de calça branca.
Não era ninguém me dizendo que podíamos mais.
Era EU mesma.
Ser uma mulher ambiciosa, às vezes, tem dessas armadilhas.
A gente esquece que quem decide a poha da nossa velocidade é a gente mesma.
Que se eu dou dona dessa bagaça.
Se o CNPJ é meu e se todos os riscos estão nas minhas costas, eu TAMBÉM posso simplesmente decidir desacelerar.
E isso num é sinal de fracasso nem de bundamolência.
É só sensatez mesmo.
A carta de hoje é para todas nós que movidas por um fogo no cool interminável de fazermos coisas grandiosas, esquecemos que não é porque CONSEGUIMOS fazer coisas difíceis que PRECISAMOS fazê-las o tempo todo.
Tá tudo bem ser a aluna da nota 7 quando você passou as ultimas décadas sendo a aluna nota 11.
Vai ser bunda-mole um pouco.
Beijos,
Mari Fernandes