Carta 071
A medrosa no carro de som
A história que Mari nunca tinha contado a ninguém: o dia em que foi ao carro de som do movimento #EleNão tremendo de medo — e a reflexão sobre sermos as filhas das mulheres que pavimentaram os nossos caminhos.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Já ganharam um sonho de valsa hoje?
E uma frôzinha?
Ironias à parte, a carta de hoje é uma história que acho que nunca contei para ninguém.
Por um tempo, eu me sentia mais segura se ninguém soubesse.
Hoje, as coisas mudaram um pouco e não sinto mais que vou colocar a minha em risco se contar para mais pessoas (tu vai entender).
Quero dividir essa história com vocês por dois motivos: o primeiro é que esse episódio da minha vida tem relação direta com o dia de hoje
(nosso querido 8M)
e o segundo é que ela talvez te amedronte e te inspire na mesma medida.
Bom, vamos à ela…
O ano era 2018, mais precisamente por volta do final de setembro. Não se você lembra (acho difícil alguma mulher não se lembrar) que nessa temporada do espetáculo chamado Brasil estávamos descrentes que um moço chamado Bolsonaro tivesse conseguido votos suficientes para ir para o segundo turno.
Pois, conseguiu.
(Aqui preciso fazer um adendo: caso a senhorita não saiba, eu já deixei meu posicionamento político bem claro, eu sou uma mulher feminista de esquerda. Então, se o bocó do Bolsonaro tá num canto, eu tô correndo a léguas para o outro. Achei que precisava deixar bem explícito para quem é mais nova aqui, sigamos)
Eu nunca tive MEDO da política, na verdade os assuntos da política nunca foram algo que geraram em mim essa reação evolutiva do medo.
Até 2018.
Eu comecei a temer de verdade pelo futuro
de todo mundo.
Pensava nos meus amigos gays.
Nos direitos das mulheres.
No racismo desgraçado que seria ainda mais escancarado e, de verdade, tinha medo que esse excremento de gente conseguisse metralhar seus desafetos em praça pública.
Assim que saiu o resultado do primeiro turno, eu decidi que precisava fazer alguma coisa,
só eu na minha casa tentando virar voto de quem quer que fosse usando meu instagram não seria suficiente.
Não me lembro como, mas recebi uma mensagem em um grupo do whatsapp de uma mulherada que estava se juntando para fazer uma reunião e ver o que poderíamos fazer coletivamente para impedir a candidatura do referido ser.
Entrei no grupo onde as coisas estavam sendo conversadas, chamaram uma reunião, dia de semana, luz do dia no centro de Brasília.
Fui, sem conhecer ninguém. Eu TINHA que ir.
Acho que deviam ter umas 30-40 mulheres, de tudo quanto é tipo de origem que você pode imaginar.
Algumas militantes de nascença, outras pessoas tão comuns e alheias à movimentos políticos quanto eu.
Ficou decidido que faríamos uma manifestação para dali 2 ou 3 semanas, não me lembro direito.
Aí começa a saga.
Eu vivi nesse mês de outubro uma das experiências mais deslumbrantes e avassaladoras
da minha vida.
O clima era um mix de pânico, com raiva e esperança.
Imagine juntar numa sala de reunião mulheres de tudo quanto é tipo, jeito, credo, etnia, partido, sem partido… com o objetivo de impedir o que na nossa visão seria uma catástrofe para todas (o que realmente foi).
Aqui eu queria destacar a IMENSA logística necessária para organizar o que a gente chama de “manifestação”.
Se você não é de Brasília é importante entender que passeatas e manifestações são eventos que nós vemos dia sim dia não.
O centro do poder é aqui, é aqui que as pessoas pedem (e dão) coisas para a sociedade.
Bom, eu não tinha a menor ideia do tamanho desse trabalho.
Lá fui eu com meu tablet (meu Trello na época) tentar
usar todas as minha habilidades de gestão para contribuir com a organização
daquilo.
Eu não sabia que em uma manifestação organizada são criadas comissões, como, por exemplo: comissão de cultura, infra estrututa, segurança, comunicação.
Cada uma assumindo a posição que achava que podia contribuir mais.
Precisaríamos de rádios para a organização se comunicar no meio de sei lá quantas mil pessoas.
Caixa de som, megafone , carro de som, trio elétrico, autorização de sei lá quantos órgãos.
Água, a organização precisava ter água para beber.
Foram dias e dias de reuniões e milhares de decisões e necessidade de chegar em consenso.
Durante as reuniões, eu me sentia energizada, preenchida, eu sentia que estava fazendo a diferença e ficava admirada, admirada de dividir a sala com mulheres que fizeram da sua vida a militância por todas nós (é sério , muitas mulheres do grupo já tinham passado dos seus 50 anos).
O problema era o DEPOIS da reunião.
Tínhamos medo
de sair todo mundo junto de uma vez.
