Carta 088
O crime do ovo
Uma permissão para não ser tão exigente com as suas próprias coerências — use seus valores como guia, mas não deixe que eles te façam passar 15 dias mal-humorada nos lençóis maranhenses.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita está nessa sexta?
Eu estou de vooooolta.
Depois de 2 semanas perambulando pelos lençóis maranhenses, eis que estou de volta para casa e para as senhoritas.
Cês leram as cartinhas que preparei para vocês antes das férias?
Pois, espero que sim porque eu posso estar no Alasca que nosso ritualzinho de sexta é sagrado.
O meu time mandou eu falar hoje com vocês sobre planejamento semestral.
Mas, sou uma CEO rebelde e vou falar sobre outro trem.
Hoje o tema da carta é OVO.
Sim, ovo — aquele de galinha mesmo.
Calma que vai fazer sentido.
Comecemos:
É provável que você já saiba que eu sou vegetariana há um bom tempo.
Deve ter uns 6 anos pelo menos.
Na verdade, até a pandemia eu era vegana. Isso significa que eu não comia nada que tivesse bichos ou derivados, tipo ovo e leite.
Eu fiz faculdade de biologia, de uma certa forma eu sempre fui bem encantada pela natureza, num sei bem o porquê. Na faculdade, a gente estuda mais aprofudamente sobre o que hoje chamamos de mudanças climáticas.
Lembro de fazer uma matéria com uma turma de veterinária e ficar HORRORIZADA das visitas que eles faziam a abatedouros.
Então, eu tinha como objetivo de vida me tornar vegana desde que entrei na faculdade.
Mas, isso em 2007 era visto como um trem muito radical, 14 anos atrás veganos eram vistos como terroristas da alimentação.
Os nutricionistas diziam que veganos eram mal nutridos, fracos e morreriam de 98 tipos de deficiências nutricionais.
Eu usei isso como desculpa durante muito tempo antes de, enfim, tomar a decisão de parar de comer bichinhos.
Aqui, abre parênteses, preciso explicar o que me levou a querer parar de comer bichinhos:
A primeira coisa é que eu sempre soube que a produção de carne num é nadinha sustentável para o planeta Terra.
Segundamente, eu sempre me senti incoerente de me deliciar em prazer com um trem que eu sei que num foi nada prazeroso para a pobre coitada da vaquinha que foi abatida para eu comer um bife.
Morria de dó dos bezerrinhos que eram afastados de suas mães recém-paridas e eram privados do seu leite materno.
Eu tinha dó, de verdade, meu coração ficava meio murcho de pensar no sofrimento dos bichinhos. E aí era um tico de dilema na minha cabeça entre sentir essa pena e continuar comendo bichinhos.
Até que um dia eu simplesmente tomei a decisão: vou parar de comer carne.
No próximo foodprep eu não comprei nem carne nem frango, comprei só peixe — achei que seria uma transição mais fácil.
Na semana seguinte, decidi num comprar nem peixe. Mas, mantive os ovos.
Até que um dia eu sonhei, lembro nitidamente do sonho, que eu abria a geladeira e tinha uma caixa de ovos lá dentro.
Até ai tudo bem, a não ser pelo fato dos ovos serem TRANSPARENTES.
Eu conseguia ver os pintinhos dentro do ovo.
Eu pegava um ovo no sonho, quebrava na frigideira e fazia um omelete junto com o pobi coitado do pintinho.
Acordei entendendo o recado e cortei os ovos também da alimentação.
Bom, eu mantive isso por alguns bons anos.
Até a chegada da pandemia.
Como você já sabe, me isolei por 3 anos e chegou uma hora que eu não aguentava mais comer a comida que eu mesma fazia.
Comecei a pedir iFood.
Aí eu descobri que é mais fácil o patriarcado cair do que você achar opções veganas, saudáveis, sem trigo e que não custem 2 úteros no iFood.
Simplesmente é melhor desistir.
Comecei a abrir exceções para coisas que LEVAVAM ovo.
Tipo uma massa ou uma pizza.
Continuei sem comprar ovo, sem comer O ovo em sí, mas abri essas brechas durante a pandemia.
Fim da pandemia (viva o SUS!), voltei a comer veganamente.
E voltei também a ficar orgulhosa de mim mesma
Cada prato sem bichinhos, me lembrava que eu finalmente tomei uma decisão importante pra MIM que empurrei com a barriga muitos anos.
Bom, como você sabe, eu acabei de fazer um trekking nos lençóis maranhenses.
Para você entender o rolê, é mais ou menos assim:
O parque nacional dos leçóis é um trem enorme, gigantesco.
É areia e água.
Areia e agua.
Para conhecer essas lagoas (que são formadas pela água da chuva) que ficam afastadas das multidões, só dá pra chegar à pé.
