Carta 074
Fazendo as pazes com a beleza
O relato honesto da difícil relação que uma feminista tem com a beleza — e a decisão de parar de deixar o patriarcado transformar momentos de auto apreciação em momentos de auto julgamento.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como está a senhorita nessa sexta de feriado?
Espero que pronta para uma reflexão honesta e alguns sacolejos carinhosos que estão por vir na carta de hoje.
Mas, antes de chegarmos neles, vamos para duas atualizações de dona Fluida.
- Essa semana participei pela primeira vez de um programa de rádio. Pensa na chiqueza que me senti indo até uma rádio, falando naquele microfonão que vemos na televisão? Se você quiser ver minha entrevista, é só clicar aqui ó
- Também fechamos o primeiro trimestre do ano com a meta SUPERADA! Porra, estamos ahazando! Fizemos o planejamento do segundo trimestre e de abril também. A expectativa é aumentar o time e implementar as mudanças que falei para vocês da VÊNUS 2.0.
Bom, atualizações feitas, vamos para a carta número 74.
A carta de hoje talvez seja um relato honesto da difícil relação que uma empresária feminista tem com o tema “beleza”.
Explico:
Depois que me entendi feminista, consegui com mais clareza entender todo o meu ranço com tudo relacionado ao que, corriqueiramente, se chama “universo feminino”.
A moda, por exemplo, não consigo olhar para uma roupa sem perceber as inúmeras regras de conduta que estão escondidas ali.
Sempre odiei aqueles bolsos falsos e precisei ir pesquisar para entender porque eles só existem em roupas femininas. Mulheres não tem BENS próprios, por isso não precisam carregar nada junto do seu corpo como os homens precisam. O que carregamos é “sem valor”, com batons e acessórios de emperequetamento. Portanto, pode ficar em uma bolsa “solta” do nosso corpo.
Eu sinto uma raiva incendiadora ao vestir uma roupa que limita meus movimentos, acho o cúmulo do absurdo que seja ok a existência de saias lápis que nos impedem de dar atravessar uma mísera rua sem colocar nossas vidas em risco.
Tenho horror a sutiã de aro e o formato que eles dizem que meus peitos devem ser.
Acho o cúmulo da loucura que sejamos obrigadas a dolorosamente arrancarmos nossos pelos sob pena de sermos vistas como ” desleixadas”.
Posso ficar aqui por uma duas cartas descrevendo todas as minhas questões políticas com o que chamamos “coisa de mulher”.
Para além de todas essas questões, o “se vestir” no meu mercado virou sinônimo de autoridade.
Existe uma imagem muito clara do que é competência.
E eu vou falar com toda a sinceridade do mundo, sem a intenção de criticar ninguém: o danado do look high ticket, para mim, é muito brega.
(Chamemos aqui de look hight ticket o conjunto de elementos que parece ter se tornado obrigatório para mentoras: blazer branco, acessórios dourados, tecidos lisos, batom vermelho, cabelo lambido…)
Eu o vejo quase como uma fantasia, me parece artificial demais, montado demais e humano de menos.
Junte isso ao fato de que uma das moedas que eu mais valorizo na minha vida se chama TEMPO.
Eu simplesmente não consigo aceitar a quantidade descabida de tempo que nós precisamos despender para estarmos belas.
Isso me incomoda visceralmente e me faz ter a sensação que estou trocando frações do meu tempo na terra para me fantasiar para os outros.
O que** faz com que eu me senta uma palhaça,** no sentido literal da palavra.
E isso definitivamente não é algo que meu cérebro faz de bom gosto.
A mesma relação eu desenvolvi com o danado do skin care.
O que, na minha visão, era para ser um pequeno momento de auto massagem e pausa no dia, começou a parecer ciência espacial.
São 98 passos, que devem seguir uma ordem exata e devem ser feitos ao menos duas vezes ao dia todos os dias, religiosamente.
