Carta 077
Nada de útil para escrever
Uma carta escrita sem inspiração que vira reflexão sobre identidade — e como quem a gente acredita que é determina quase tudo que somos capazes de fazer, inclusive liderar, vender e ser a CEO que queremos ser.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita está hoje?
Eu tô direta e reta.
Então, já vou começar soltando essa:
Eu tô com preguiça de escrever hoje.
Preguiça não, sem inspiração.
Tô sem inspiração para trazer algo completamente relevante, futucador de neurônios e que faça a senhorita derramar lágrimas, espumar de raiva ou rir de alegria.
Hoje, não temos inspiração.
Mas, esse projeto das cartas me mostrou que essa poha de inspiração e genialidade, às vezes, é meio super estimada.
Eu tenho meus enormes rompantes de criatividade.
Quando digo rompantes é porque eles saem arrebentando tudo.
Quando nasce um curso, aula ou áudio na minha cabeça, ele simplesmente nasce.
Sem contração, sem dilatação, o troço pipoca na minha cabeça e eu que me vire para ampará-lo em uma superfície que garanta a perpetuidade do dito cujo.
Essa semana em especial eu acho que devo ter produzido conteúdo para um mês todo sem nem ver. Acho que gravei uns 8 BBBs (BBBs são áudios com a real dos bastidores da Fluida que eu compartilho com as nossas mentoradas sempre que uma ideia dessas que nasce sem aviso prévio aparece), dei 5 horas de mentoria, criei uns 5 googles (google é o jeito carinhoso que chamamos aqui o banco de processos da Fluida que compartilhamos com as mentoradas) e fiz sei lá quantos stories sobre temas mais densos do que “bom dia” com um café na mão.
Bendita seja a ciclicidade hormonal que marina o meu cérebro com todas essas ideias maravilhosas durante 2 semanas do mês.
Bom, fato é que essa semana eu desembestei a fazer conteúdo sem nem ver, as ideias vinham e eu capturava as danadas em algum lugar.
Mas, eis que chega na hora de escrever a carta de hoje e não me vem nenhuma ideia fenomenal na cabeça.
Às vezes eu fico pensando no tema da carta a semana toda, um acontecimento me impacta e eu fico dias ruminando e refletindo para então colocar para fora na sexta, outros dias eu só sento, e escrevo sobre o que tô a fim.
Hoje eu não tava a fim de falar nada em especial, tinha até combinado com a equipe que traria aqui o tema que discutimos essa semana na VÊNUS.
Sobre um experimento pessoal que tô fazendo de fingir ser a Mari que eu quero ser daqui a 5 anos.
Mas, num sei se to a fim de falar sobre isso não, então vamos deixar esse tema em stand by por enquanto.
Eu não tô com nenhum tema em mente agora, mas se tem uma coisa que eu aprendi depois de mais de 70 semanas escrevendo religiosamente todas as sextas é que:
-
A verdade sempre é a melhor coisa que você pode oferecer.
-
O hábito supera várias vezes a inspiração
Então, vamos seguir no hábito da escrita e ver o que sai:
Sentei para escrever a carta de hoje com a certeza de que num tinha nada de relevante hoje para dizer (inclusive sustento essa certeza até agora).
Mas, eu vim, abri meu computador, peguei meu copão de água e comecei como sempre começo, com nosso clássico “buenas tardes, maravilhosas”.
E aí decidi falar a verdade, e olha só que curioso, já estamos na linha número sei lá quantos e a senhorita ainda tá comigo.
Talvez então o meu “nada relevante” de hoje seja “um tico relevante”.
Ou suficientemente interessante para você estar até agora lendo uma carta de uma doida que já te avisou no primeiro parágrafo que num tinha nada legal para compartilhar hoje.
Eis que agora acabo de perceber que essa última frase resgatou da minha cachola um acontecimento interessante e útil — que, esse sim, quero compartilhar com vocês.
Vamos à ele:
Essa semana uma mentorada da VENUS fez uma pergunta que eu tenho certeza absoluta que secretamente você já se fez mesmo que escondida:

Se você num se fez ESSA pergunta exata, já deve ter se feito variações dela:
“Será que eu consigo fazer ________ como a fulana faz? ”
“Não me vejo fazendo ______ porque não sou _____ como a ciclana”
E se tu ACHA que nunca se fez essas perguntas, eu vou usar minha leve arrogância para dizer que aposto uma travessa de brownie recém saída do forno que você já se fez SIM uma pergunta dessas.
Bom, seja qual for a variação da sua pergunta, ela reside num troço que eu vou chamar aqui de “apego distorcido à identidade”:
Explico: QUEM a gente ACHA que é determina a forma como a gente se comporta ou, em outras palavras, se achamos que somos “simpáticas” conseguiremos visualizar toda a sorte de futuro onde ser simpática é um traço positivo.