Não podíamos registrar em ata quem estava presente.
Não dava para ter um grupo no whatsapp por exemplo.
Não era seguro ter um local onde nossos nomes, fotos e telefones estivessem todos acessíveis.
Eram reais os casos de sérias represálias e perseguições….
Bom, nessas semanas eu mal dormi.
Era muita adrenalina, eu sentia o meu corpo totalmente fora de sincronia com ele mesmo.
Não existia mais nada, só a contagem regressiva para o grande dia.
E fomos nós para o grande dia.
Eu lembro claramente a sensação de pensar qual roupa eu iria usar para que eu fosse o mais invisível possível.
“Vou colocar um boné e prender o cabelo, vai ser mais difícil me reconhecerem”
Acompanha o absurdo desse pensamento comigo:
Eu estava com um medo real, concreto e compartilhado com outra dezena de mulheres muito mais calejadas nesse rolê de militância do que eu, de saberem que eu era.
Eu tinha medo de ser perseguida.
A real é que no meu cérebro, o cenário onde alguma de nós seria morta durante ou depois da manifestação era real.
(Preciso te lembrar que nesse ano eram REAIS os ataques armados a grupos contrários ao bostão em questão. Mais reais e frequentes do que ficávamos sabendo pela grande mídia, é importante ressaltar)
Eu tremia.
Coloquei calça comprida, blusa comprida, prendi o cabelo, coloquei um boné e fui.
Eu tremia.
Não consegui comer direito.
Sentia o estômago embrulhar.
Tive vontade de chorar algumas vezes no trajeto.
(E, lembrando desse dia, me vem essa vontade de novo).
Eu sentia que estávamos indo para o abatedouro.
Chegamos ao ponto de concentração da organização. Tivemos que criar uma forma de nos reconhecer em meio a multidão.
Se alguma coisa acontecesse, a gente precisava ter certeza que não estávamos dando informações para nenhuma infiltrada.
(Eu vou parar aqui e novamente me abismar com o nível de utopia descritas nessas palavras, me sinto escrevendo uma período histórico logo após a idade média… mas era Brasil do século XXI mesmo)
Bom, a manifestação começou. E puta que pariu que coisa mais lida que eu já presenciei na minha vida.
Eu não conseguia ver onde acabava o mar de mulheres.
Não dava para saber onde começávamos e onde terminávamos.
Nós faríamos a MAIOR manifestação de mulheres da história recente do Brasil.
Sincronizamos atos em todo o Brasil e Fora dele.
O movimento #Elenão iria virar página no Wikipedia depois
(Você pode ler mais sobre aqui ó https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_Ele_Não)
Mas, lá, naquela hora, não sabíamos disso.
Eu era apenas uma empreendedora amedrontada tentando ser útil
em meio a mulheres muito mais calejadas que eu nessa vida.
Esse dia parece como um ano inteiro na minha memória, tenho muitas e muitas horas de imagens e videos gravados na minha cabeça desse dia.
E um momento em específico ficou marcado, e é em torno dele que gira toda essa carta.
Lá pelas tantas eu ouço no rádio uma das mulheres da organização dizer:
“Tem dois caras de coturno perto do carro de som segurando alguma coisa que parecem um arco e flecha e uma faca""Fulana, vê se você consegue acionar a polícia”
Eu estava no carro de som.
No alto.
Bem visível.
Em destaque.
Eu me senti um alvo.
Eu tinha a sensação CONCRETA que esses dois caras (de coturno) estavam apontando qualquer que fosse o artefato que eles estivessem levando em minha direção.
Eu não sei muito bem como descrever a sensação, mas era como se eu conseguisse ver de fora (tipo aquelas cenas de filme) uma mira vermelhinha apontada para mim.
Eu posso dizer seguramente que esse foi o dia mais aterrorizador da minha existência.
Fui internamente tomada pelo pânico.
Eu não sei quanto tempo levou para a polícia abordar os sujeitos e averiguaram que sim eles estavam com um arco e flecha escondido em uma sacola numa manifestação SÓ de mulheres querendo fazer sabe-se lá o que.
A situação foi resolvida.
Estávamos “a salvo”.
O ponto crucial dessa história é que EU estava tomada pelo pânico.
A mulheres ao meu lado (repito: acostumadas a décadas de militância) agiam como formiguinhas operárias numa colmeia muito da organizada.
Cada uma já sabia o que fazer.
O que ao mesmo tempo me tranquilizava me fez refletir que é ÓBVIO que elas já tinham passado por situações parecidas.
A novata apavorada era eu.
O que me chocou mais uma vez: “como é que essas mulheres conseguem manter a sanidade nesse contexto?”
“Como que elas podem continuar organizando atos, e falando em megafones mesmo depois de saberem que tem alguém tentando feri-las mais de uma vez?” “Como?”
Eu demorei MESES para me recuperar de toda a tensão, estresse e agitação emocional que vivi naquele 2018.