Porque no parque nacional não podem transitar carros, motos, nadinha de turista.
Existem algumas comunidades beeeem pequenininhas dentro do parque nacional dos lençóis que podem usar veículos, mas quem não mora la só consegue acessar essa lagoas à pé.
Quando eu digo à pé, tô dizendo que entre uma comunidade e outra são, às vezes, 13km, 20km e até mesmo 30km de distância.
À PÉ.
Com a sua bela mochila nas costas.
Bom, lá fomos eu e Sr Fluido nessa presepada inventada por ele.
Cinco dias caminhando de 4 a 6 horas por dia, na areia e carregando todos os meus pertences nas costas.
A cada noite nós parávamos nos pontos de apoio para dormir (que são casas das pessoas de cada comunidade dessa que começaram a receber turistas).
Basicamente, são cabanunhas abertas nas laterais com redes e banheiros compartilhados.
Num tem nada de luxo. É o básico para dormir e descansar até o próximo dia.
E aí que vem **um dos complicadores em qualquer viagem que eu faço para locais mais remotos **como foi essa viagem:
ALIMENTAÇÃO
Ser vegetariana ou vegana já num facilita as coisas.
Num poder comer glúten torna comer uma missão quase impossível.
E eu como substancialmente.
(Às vezes, até mais que o Sr Fluido)
E eu fico completamente INSUPORTÁVEL com fome.
Me torno uma versão horrível de mim mesma.
Eu tô falando sério, tão horrível que Sr Fluido descobriu que 99% de todos os nossos atritos aconteciam enquanto eu esperava minha comida chegar nos restaurantes que vamos juntos.
Eu não só fico impaciente, como também fico agressiva.
(Deve ser algum traço evolutivo para fazer meus famintos ancestrais conseguirem, nem que fosse na base do ódio, caçar a próxima refeição)
Além do meu péssimo humor, eu fico fisicamente fraca.
É meio instantâneo.
Eu começo a sentir fome, meus músculos sofrem algum tipo de piripaque do Chaves e se recusam a cumprir sua função: contrair.
(Se você é minha mentorada e já fez alguma sessão em que eu pedi licença para beliscar alguma coisa, saiba que isso é inteiramente para o seu bem)
Agora pensa qual é a chance de dar ruim se eu ficasse faminta no meio do deserto enquanto tinha que caminhar com 10kg nas costas por 4 horas?
Bom, essa era uma preocupação REAL para mim.
Eu não queria passar QUINZE dias numa das paisagens mais LINDAS DO PLANETA resmungando e odiando todos os seres vivos na face da terra porque estava faminta.
Nos pontos de apoio a alimentação era basicamente essa:
Café da manha: tapioca, pão, frutas e ovo.
Almoço: arroz, feijão, farofa, macarrão, 98 tipos de animais ou, de novo, ovo.
Janta: a mesma coisa que o almoço.
Estávamos bem perto do mar e de alguns rios, então senhor Fluido em todas as alimentações podia escolher entre 98 tipos de preparos de peixe, peixe frito, peixada, pirão, peixe assado, peixe com sei lá o que e vários e vários camarões.
Para quem mora em Brasília, sei lá quantos km de uma água salgada, esse cardápio para ele era o sonho.
Mas, para mim era sempre a mesma coisa: arroz, feijão, farofa, tapioca e fruta.
Eis que eu decidi abrir exceção para o ovo.
E aí a minha vida ficou bem mais fácil e feliz.
Eu que num comia ovo mexido há sei lá quantos anos (talvez uns 5), me esbaldei em todas as refeições com todos os preparos possíveis de ovos.
Ovo mexido.
Omelete.
Ovo frito.
Omelete frito.
Ovo.
Ovo.
Ovo.
Comi muitas unidades de ovo e matei a monotonia das refeições a base de arroz, feijão e farofa.
As férias acabaram, eu voltei para casa e para o meu amado estoque de marmitas prontinhas no freezer me esperando.
Porém, fui tomada por uma vontade incontrolável de continuar comendo o tal do ovo.
Eu nunca imaginei na minha vida que eu poderia ANSIAR por ovo.
Fui ao mercado abastecer a geladeira para a semana pós ferias, peguei minhas fruta, saladas, legumes e, durante esse trajeto, me deparei com a seção de ovos.
Fiquei lá observando as unidades redondas dentro de caixinhas de todas as cores.
Me sentia prestes a cometer um crime.
Me sentia vigiada pela minha própria consciência.
“Mariana das dusas, segura essa vontade aí, mulher, você num vai dar para trás na sua decisão agora, né?”
Peguei uma caixa e botei na cestinha.
Devolvi.
Li no rótulo “galinhas felizes”.
Tentei imaginar galinhas saltitantes soltas no pasto botando seus ovinhos por livre e espontânea vontade para que outros humanos se deliciem no seu café da manha.