Agora, de repente, nós temos que saber que ácido hialurônico não pode ser passado após a vitamina C, mas se for ácido glicólico aí deve ser passado antes e tal ácido não combina com o outro.
São produtos demais, etapas demais, regras demais.
Tudo isso me parece um roubo de vida das mulheres.
E, segundo os dados, é mesmo.
Gastamos 72 dias das nossas vidas depilando as pernas
1 ano e 3 dias nos maquiando
2 anos arrumando nossos cabelos
É inconcebível para mim todo esse tempo seja gasto para ficar BONITA.
Porém, SABER tudo isso torna a vida mais complexa do que NÃO saber.
Porém, às vezes penso que era melhor não saber de nada disso.
Minhas decisões diárias ficam muito mais complexas do que se eu fosse totalmente alheia ao patriarcado.
“A ignorância é uma benção”
Se eu não soubesse de nada disso, faria meu skin care sem achar que estou sendo enganada por cada produto inútil que me promete longevidade.
Teria os peitos redondamente encaixados em sutiãs com aro sem praguejar a noção de que peitos femininos devem se parecer com um formato biologicamente indisponível.
Sairia das lojas de roupas com a certeza que “investi em mim” e não com a sensação de injustiça financeira que é minhas peças custarem 3x mais do que as do meu namorado.
Saber demais das coisas** nem sempre torna tudo mais fácil.**
Em relação a beleza, me coloca em um dilema ético e moral toda vez que tenho que fazer uma decisão relacionada a isso.
Me pergunto constantemente “eu tô fazendo isso porque eu QUERO ou porque eu acho que se fizer as pessoas vão me achar mais bonita?”
“Me sinto gata com esse colar porque aprecio minha imagem ou porque fui ensinada que preciso me enfeitar para conquistar olhares masculinos?”
Você se pega nesses dilemas também?
Num tem uma feminista que eu conheça que também não os viva.
E, para facilitar toda a situação, eu escolhi como profissão um troço onde a minha IMAGEM é o cartão de visitas da minha empresa.
Boa sorte compatibilizando isso, Mariana.
Bom, esses são todos os argumentos que sempre me fizeram ter PAVOR de me apegar a rituais de beleza.
Quando eu digo pavor é no sentido mais cru dessa palavra.
Eu tenho calafrios de pensar que basta um lapso de consciência para que eu seja convencida que a minha cara como ela é não é bonita o suficiente.
Eu sei o poder envolvente que rituais de beleza têm sobre nossas cabecinhas.
Simplesmente não conseguimos mais nos apreciar sem uma unha feita, um rosto com base, um cabelo com luzes.
Ficamos FEIAS aos nossos próprios olhos quando somos só nós mesmas.
E eu tenho PAVOR de talvez um dia quem sabe, odiar quem eu sou.
Achar minha bunda mole demais, meus cílios grandes de menos…
Eu tenho medo de ser convencida a odiar meu corpo e a mim mesma.
É esse ódio ao nosso corpo que faz com que nossa maior preocupação antes de nossos casamentos seja estarmos magras e belas no vestido.
A existência onde odiamos quem somos é uma existência triste.
E eu tenho medos abissais de ter uma existência assim.
Mas, de uns tempos para cá, tenho descoberto que a existência onde não podemos de modo algum nos acharmos BELAS sob pena de cair em uma armadilha do patriarcado também não é lá uma existência muito feliz.
E me peguei pensando em como o patriarcado consegue arrancar TANTO de nós.
Seja de um lado ou de outro.
Nos sentimos mal por querermos ser bonitas.
E também nos sentimos mal quando nos achamos feias.
É complexo demais, exaustivo demais, feliz de menos.
Talvez, acho que encontrei algum caminho mais saudável e menos torturante nessa história com a beleza.
Não me perguntem COMO eu cheguei a ele, eu só sei que tô vivendo assim e acho que essa forma de encarar a beleza , a nossa beleza, pode ser aliviante.
