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Carta 072

Domesticação da Raiva Feminina

Uma carta escrita com raiva de verdade: sobre como pedir para a mulher passar pela TPM de forma leve é um mecanismo de domesticação — e por que proteger o seu direito de se indignar é um ato político e necessário.

Mulheres

BUENAS TARDES MARAVILHOSA!

Como a senhorita está nesta tarde de sexta-feira?

A carta de hoje, preciso avisar a senhorita, não está sendo escrita com amor.

Eu posso dizer que a maior parte das cartas de sexta são escritas com amor, com emoções positivas e fofinhas, orgulho e emoções gostosinhas que eu quero compartilhar com vocês.

A carta de hoje, porém, está sendo escrita com…

Notas de raiva levemente ácidas

Se tu acompanha os stories, você já deve ter visto que eu fiz um story, uma brincadeirinha nos stories, dizendo que eu tinha acordado com uma TPM desgraçada e que estava prestes a perder o meu réu primário.

Pedi para nossas deusas maravilhosas seguidoras darem sugestões de dicas, dicas politicamente incorretas para superar a TPM.

E eu recebi algumas respostas boas demais como essas:

Só que teve uma resposta na caixinha me chamou a atenção em especial e eu quero mostrar essa resposta pra você:

Antes de continuar essa carta, bora deixar claro que a raiva dessa carta não está direcionada à pessoa que me mandou essa mensagem (inclusive, a pessoa que mandou essa mensagem é uma ótima pessoa, incrível e maravilhosa).

A raiva que me impulsiona a escrever essa carta está direcionada ao sistema que faz essas palavras serem direcionadas para as mulheres

Comecemos:

O que está escrito nessa mensagem?

“Parar de empatizar com o feminino apenas através da dor ancestral vai te fazer viver ciclos mais leves”

Por que esta mensagem me desperta raiva? E por que você também deveria sentir raiva ao ler esta mensagem?

Antes de tudo, bora relembrar que a raiva é um mecanismo evolutivo necessário para a espécie humana, necessária para a nossa sobrevivência.

A tal raiva foi sendo trazida como uma resposta a diversos estímulos em toda a evolução humana e cá estamos hoje no século XXI com respostas de raiva.

Fisiologicamente, para que que serve a raiva?

(O meu lado que formou em biologia precisa explicar)

A raiva, entre muitas situações necessárias a sobrevivência serve para a gente se defender de um potencial agressor, proteger nossa prole, demarcar um território com recursos escassos…. e mais uma cacetada de coisa.

Respostas emocionais também são respostas fisiológicas (e vice e versa).

Mas, hoje, na nossa sociedade, a gente pode olhar pra raiva e enxergar ela como um comportamento disfuncional até meio desnecessário.

Não precisamos caçar comida, nem sair fugindo de um predador esfomeado.

O problema é que a raiva só parece um comportamento disfuncional quando quem expressa essa raiva é uma mulher.

Meninos pequenos brincam de lutinha. Pais brincam de lutinha com seus filhos homens. Nós damos armas, facas, cassetetes, tacos de baseball, de brinquedo para meninos.

Homens comemoram um gol futebol, batem no peito, gritam, sacodem os braços (se você já viu discovery channel já viu esse mesmo comportamento em gorilas e chimpanzés).

Homens têm diversas formas de expressar suas raivas validadas socialmente.

Mas, quando mulheres expressam raiva, esse comportamento, de alguma forma, nos parece ser disfuncional.

O homem tem o direito de dar um murro numa parede, de socar a mesa, de xingar o juiz, de gritar a plenos pulmões quando um cara que ele nem conhece chuta uma bola para fora de um gol.

Mas, nós, mulheres embebidas nos nossos hormônios da TPM que despertam raiva, impaciência, nervosismo. Nós, mulheres com cólica, com dores físicas, com cansaço, com dor de cabeça, com peito inchado,

nós devemos aprender a passar por este período de forma leve.

E eu te pergunto, quem se beneficia o fato da gente não poder ter raiva de mecanismos fisiológicos que nos causam dor e desconforto?

Eu vou te dizer quem se beneficia disso.

Quem se beneficia disso são todas as pessoas que vão fazer na nossa sociedade coisas que prejudicam a gente, mas que vão esperar que a gente NUNCA REAJA, porque fomos ensinadas a “passar pelas coisas desconfortáveis de uma forma leve”.

Leve meu cool.

