Carta 081
A doida paga IPTU
A cena patética e hilária de uma empresária exausta que ficou fazendo a mesma conta no Excel, na calculadora do notebook e na do celular porque estava convicta de que o resultado estava errado — spoiler: estava tudo ótimo.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA.
Como a senhorita finaliza essa sexta?
Eu chego só o pó da rabiola.
Pelas deusas, que semana.
Logo na segunda eu já tomei uma rasteira, a agenda, que tava toda planejadinha, num foi suficiente para o tanto de demanda.
Na terça feira eu já tava meio desnorteada tentando entender porque raios o trem tava tão corrido.
Quarta, joguei a toalha e cancelei o momento PF.
Quinta usei minhas últimas energias e passei apenasmente 5 horas em reunião.
Sexta, vulgo hoje, fui para a academia com o Sr Fluido só pelo bem da relação e passei metade do treino bocejando.
E, agora, cá estou deitada na cama esperando meu sobrinho cair no sono
(orem por mim).
Só na quarta que eu tomei consciência que tava cansada, acredita?
Ontem parei para analisar o google agenda e descobri o motivo.
Acompanhe comigo:
13 horas de mentoria
4 horas de reunião
11 horas de entrevista de processo seletivo
Apenasmente de horas bunda no zoom foram 27 horas.
Fora todas as tarefas do dia a dia.
Aprovar copy, pensar em funil, fechar venda, dar feedback para o time, comer, tomar banho, rolar o feed..
Era ÓBVIO que eu ficaria exaurida.
Essa é uma semana atípica, acaba em algumas horas.
Mas, mesmo assim, cansa.
Estamos com processo seletivo aberto e essa vaga é uma vaga que nós estamos MUITO criteriosas. Acho que toda vaga aqui na Fluida eu sou mais exigente do que a média, então eu gasto um tempo considerável conhecendo as candidatas e ponderando os prós e contras de cada uma.
Não é necessariamente o tempo do relógio que pega, mas sim o espaço mental.
Eu termino a entrevista, mas meu cérebro ainda fica ponderando tudo que ouvi de todas as candidatas.
“E se a gente trouxer essa pessoa e abrir psel para o cargo tal?” “E se mudarmos o organograma e essas responsabilidades forem para a ciclana? ”
Ser a responsável final pelo sucesso ou pelo fracasso da empresa tem esses ônus
Alguns momentos simplesmente seu cérebro permanece no trabalho.
Tu vive isso também?
Pois, eu vou te contar um causo vergonhoso sobre esse rolê de semanas mais puxadas de trabalho.
(E, talvez por isso, ligeiramente cômico)
Sigamos.
Você acabou de acompanhar comigo um breve extrato da semana.
Mentorei, atendi mulherada do Conselho, fiz estudo de caso para as mentoradas da Vênus, tomei decisões estratégicas, entrevistei candidatas.
Ou seja, ralei o bumbumzinho na ostra.
Para manter o mínimo de sanidade, eu cancelei o momento PF quando vi que precisaria de horas extras de sono — eu quase nunca faço isso porque ganho horas extras de sono, mas fico bem mais próxima de perder meu réu primário.
O meu treino e a yoga me colocam no centro, por mais cansado que meu corpo esteja quem na maior parte das vezes precisa do movimento é a cachola mesmo.
(Digamos que fiz um movimento arriscado abrindo mão do momento PF)
Pois muito que bem, até aqui temos uma carga não usual de trabalho, uma cachola menos focada e um corpo mais agitado.
A receita perfeita para libertar ela:
A DOIDA
Ela mesma
A doida que reside entre os neurônios de toda empresária.
Quando estamos com a sanidade em dia ouvimos beeeem de longe os impropérios que ela desfere.
Mas, quando o cansaço vem, o sono num tá legal ou a TPM bate na porta a danada daDoida liga seu megafone.
A voz começa a chegar clara e cristalina aos nossos ouvidos.
Acompanhe o discurso da doida:
“Ow, esse troço que você fez ai num tá muito bom não né?”
“Mariana, será mesmo que você vai conseguir repetir o resultado do último trimestre? Tenho minhas dúvidas”
“Estive pensando aqui e vi que aquela fulana que começou a empresa junto com você já fatura 89 milhões por dia e ainda tem a bunda dura, o cabelo sem friz e um boy com tanquinho, você viu?”
