Carta 078
"Não" é uma frase completa
Sobre a decisão de não querer ser mãe — e a reflexão de por que as mulheres precisam acompanhar cada "não" de uma lista de justificativas, enquanto os outros "nãos" da vida simplesmente existem sem precisar de explicação.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA.
Hoje a gente vai falar sobre um tema espinhoso, delicado e muito importante
para nós:
MATERNIDADE.
Eu não sou mãe, mas aqui na Fluida metade das nossas mentoradas é mãe.
Eu passei a semana discutindo isso com um grupo de amigas empresárias e quero trazer esse tema para pensar juntas aqui.
Sendo mãe ou não sendo mãe, esse é um assunto que ronda a cabeça de toda mulher desde que nos entendemos por “mulheres”.
Logo nos primeiros aniversários já nos é dado uma boneca para brincar de “mamãe”.
E a real é que a maternidade, para nós mulheres, ela é quase como um check na vida.
Assim como alguns anos atrás ter um relacionamento, casar e ser esposa era um grande check da vida adulta, hoje a maternidade ainda é.
E tem um aspecto cruel desse tema que se chama BIOLOGIA.
Nós sabemos que temos uma data limite para produzirmos seres em nossas barrigas.
Nossos óvulos não estão nem ai para as mudanças da vida moderna.
A cada mês eles vão ficando mais velhinhos, mais cansados e menos propensos a, você sabe, gerar bebês.
Os homens, por outro lado, nunca precisarão se preocupar com isso, nesse caso a biologia foi bem generosa com eles.
Bom, não sei como foi para você. Mas, para mim e para várias amigas é como se já se nascesse com essa visão de que se a gente quiser ser mãe, temos uma DATA para concretizar isso.
Não sabemos bem que data é essa, mas no imaginário popular
“não dá para ser mãe velha”.
Se você está pronta, se você não está, você tem uma data.
O ser mãe para algumas mulheres é um sonho.
Para outras é conflito.
“Eu queria ser mãe, mas não queria ser mãe NESSE mundo”
Para viver essa experiência de gestar, parir, amamentar o mundo nos impõe um combo de experiências no mínimo desagradáveis.
A certeza que se você é mãe, você algum dia pode se tornar uma mãe solo.
A menor remuneração.
A demissão que vem depois da licença maternidade.
A completa falta de estrutura da sociedade para lidar com crianças.
É um puta peso.
E aí a gente fica naquele dilema entre ter que abrir mão de pedaços de si para poder ter uma outra coisa.
Só que essa coisa é uma coisa, essa coisinha chamada filho é definitiva.
Uma vez que você é mãe, você nunca deixa de ser mãe.
Aos homens, é dada essa possibilidade de se afastar, de não ser pai, de deixar de ser pai, de ser pai de fim de semana.
À nós, não é.
A realidade é assim, está posta.
Eu hoje, tenho clareza que não quero ser mãe.
E eu demorei muito tempo para externalizar isso com clareza para mim mesma.
Eu achava que eu “ainda” não tinha certeza se queria e ficava com medo de colocar algo tão definitivo para mim mesma.
O que olhando hoje não faz o menor sentido, porque todas as outras decisões da vida a gente não relativiza o desejo presente só por que ele pode mudar no futuro.
Quando queremos algo hoje, queremos algo hoje, e nos damos o direito de dizer eu não quero isso, ainda que exista alguma possibilidade de mudar de ideia.
Percebi que em todos os outros assuntos nos é dada a possibilidade de dizer “não” ainda que no futuro você diga “sim”, sem que isso te caracterize como uma megera desalmada.
Já sobre ser mãe, o troço não funciona assim.
Parece errado dizer “eu não quero ser mãe” parece definitivo demais, certo demais…. e polêmico demais.
Sempre ouvimos um “ah, pode ser que mais para frente venha a vontade”.
Eu acho isso uma loucura sem tamanho.
É como eu dizer na mesa de um restaurante que “não quero sobremesa” e aí alguém dizer assim”
“Ahh, mas você não pode dizer que não quer sobremesa, só porque você não quer agora, talvez daqui a 89 anos você queira, então é melhor você dizer que não sabe ainda se quer”
Eu não sei ainda se quero?
Porra eu sei, e tô falando em alto em bom tom.
EU NÃO QUERO.
Uma mulher que não quer algo agora deveria ter o direito de dizer, sem ressalvas, que NÃO QUER ISSO.
E eu me neguei esse direito um tempo.
As pessoas perguntavam:
“Cocê pensa em ser mãe?”
E eu respondia:
“Ah, por enquanto, não”
Eu me negava o direito de ser definitiva nos meus não
desejos.
Eu não quero ser mãe.
E quando escrevo isso me vem a vontade interna de explicar os meus porquês.
Durante um tempo eu achava que precisava acompanhar o meu “não” deles.
Entendi que não preciso.
Nem para mim.
Nem para ninguém.
E, por isso, pelo menos nessa carta, você não saberá dos meus motivos.
Não porque não quero compartilhá-los com vocês (o que eu adoro fazer),
mas para me autorizar a dizer um não seguido de ponto final.
“Não”
é uma frase completa e todas nós precisamos eliminar as reticências e dois pontos que insistirmos em colocar depois do não.
“Não”
é uma frase completa e você tem o direito de não desejar coisas ainda que elas sejam imensamente desejadas para a maior parte daqueles que te cercam.
“Não”
é uma frase completa e você merece ser dar a permissão de dizê-la em voz alta.
Eu não quero ser mãe.
Qual é o NÃO que você ainda tem medo de dizer para você mesma?
Como é o “ser mãe” para você?
Você escolheu? Não escolheu? Tem medo de dar uma resposta definitiva para você mesma?
O seu “não” e o seu “sim” para mim são frases inteiras.
E eu tô aqui para ouvi-los.
Me conta, tô esperando para te ler.
Mari Fernandes.