Carta 069
Jurema e os 1974 anos
A história real de uma empresária que passou cinco anos construindo uma empresa independente dela — e que hoje, grávida e entediada, prova que gestão feminista é o que permite ser empresária e qualquer outra coisa em paz.
BUENAS TARDES, DEUSAS MARAVILHOSAS DA MINHA VIDA!
(Por essa introdução você já deve notar que hoje eu to empolgadíssima)
Para começarmos nossa carta de número 69 (sugestivo, não?), v
ou começar com os troços legais que rolaram na Fluida
na última semana antes de fazer você precisar enxugar os olhos com lencinhos ao final dessa carta.
Vamos ao troço legal:
Estamos com LISTA DE ESPERA PARA O CONSELHO ESTRATÉGICO (palminhas empolgadas e saltitantes)
E por que isso é legal para a ppk para nós?
Por uma série de motivos, mas alguns deles são:
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Eu decidi matar o nosso produto best seller em 2023 e parar de fazer lançamento justamente porque eu estava sentindo MUITA falta de mentorar. Não foi só esse o motivo, mas esse foi um dos que mais pegava no meu coração. Ter botado o Conselho na nossa esteira (um produto totalmente ANTI escalável que vai contra todas as cagações de regra do mercado), por si só já foi uma reafirmação de que podemos de vez quando subverter as regras
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Ter um produto com esse ticket (R$ 25k) com lista de espera é uma confirmação muito forte para mim do que eu vim fazer nesse mundo. É um puta orgulho para mim saber que a gente sabe o que tá fazendo
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Eu amo, amo, amo, amo demais acompanhar mais de perto a evolução de um negócio. É como ver um baby crescendo e se tornando um adulto todo maduro e bonitão e é sobre babys que vamos falar hoje
Bom, comemoração feita, vamos para a carta de hoje:
A carta de hoje é um causo, uma história baseada em fatos realíssimos que eu não posso manter só para mim. Não tem cabimento só eu nesse planeta terra ter testemunhado isso.
Então, vou dividir com vocês…
Hoje vamos falar da história da Jurema.
(Espero que não seja necessário dizer que Jurema é o nome fictício de uma empresária de carne osso que eu vou preservar a identidade)
Jurema me procurou em 2019.
Perdida, exausta, descabelada, cansada.
Jurema tinha uma empresa em que ela tocava tudo sozinha.
Passava o dia inteiro atendendo cliente pelo celular e resolvendo pepino. O nicho dela exigia que ela começasse a atender os clientes às 7 da manhã e só parasse lá para as 6, 7 da noite.
Quando eu digo “sem parar”, é sem parar mesmo.
Num tinha tempo nem para ir comprar uma brusinha (palavras dela).
Jurema me pediu uma consultoria e lá fui eu fazer o diagnóstico da empresa dela.
(Para você ter ideia de quanto tempo tem essa história, as consultorias que eu fazia ainda eram presenciais conforme os incas e maias faziam)
Sentamos na sala do escritório.
Eu abro meu computador, cumprimento Jurema e peço:
“Jurema, abre ai as suas planilhas financeiras da empresa para eu dar uma olhada”
Jurema me olha com uma cara esquisita e diz:
“Não tenho”
“Ok, Jurema, deixa eu entender então os preços dos seus serviços, abre por favor sua tabela de preços para mim”
Jurema novamente me olha com uma cara peculiar e começa a explicar.
“Fulano paga 400. Já o Ciclano ele paga 374,28, agora o Beltrano ele paga 592, mas às vezes ele atrasa…”
Jurema tinha uns 12 preços aleatórios e concomitantes para o mesmo serviço na empresa.
Planilha financeira? Nada.
Sistema de emissão de nota? Não tem.
Contrato? Nunca nem passou na porta.
Sistema de tarefas? Tem, mas acabou.
Mas, Jurema estava lá sentada na minha frente dizendo “quero fazer isso direito mas não sei como”.
Eu pensei
“não se preocupe, Jurema, eu tenho um plano”
(guarde essa frase).