Se achamos que somos “antipáticas” os futuros onde achamos que ser simpática é um pré-requisito automaticamente se apaga para nós.
Bora aprofundar nisso:
Minha equipe me acha muito, muito, muito equilibrada.
Já recebi esse feedback algumas vezes “eu não sei como você não surtou”
“Se fosse eu, eu teria gritado comigo mesma”
O que essa mesma equipe não sabe é que EU mesma num sou equilibrada não.
A CEO da Fluida é.
Eu, Mariana Fernandes, tenho traços terríveis de impaciência, criticismo em excesso e altas exigências.
A CEO da Fluida é equilibrada. Centrada, uma líder segura, que transmite confiança, é justa (porém, não trouxa).
A minha equipe acredita que a CEO da Fluida é essa pessoa, eu acredito e por tanto eu consigo na maior parte do tempo SER essa CEO.
Agora, veja comigo esse outro lado:
Eu acredito que sou crítica demais, exigente demais… não são traços dos quais eu me orgulhe sempre, mas eles estão aÍ.
Como eu “sei” que sou assim é muito fácil para esse cérebro que vos fala agir de acordo com essa identidade que tenho sobre mim mesma.
E aí acontece que ACREDITANDO que eu sou crítica demais, eu me comporto exatamente assim.
Mas, então, como é que a mesma pessoa pode ser teimosa e cabeça dura numa parte da sua vida e ser equilibrada e justa na outra?
É que na verdade…
TCHARÃÃÃN:
Não existem duas Marianas separadas. Elas são só versões da mesma cabeça.
Existe a versão Mariana que mesmo contra todos os seus impulsos e traços mais cagados, ACREDITA que o MELHOR para ela é ser uma CEO justa e equilibrada.
Ela acha de verdade que isso é o melhor para ela, para a equipe e para a empresa que ela ama tanto.
Por conta disso, ela usa toda a sua força de vontade para domar os traços que acha cagado em si mesma.
E ela consegue fazer isso porque SER essa pessoa nesse contexto (uma líder e CEO justa e equilibrada) é algo que realmente vale a pena para ela.
Então, todo o esforço tentando SER essa CEO justa e equilibrada, no final das contas faz com que ela seja exatamente isso:
Uma CEO da qual tem orgulho de ser.
Existe também a versão da Mariana mimada, egocêntrica…
Que acha que “é assim mesmo” e que, por isso, nem acredita que é capaz de domar esses impulsos.
Essa versão da Mariana, portanto, deixa esses traços tenebrosos se expressarem sem nenhuma rédea.
E, olha que surpresa!
A Mari que acha que é nervosa e impaciente, acaba sendo essa Mari nervosa e impaciente.
Talvez você esteja absurdada nesse momento de saber que eu sou impaciente, esquentadinha e que tenho fortes tendências ao conflito e embate (vou aproveitar aqui para dizer que não sei nem contar quantas vezes eu entrei em discussões acaloradas, brigas quase corporais e palavreado nada lisonjeiros na minha época de atleta jovem na escola, por exemplo).
Talvez você até duvide que isso seja verdade.
“Num é possível que a mesma Mari que permanece empática, sorridente e acolhedora enquanto eu conto que usei o caixa da empresa para comprar uma bolsa verde neon, tenha pensamentos horríveis e violentos com a atendente do telemarketing que errou o pedido dela”.
Pois, eu sou essa pessoa.
E, surpresa, tu também é.
Eu descobri (ou estou descobrindo, melhor dizendo) que quem a gente acredita que é molda quase tudo que somos capazes de fazer.
Talvez você hoje acredite em algo parecido com isso aqui:

Ou que não tem maturidade suficiente para ter time.
Que não é uma boa líder.
Que não presta para ser gestora.
Eu não sei qual é a identidade que tu tá apegada.
Mas, eu tenho percebido que várias dessas “nós” que achamos que somos, são só projeções da nossa frágil cabecinha.
Se eu posso ter um auto controle inabalável com a minha equipe mesmo quando vez ou outra cagadas homéricas acontecem, acho que posso ser um tico mais tolerante com o Sr Fluido quando ele esquece de trazer o chocolate que pedi da padaria, num posso?
Talvez você também possa ser um tico mais firme com a sua equipe.
Ou um tico mais segura nas suas vendas.Ou um pouquinho menos cagona de falar seu preço não pode não?A gente num chega nessa vida pronta.E não chegaremos prontas também para sermos a CEO e dona dos nossos negócios.Mas, dá para a gente se desapegar dessa imagem frágil, incapaz e não carismática que você construiu de si mesma, não dá?
Beijos de quem algumas linhas atrás estava apegada a ideia de que não tinha nada de útil para escrever hoje,
Mari Fernandes.