“Como elas conseguiam?”
Ontem, quando estava pensando qual seria o tema da carta de hoje me veio na memória esse flash da minha vida.
E passei alguns tempos refletindo sobre mulheres que vieram antes de nós.
Bem antes.
Em cima daquele carro de som eu era uma mulher que tinha autorização da polícia para fazer o que estava fazendo.
As autoridades sabiam da manifestação, e tinha a obrigação de PROTEGER todas que estivessem presentes.
Lá, fazendo algo legal, protegida pelo aparato do estado eu me sentia um alvo.
Eu não tinha filhos, marido, nem uma casa para sustentar.
E o pânico que sentia era suficiente para eu me recriminar dezenas de vezes mentalmente porque eu tinha inventado de me meter com isso.
“Que ideia estúpida colocar minha vida em risco por isso”
“Por isso”
“Por isso o quê?”
Eu me peguei pensando que miríade de sentimentos corriam as veias das mulheres que um dia fizeram a primeira greve de mulheres da história.
Que grande variedade de medos estavam presentes nas que marcharam ILEGALMENTE pedindo o voto feminino.
Qual espécie de pânico sentiu a primeira mulher mulher negra que se recusou a se levantar para um branco sentar no seu lugar em um ônibus.
Essas mulheres não tinham um celular para gravar possíveis violações contra elas.
Não existia polícia feminina.
Quantas vezes elas fizeram reuniões secretas, em lugares escuros, usando roupas que não as identificassem?
Quantas delas eram mães que corriam seriamente o risco de serem expulsas de suas comunidades?
De perder o contato com seus filhos para sempre?
Pensei nas aquelas que sabiam que chá servia para dor de cabeça e que, ao cultivar um simples boldo no quintal de casa, corriam o risco de serem queimadas vivas na frente de toda a comunidade.
Qual o tamanho da coragem que exige ser uma mulher dessa?
Me senti covarde pensando nelas.
Pequena, até meio ridícula de ter tido tanto medo de um arco e flecha.
Talvez hoje você se sinta, em muitos desafios da sua vida, assim também.
Pequena, fraca, incapaz….
Frente aos desafios que essas mulheres enfrentaram as nossas batalhas do século XXI parecem piada.
Mas, tem 2 jeitos de enxergar isso.
O primeiro onde a gente se sente fraca e medrosa frente a coragem dessas mulheres.
Ou o segundo…
Onde a gente percebe que nós somos as filhas, netas, tataranetas de cada uma delas.
Nós somos o que um dia elas chamaram de “as gerações futuras”.
Nós somos as mulheres que um dia elas SONHARAM em ser.
Somos as que puderam trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro, divorciar, usar pílula anticoncepcional…
A maior parte dos direitos pelas quais essas mulheres lutaram sequer foram usufruídos por elas mesmas.
Mas, elas estavam lá (provavelmente tão em pânico quanto eu naquele carro de som) fazendo o que fosse possível para que a gente pudesse se descabelar porque o lead ficou mais caro.
Eu não sei se essas mulheres eram corajosas.
Ou se simplesmente o pânico era tão avassalador que seus corpos precisavam fazer “alguma coisa”.
O que eu sei é que eu agradeço por cada uma delas, a sua maneira não ter desistido da gente.
A gente, as mulheres que hoje estão aqui lendo essa carta.
Você não precisa subir em um carro de som.
Talvez sequer precise participar de alguma manifestação ou queimar algum monumento histórico para fazer jus a essas mulheres.
As batalhas do nosso tempo são outras.
E acontecem em vias diferentes.
O abrigo que você dá para a amiga que está em um relacionamento abusivo.
O filho homem que você ensina a lavar a louça.
A reserva de emergência que faz para si mesma separada da do seu marido.
O livro sobre feminismo que posta nos stories…
O CNPJ que abre no seu nome.
Eu não sei qual é a batalha que você dá conta de travar hoje.
Mas, seja lá qual for, saiba com certeza absoluta que existe no futuro, daqui a 50, 100 anos, uma mulher que estará escrevendo uma carta sobre como fomos corajosas de abrir esses caminhos para elas.
No futuro que desenho na minha cabeça as batalhas das mulheres serão todas de uma inutilidade tremenda.
Elas serão dispensáveis.
Elas terão direitos reprodutivos sobre seus corpos.
Serão vistas como seres humanos.
Teremos feito tanto por elas que elas sequer precisarão pensar em levantar suas bundas da cadeira para pegar em um megafone.
Você consegue ver esse futuro comigo?
Pois saiba que você faz parte dele.
Com amor, esperança e orgulho do que construímos juntas,
Mari Fernandes,
A medrosa em cima do carro de som.
OBS: Por motivos de medo total na época, tenho poucas fotos dessa história, mas vou deixar aqui registrada 2 que guardei para me lembrar que eu participei disso.

