Carta 084
Perder sorrindo
Sobre a batalha interna de se dar dois dias de spa sabendo que era exatamente o que precisava — e a reflexão de que nós mulheres precisamos urgentemente aprender a escolher as batalhas que valem a nossa energia.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Como as senhoritas estão nessa sexta?
Eu estou em contagem regressiva para as minhas tão merecidas férias.
Daqui a alguns dias estarei belíssima fazendo apenas o que eu gosto de fazer: vários nadas, vários drinks, sol e água salgada.
Pois muito que bem, vocês acompanharam a saga da semana que vem no SPA sem energia.
Hoje vou contar em detalhes o que rolou e trazer o tema que eu queria ter conversado semana passada
com vocês, mas que num rolou por motivos de não tinha como continuar escrevendo de dentro do carro e sem bateria.
Bom, já tem umas 3 semanas que eu tô falando para vocês que minha rotina num tá lá das melhores.
Realmente, tô com mais carga de trabalho do que deveria (justamente por isso estamos contratando sereia nova). Além da carga de trabalho estar além do normal, mexeram na minha rotina sem pedir minha autorização 😅
Minha prof preferida de yoga saiu do studio que eu frequento.
E o studio que eu frequento também vai mudar de endereço.
Falei nos stories já para vocês como minha rotina estava impecavelmente encaixada.
Estava treinando de manhã sempre nos mesmos horários e aluguei um escritório para Fluida DO LADO da aula de yoga, então tava tudo lindinho na rotina, nos horários que eu gosto, perto e absurdamente cômodo.
Como mexeram na minha rotina sem minha permissão, agora eu tenho 59 novas decisões para tomar:
- Continuo no studio que eu tava, mas em outro local?
- Vou para o outro studio com a prof que eu gosto?
- Desalugo o escritório da Fluida uma vez que agora ele não ficará mais no caminho para a yoga?
Para uma aficcionada por rotina, essas são perguntas relevantes e complexas minha senhora, não se engane, temos muitas variáveis envolvidas.
Como, por exemplo:
O novo studio tem natureza perto? Se não tiver, como eu vou ter minha dose diária de natureza? Será que devo me associar a um clube? Qual clube?
E assim se desenrolam os pensamentos na cachola avariada dessa gestora que vos fala.
Ter uma visão de raio-x para processos dentro da cabeça é uma benção para o mundo dos negócios, talvez um das minhas maiores forças, porém ela funciona 100% do tempo, então eu sou incapaz de ignorar todos os outputs de uma mudança de processo como ela.
Eu enxergo cada MICRO MINI MINÚSCULO detalhe que será alterado quando mudamos as variáveis de qualquer coisa.
E isso, minhas amoras, cansa minha massa encefálica.
A póbi já tá sendo usada ao máximo no trabalho nas últimas semanas e me aparece essa de mexer na rotina.
Junta isso tudo e eu confessei para minha sócia num áudio que eu tava doida para ir para o meio do mato ficar longe de qualquer homo sapiens, wi-fi e qualquer ciosa que se parece com civilização.
Eu sentia que precisava dar uma pausa brusca no meu carro desgovernado descendo a ladeira sem freio, mas era só um desejo de ficar desejando.
Não parecia na minha cabeça que havia a mais remota chance de eu fazer isso.
Em segundos recebo um link no whats da Fla, minha sócia, dizendo “tem esse spa aqui, eu sempre quis ir lá”.
Mandei mensagem para o bendito spa e recebi os preços.
Acompanhe comigo o desenrolar da conversa craniana que tive comigo mesmo:
“Nossa, seria um sonho né? Dois dias num spa com massagem, natureza, alimentação vegana…eu preciso tanto ficar sozinha para pensar”
Aparece a segunda voz, um pouco mais debochada:
“Ah, Mariana, pelo amor de deus, você vai pagar para PENSAR? Sério isso?”
A vozinha mais suave responde:
“Mas, é que eu realmente acho que ia ser bom para mim, eu ainda tenho mais 2 semanas puxadas antes das férias, se continuar assim vou perder o réu primário”
Vem a debochada já num tom mais intimidante:
“Olha, se você precisa pensar, senta na cadeira e pensa. Onde já se viu uma diária de 400 reais, pelo amor de deus, que sem noção”
Já deu para entender o tom da conversa né?