A doida começa a ficar mais doida.
As insanidades começam a ficar mais escabrosas, em uma escalada tão sutil que você sequer consegue perceber os absurdos na fala da doida.
Ai acontece um fenômeno perigoso: você começa a se COMPORTAR como a doida.
Ela nem precisa mais destilar insanidades no seu ouvido.
Você mesma começa a fazer esse trabalho sozinha.
E muito bem feito por sinal.
Como uma exímia discípula da Doida você começa a pintar de cocô tudo que faz.
De uma hora para a outra tá tudo ruim.
O crescimento do mês tá ruim.
Sua fala naquela consultoria foi ruim.
O desempenho da equipe ta ruim.
O coitado do Sr Fluido tá ruim.
Tudo está lindamente salpicado de bosta.
Se identificou?
Pois, essa era euzinha ontem às 22 horas.
Riam comigo dessa deplorável cena da empresária que deixou a Doida tomar conta.
Podem rir porque nesse exato momento eu solto risinhos incrédulos da minha situação algumas horas atrás.
Todas nós passaremos por isso incontáveis vezes na vida.
A Doida ja tem usucapião da nossa consciência.
Bom, por um milagre divino, eu, que até esse momento estava em posse da Doida, decido olhar as planilhas financeiras do mês.
Para a minha total surpresa (e horror da Doida), estava tudo indo ÓTIMAMENTE BEM.
Porem a Doida como o nome diz é doida.
Eu olho para os números e acho que tá errado.
“Eu devo ter colocado 84 mil mas na verdade era 8400”
Pega a calculadora e soma de novo.
“Não… foi esse 27k aqui que eu coloquei errado porque na verdade é 2700. Coloquei um zero a mais”
O que se segue é uma cena patética de eu fazendo a mesma conta repetidas vezes, em ordens diversas com a certeza que aqueles números estavam incorretos.
Vou narrar para terminar de me humilhar por completo:
Fiz as contas no excel, passei para a calculadora do notebook, refiz na calculadora do celular.
Se não fosse tão tarde da noite e Sr Fluido ainda tivesse acordado, eu pediria para a google assistente fazer a conta para mim.
“Ok, Google, verifique por favor se eu não perdi a sanidade porque a minha conta está dando muito mais zeros do que deveria.”
“Ok, Google, pois faça essa conta de novo porque assim não tem como esse aqui ser o resultado, tá? Eu sou uma péssima empresária e tá tudo horrível, portanto não é possível que esses números aqui sejam esses mesmo”
“Ok, Google, você não sabe matemática, vou ter que pedir para a Alexa”
Depois de longos minutos nessa batalha mental, eu finalmente aceitei a realidade diante dos meus olhos:
OW CARALHO TÁ TUDO BEM.
Tava tudo bem.
Tudo certo.
Metas em dia.
Caixa bonitão.
Projetos dentro do prazo.
Era a filha da puta da Doida.
Nada estava errado.
Nem na vida, nem na empresa.
Eu **estava tão tomada pela Doida que eu tava desconfiando do Excel, **gente.
DO EXCEL.
A insanidade era tanta que parecia plausível que uma conta de SOMAR pelo EQUICÉL estivesse errada (num sei separar sílaba de “excel” então me imagine falando pausadamente cada letra”).
Eu só num fiz a conta no papel porque num tinha ao meu alcance.
Agora eu to é rindo dessa desgraçada, mas eu passei um dia inteiro com a convicção de um macho hétero que todos os micro detalhes do CNPJ da qual sou genitora era feinho e mal azambrado tal qual um recém nascido enrugado e com cara de joelho.
Às vezes, a Doida se apossa de nós.
E tudo parece estar uma bela merda.
Você vai se questionar e ter a certeza que jamais deveria ter se metido nessa insanidade de empreender.
Acontece, aconteceu e acontecerá.
Todas nós empresárias precisaremos vez ou outra lidar com a porra da Doida.
Mas, lembre de mim quando a Doida aparecer.
Se hoje tudo estiver parecendo uma bela merda, verifique se você não tá só precisando de uma sonequinha.
A doida adora enlouquecer empresárias cansadas.
Beijos quase descansados,
Mari Fernandes