Me senti hipócrita, eu sei que isso é marketing. As pobi das galinhas num tem uma vida “feliz”.
Salivei pensando numa tapioquinha com ovo.
Peguei outra caixa “galinhas criadas soltas no pasto”.
Decidi ceder.
Peguei uma caixa de 30 dinheiros com 12 unidades de culpa em casca de cálcio.
Pus na cestinha.
Paguei.
Cheguei em casa e corri para a cozinha.
Me deliciei com 3 unidades de hipocrisia mexidas e com sal.
Crise climática com orégano combina que é uma beleza.
Em 3 dias, as 12 unidades tinham ido com Deus.
Proteína rápida, uma batida na frigideira de distância.
Facinho, muito mais fácil que as proteínas vegetais que eu tenho que preparar.
A caixa acabou e eu me vi pensando na mesa da cozinha que essa seria a ultima caixa que compraria.
Como uma adicta que fala “só mais uma” para o objeto do seu vício.
Nesse momento eu caí em mim.
E dei uma puta duma gargalhada.
Por que raios eu estava tratando uma caixa de ovos tal qual o fruto de um assalto a banco?
Por que eu tava vendo aqueles ovos como um crime tão grande quanto ser hétero por opção?
Por que parecia que eu tinha acabado de consumir 12 carreiras de cocaína advindas da Colômbia?
(Permissão para você rir da minha cara)
Porque eu queria ser COERENTE com os meus valores.
Comer uma unidade redondinha de ovo me fazia achar que eu não estava sendo coerente o suficiente com o que eu acreditava.
Que eu estava sendo hipócrita.
E se formos parar para olhar, estava mesmo.
Mas, essa carta não é sobre ovos.
Nós mulheres, principalmente as feministas, de esquerda e que acreditam em direitos humanos, nós somos tão sacudidas pelas incoerências do mundo que às vezes impomos a nós mesmas e aos nossos negócios, padrões de coerência às vezes insustentáveis.
Queremos contratar o máximo de mães mulheres negras da periferia para compor nosso time.
Queremos que nossa matéria prima seja 100% sustentável.
Recusamos participar da mentoria do fulano que é machista.
Decidimos pagar salários muito maiores do que o mercado paga porque achamos que é justo.
E tudo isso é louvável para caralho.
Mas, a gente precisa entender que não dá para ser 100% coerente com 100% do que se acredita 100% do tempo.
Não porque você não QUER se coerente, mas simplesmente porque você não poderá.
Às vezes, você é uma vegana no meio dos lençóis maranhenses levando quilos extras de proteínas veganas nas suas pobres costas apenas para evitar o ovo quentinho que te espera no próximo ponto de apoio.
Às vezes a nossa autoexigência de coerência absoluta simplesmente nos ATRASA.
Andar com 20kg nas costas enquanto o mundo todo esta saltitando com 1kg é ficar mais lenta.
E se tem algo que nós mulheres não queremos é ficarmos ainda mais para trás na corrida pela nossa liberdade.
Eu não tô dizendo para você abrir mão dos seus valores, tô te falando para não ser você a sua chicoteadora quando você não PUDER seguir todos eles.
Absolutamente ninguém na face da terra se importa se eu comprei o ovo superfaturado de galinhas felizes ou se me mantive firme no meu propósito de num comer nada de bichinhos.
A moça do caixa não ligou para a polícia quando passou as 12 unidades de proteína animal na leitora de código de barras.
Não chegou nenhuma notificação da receita federal em casa porque eu comi uma tapioquinha com ovo no meu café fa manha.
Mas, eu tornei isso uma batalha mental de mim comigo mesma.
Sim, eu voltei a comer ovo.
Mas, às vezes, comer um ovinho quentinho é a energia que a gente tá podendo entregar para o universo.
Eu não tô orgulhosa de ter comprado essa apetitosa caixa de derivados de galinha.
Mas, não serei eu a exaurir todas as minhas energias brigando comigo mesma.
A carta de hoje não é sobre mim.
É sobre você.
Sobre nós.
A carta de hoje é uma permissão.
Uma cartinha de liberdade para, de vez em quando, você não ser tão exigente com as suas próprias coerências.
Use seus valores como guia.
Mas, não deixem eles te fazerem passar 15 dias mal humorada nos lençóis maranhenses.
Quando a fome bater, come um ovinho.
Todos os seus 6 anos sem nadinha de proteína animal, talvez, só talvez, vão compensar esse terrível crime que você acha que está cometendo com a humanidade.
Você tem feito um trabalho incrível, talvez fazendo muito mais do que aquele marombeiro que come 12 unidades de ovinhos na primeira refeição do dia.
Come seu ovo.
Seja lá o que o “OVO” signifique para você.
Beijos sem culpa,
Mari Fernandes