Uma parte de mim sedenta por alguns momentos de calmaria e outra parte se comportando tal qual o seu barriga, contando as moedinhas.
O problema não era o dinheiro
O problema era gastar aquele dinheiro com algo SÓ para mim com um troço sabidamente FÚTIL.
Eu estava lutando internamente para ME DAR algo que eu SABIA que precisava.
Vê se tem base um trem desse.
Bom, a minha enorme sorte é que eu sou rodeada de mulheres incríveis que são minha sanidade quando a minha pede as contas para passear.
Recebi um puxão de orelha carinhoso da Flávia.
“Vai logo, Mariana”
Se me chamam de Mariana é porque o trem tá sério.
Acatei
Fui
Quer saber o resultado?
EU TERIA PAGADO O DOBRO.
PUTA QUE PARIU, COMO EU PRECISAVA DAQUELE TROÇO.
Eu passei 48h míseras horas que pareceram umas 2 semanas me exercitando, comendo bem, dormindo cedo e ficando longas horas em silêncio na natureza.
Eu devo ter dormindo umas 20 horas dessas 48 ai também, num sei nem como coube tudo que eu fiz com tantas sonecas na beira da piscina.
Eu me reenergizei, descansei, refleti, pensei e me dei exatamente o que eu estava precisando.
Foi mara, tirando um troço chamado gomagem onde uma senhora esfrega sal grosso e mel na sua pele e te faz retomar a lembrança de quando você era criança e passava protetor solar com as mãos cheias de areia no corpo, de resto eu amei tudo.
Tudo ali eu precisava.
O silêncio
A natureza
A lentidão de tudo
Bom, mas o fato é que eu quase não fui.
Eu quase não me dei o que eu sabia que estava precisando.
E é sobre isso que vamos conversar hoje.
Eu tenho um ódio desgramado por todas essas péssimas crenças de autoflagelo que foram instaladas na nossa cachola.
É um trem que me dá um ranço descomunal e que eu estudo todo santo dia.
Não só estudo como estou em campo observando como nós, mulheres,
navegamos nesse mundo.
Bom, o primeiro ponto que eu queria chamar atenção aqui para todas nós é da sacralidade de ter mulheres a sua volta que te conhecem e amam você.
Se não fosse a Flávia, eu não teria ido.
Eu ia criar 59 argumentos racionais na cabeça para explicar que aquele não era o melhor momento para eu gastar o equivalente a 10 leads em uma diária de um spa de novela.
Em muitas outras coisas, eu já superei essa tendência ao autoflagelo, mas naquela semana eu não teria vencido.
Então, nota mental 1: ter uma rede de mulheres próxima não é opcional. Sem sombra de dúvidas num dá para sair de fábrica sem.
Agora vamos para a nota mental 2:
Eu quero que você apenas chute qual era a proporção entre homens e mulheres no danado do SPA para desestressar.
Chuta aí, vou esperar.
Acertou quem disse 100% de mulheres.
Mentira, tinha UMA unidade de homem que estava acompanhando sua digníssima esposa.
TODOS os outros hóspedes não tinham saco.
Eram dezenas de mulheres em seus roupões e chinelinhos de dedo andando vagarosamente pela natureza como se no paraíso estivessem.
Não importa aonde eu vá, os temas relacionados a mulheres e feminismo me perseguem.
Fiz amizade com a mulherada no spa e acabei conhecendo uma procuradora que trabalha com violência contra a mulher, uma ex funcionária da ONU mulheres, uma mãe recém-separada, uma empresária que enfrentava resistência do marido porque o negócio tinha crescido demais.
Adivinha como TODAS essas mulheres estavam se sentindo?
Adivinha ai por gentileza que eu tenho certeza que tu acerta.
Pensou?
Pois, então:
CANSADAS.
Era esse o mood em todas elas.
TO-DAS estavam lá porque precisavam de tempo e espaço para si.
E cada uma por um motivo diferente: o home office que num dava espaço para a vida, a filha pequena que era carga exclusiva da mãe, o desmonte políticas publicas para mulheres, um marido que num faz necas de pitibiribas em casa.
Curioso, num é mesmo?
Ao mesmo tempo que fico grata e feliz de saber que essas mulheres se deram o tempo que precisavam, me sobe uma nota de amargor de saber que elas precisaram se isolar no meio do mato para terem uns minutos de paz.