Para mim é vergonhoso, assustador e, de certa forma, triste que a gente ache que esta frase é uma frase cabível da gente falar para qualquer mulher.

“Você tem que aprender a passar por _______ (insira aqui qualquer coisa desconfortável) de forma leve”

Nós nunca falaríamos para um homem que levou um chute no saco que ele deveria aprender a se conectar com a masculinidade dele de uma forma mais leve.

A dor de um saco esmagado deve durar no máximo alguns poucos segundos.

E a gente ainda assim valida a dor, a raiva, os gritos, os xingamentos e os palavrões daquele homem.

Mas, para mulher que como eu passa 10 dias de TPM, sentindo dor, cansaço, frustração, irritação…

Parece que é cabível a gente dizer que ela deveria passar por esse processo de uma forma mais leve.

E que tudo que ela tem que fazer é “TENTAR” fazer isso ser mais leve.

Percebe como a gente tá, na verdade, culpando a mulher por uma reação fisiológica que ela não tem controle?

É como eu dizer pro homem com o saco esmagado, que ele deveria colocar uma coroa de princesa vestir um tutu rosa e rodopiar cantando let it go, let it go enquanto os testículos deles são consumidos por uma dor excruciante.

Sim, a carta de hoje tem raiva.

E por que essa carta de hoje tem raiva? Porque

precisamos parar de SUPRIMIR SENTIMENTOS FEMININOS QUE NOS INCOMODAM.

A raiva feminina incomoda porque todas as mulheres que se levantaram para reinvidincar qualquer porcaria que fosse primeiro precisaram sentir raiva.

Nós podemos sentir raiva.

Dizer para as mulheres que elas não podem ser raivosas (seja lá qual for o motivo) é um mecanismo de domesticação.

É como transformar um lobo selvagem e poderoso em um pet que rola por conta de um petisco.

Nós queremos mesmo sermos o bichinho peludo aguardando o petisco?

E é exatamente isso que o patriarcado quer de nós quando suprime a nossa raiva, quando diz que a nossa raiva é disfuncional, é incorreta, é errada, é patológica, é doença.

E a gente que lute para dar um jeito nessa danada.

O que eu quero te trazer com a carta de hoje é um lembrete pra você não permitir que ninguém domestique o seu sentimento

— seja eles quais forem.

Este discurso de patalogização da raiva feminina, da aceitação do feminino, da fazer as pazes com o feminino, ele parece muitas vezes um discurso libertador e empoderador.

Mas, basta um deslize para que este discurso se torne um discurso castrador, um discurso aprisionante e que eu tenho visto acontecer em muitos meios de mulheres relacionadas ao autoconhecimento.

A gente quer fazer com que as mulheres se sintam livres com quem elas são e que celebrem a natureza do que é ser mulher, mas a gente acaba fazendo com que essas mulheres não possam expressar a sua própria natureza.

A natureza das mulheres também é uma natureza raivosa, selvagem, agressiva, violenta. A violência não é um problema. A raiva não é um problema. Principalmente a raiva e a violência feminina. E esta frase que você está lendo agora, pode te parecer um pouco absurda.

A violência feminina, ela não é um problema.

Porque a violência feminina também é um mecanismo de proteção. Eu quero que as mulheres saibam usar a violência. E eu não estou dizendo a violência física. Também pode, mas eu estou falando da reação rápida e definitiva de impor limites e proteger as suas fronteiras. Esta raiva, esta violência, também é uma violência subjetiva.

Mas, nós mulheres estamos acostumadas a todos os dias a aceitarmos a violência que hoje a gente chama de violência contra mulher.

Homens, durante toda a história da humanidade, puderam expressar as suas violências em cima das mulheres. E uma das razões que faz com que isso seja tão universal e tão perpetuado há tanto tempo é que nós fomos treinadas a suprimir a nossa própria violência.

Nos tornamos as presas preferida do macho espumante.

A carta de hoje é um lembrete para que você sinta autorizada a ter raiva.

Tudo que nós mulheres conquistamos como classe um dia foi uma raiva não suprimida.

Tudo que hoje chamamos de “direitos da mulher” existe porque uma mulher em algum lugar do mundo ficou puta da vida e resolveu fazer

alguma coisa.

Proteja com unhas e dentes o seu direito de se indignar.

As grandes revoluções femininas começaram com…

raiva.

Beijos raivosos,

Mari Fernandes.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·