Para tantas de nós que assim como eu vivem esses dilemas internos com o fato de quererem ser bonitas, ao mesmo tempo que sabem que ser bonita é um requisito inventado para nos oprimir.
E, por isso, compartilho minhas visões aqui, talvez isso ajude mais alguém.
Bom, eu resolvi acreditar no meu senso crítico.
Resolvi confiar que tudo que eu sei sobre mim mesma, sobre patriarcado e sobre feminismo será capaz de me proteger (ao menos em partes) de escorregar para uma jornada de auto ódio ao meu corpo como ele é.
Que eu não vou permitir que a auto celebração das formas do meu cabelo, da cor do meu olho sejam um motivo para eu temer estar apegada demais a minha imagem.
Acho que finalmente aceitei que não dá para ser coerente 100% do tempo no capitalismo.
Não uma aceitação resignada e cabisbaixa.
Mas, uma aceitação radical e LIVRE de que eu tenho que trabalhar com o que temos.
E o que temos hoje, o que EU tenho hoje, é uma vontade intrínseca de me embelezar para mim mesma.
De montar um danado de um look em que eu me veja ao mesmo tempo confortável e gata para caralho.
SEM que isso levante trocentas vozes na minha cabeça me alertando para os perigos do auto ódio que a indústria da beleza quer que a gente sinta.
Eu quero botar um batom que acho que cai bem para a minha pele sem ter medo de me achar feia sem a poha do batom.
Decidi que o patriarcado que mora muito alto na cabeça de todas nós vai ter que ficar calado quando eu quiser ficar bonita.
E que, talvez, uma das revoluções sociais mais importantes, acontece quando uma mulher, enfim, para de brigar com ela mesma.
O mundo nos impõe batalhas diárias em tudo quanto é esfera da vida.
Mas, para mim, uma das mais dolorosas é a batalha mental que me faz questionar cada passo que eu dou.
Sempre preocupada se esse passo é fruto da minha “eu” mais autêntica ou da minha “eu” que o mundo me ensinou que eu devo ser.
Hoje eu venho aqui te contar que talvez eu tenha conseguido driblar, mesmo que por alguns segundos a imposição da beleza.
Que de alguma forma os conceitos de “se achar bonita” parecem ter sido acomodados com os de “não ser valorada só pela sua beleza”.
Que nós, mulheres feministas, não precisamos de mais essa disputa interna nas nossas cabeças.
Podemos odiar depilar o suvaco.
E mesmo assim gostar da agradável sensação de pele lisinha.
Podemos nos compadecer de todas as mulheres que se mutilam em mesas de cirurgiões plásticos.
E ainda sim nos acharmos umas belas de umas gostosas com aquela bota de couro que ressalta nossas panturrilhas.
Eu decidi que não vou permitir que o patriarcado me roube momentos de auto apreciação e os transforme em momentos de auto julgamento.
Afinal, é isso que nós feminista ardentemente desejamos para todas as mulheres:
Uma existência livre de julgamentos.
Inclusive, e talvez acima de tudo, de nós mesmas.
Meu convite hoje é para que você faça as pazes com as suas contradições.
Que seja branda com elas e gentil com seus desejos que parecem ir contra o que você sabe.
Que você confie que no final das contas sempre está fazendo um bom trabalho.
E que aqui, do outro lado, existe uma mulher que não te julgará pelo caminho que você escolher.
Seja ele qual for.
Beijos Belos e Livres,
Mari Fernandes.
OBS 1: Todas as 73 cartas passadas podem ser encontradas no nosso blog. Você pode ler e reler quantas vezes quiser.
OBS 2: Temos um ritual de toda sexta que é responder esta carta com o nosso símbolo, a onda 🌊,. Se você leu, se ela te tocou de alguma forma, responda com textão ou com o nosso emoji para eu saber que bateu aí também.