Num é revoltante isso?
Para mim, é.
Bom, nós poderíamos aqui discutir todas as questões sistêmicas que geram esse cenário cagado onde as mulheres sempre estão mais cansadas
do que os espécimes portadores de testículo.
Mas, vamos nos concentrar (hoje) em alguma coisa que nós mesmas podemos fazer.
Eu aprendi essa frase com as mães que me rodeiam:
“Escolha as suas batalhas”
Se você num é mãe, ela é usada quando você não não tem mais um átomo de racionalidade na cachola e precisa decidir se obriga a criança a tomar banho, correndo o risco de causar uma birra homérica que levará muitos minutos, molhará todo o banheiro e amassará toda a sua roupa na qual você já se encontra vestida OU se deixa a criança ir suja para o aniversário que vocês já estão atrasados.
Isso é escolher as suas batalhas no vocabulário materno.
Mas, eu voto para a gente tornar isso um jargão de todas as mulheres, com filho, sem filho, com homi, sem homi.
Escolher a porra das batalhas que a gente vai gastar energia.
Porque assim, minhas amigas, eu num sei se a essa hora do campeonato você já se tocou, mas não tem a menor chance da gente ganhar todas.
Comecemos pelo direito a autonomia dos nossos corpitchos que estão ai nas mãos do legislativo há alguns séculos e até hoje a gente segue perdendo.
Bom, partindo do pressuposto que não vai rolar ganhar tudo, a gente vai ter que não só se contentar, mas se ALEGRAR com algumas derrotinhas.
Vou exemplificar:
Imagina que seu espécime de homi é esquecido, ele vive perdendo os trem em casa e você já sabendo dessa virtude do dito cujo organiza uma cestinha em casa para o abençoado colocar celular e carteira quando chegar do trabalho.
Em outro momento ele agenda uma consulta, e você, mulher precavida, faz o favor de adicionar o compromisso na sua agenda pessoal para que ele não perca a bendita consulta.
A data do imposto de renda, você coloca em um enorme post-it na geladeira para que vocês não precisem passa pela infelicidade de perder o prazo e pagar uma multinha boa.
Você está tentando ganhar todas as batalhas.
Todinhas.
Só que você parou apra notar que essas batalhas não são suas?
São do seu digníssimo espécime portador de testículos?
E se você deixasse ele esquecer o prazo do imposto de renda?
E se a batalha fosse dele com a receita federal e não você tentando vencer a desabilidade dele em tarefas que você faria com o pé nas costas?
O exemplo acima é de um espécime de homi, mas poderia ser um espécime de filho, trabalho, chefe e até, vejam bem, o padrão de beleza.
Não vamos ganhar todas.
Não vai dar pra aceitarem nossas estrias AND nossos direitos reprodutivos.
Não vão nos dar o “privilégio” do descanso AAAAND o do salário equiparado aos homi.
Num estão dando há alguns séculos.
Então, no intuito de preservar as sanidade que nos resta, que tal se a gente perdesse de propósito alguma delas?
Contabilize a quantidade abissal de energia que a senhorita empenhou em batalhas que já estavam perdidas antes de você começar.
Pensa aí.
Qual foi a ultima derrota que você vivenciou?
Será que essa num era uma derrota prevista já?
Já tava na cara que ia dar ruim e a senhorita tomada pelo discurso colorido do “empoderamento” juntou todas as suas esperanças e foi com a sua havaiana slim dourada, tentar derrubar um sistema secular chamado patriarcado com chineladas?
Pode rir.
O humor talvez seja uma ferramenta mais eficaz do que sua havaiana slim.
Meu ponto aqui é: eu não sei quais batalhas são importantes de VOCÊ ganhar, mas posso te dizer quais eu tenho percebido serem as relevantes para as mulheres que atendo todo dia:
- Sustentar a si mesma com o seu trabalho
- Manter a autonomia sobre a sua reprodução: ser mãe se quiser e não ser se não quiser
- Não ser enlouquecida pela loucura do mundo
Essas aí eu acho que temos que ganhar mesmo que elas custem todas as glicoses que temos em nossos músculos.
As demais, a gente pode perder sorrindo.
Beijos sorrindo,
Mari Fernandes