A partir dessa consultoria, entramos juntas numa desafiadora e longa jornada de transformar a Jurema sobrecarregada em uma empresária profissa.
Jurema tinha uma ENORME dificuldade em cobrar e gerenciar outras pessoas, era tanto o medo de “ser chefe” que ela falou para mim várias (e várias e várias) vezes que não queria ter equipe, que queria só “trabalhar um pouquinho menos”, mas que equipe de jeito nenhum.
Eu só pensava na minha cabeça “ô, Jurema, você não sabe nada dos meus planos”
Bom, além da gestão da empresa acontecer toda na cabeça da jurema e além do enorme medo de ter que lidar com equipe,
Jurema também tinha um traço peculiar:
Ela não se dava ao luxo de NÃO fazer.
Explico:
Jurema, assim como várias de nós, trabalhava para cacete e sentia uma culpa enorme de “não trabalhar”.
Quando eu sugeria que uma atividade podia ser delegada ela falava “mas, aí eu vou fazer o que?”
Ela confundia comprometimento com se exaurir até a ultima gota de trabalho.
Fomos trabalhando cada um desses aspectos.
Cria planilha financeira daqui.
Aprende a criar fórmula no excel dali.
Se programa para NÃO trabalhar num domingo (sim, mais de uma vez eu tive que dar para a Jurema a tarefa de NÃO trabalhar num determinado dia ou período).
E as coisas foram se ajeitando, tijolo por tijolo.
A essa altura da história, preciso te dar outra informação importante.
Jurema era nova, mas já tinha planos futuros de ser mãe.
Uma das coisas que ela falava (como se fosse um plano beeeem distante) era que tinha que dar uma ordenada na empresa para quando ela engravidasse.
Ela falava isso com o maior tom de descrença do planeta terra.
Tipo assim “ó, eu queria muito que isso fosse possível, mas eu mesma não consigo vislumbrar como raios essa empresa que sou só eu vai funcionar para eu parir, mas que eu queria, eu queria”
Informação importante compartilhada, vamos seguir a história.
Jurema fez a primeira consultoria comigo em 2019 e nunca mais saiu da Fluida. Consultoria, Empreender sem Enlouquecer, Vênus… gabaritou a esteira todinha.
Nessa brincadeira passamos juntas 5 anos.
Corta para 2024, Jurema me pede ajuda num Hotseat e diz:
“Tô entediada”
(Nesse momento você se questiona: mas como é que pode uma empresária estar entendiada? Como é que tem tempo para tédio?! Eu não tenho tempo as vezes nem de lavar o cabelo decentemente)
Bom, vamos desvendar esse mistério:
Nos 5 anos juntas, nós fizemos uma porção de mudanças na empresa
de Jurema:
- Construimos uma sede nova (fora da casa dela, assim ela conseguia separar trabalho/casa)
- Contratamos a primeira pessoa da equipe, depois a segunda e eita, estamos na terceira (ou seria quarta já?)
- Implementamos um sistema de tarefas. Jurema coloca as tarefas no sistema e, SURPRESA, o time executa.
- Colocamos para funcionar rituais de gestão com o time, Jurema consegue se alinhar com o time e ficar segura que eles vão cuidar da empresa como ela cuidaria.
Jurema, minhas amigas, estava entediada por um motivo:
Ela não tinha mais nada para se preocupar.
Sim, é isso mesmo que você leu.
A empresa tava lá andando sem que ela precisasse perder tufinhos de queratina da cabeça.
Dinheiro no caixa, reserva de emergência pessoal, um time funcionando e lista de espera de clientes.
(Nesse momento, qualquer empresária que ainda não é uma Jurema, está invejando fortemente essa existência quase mística que Jurema pode desfrutar. Eu te entendo)
Jurema podia nesse momento finalmente aproveitar o que passou 5 fucking anos construindo:
Sua licença maternidade.
É minhas amigas,
Jurema está grávida.
Sabe o objetivo distante de meia década atrás? De poder se afastar do negócio para ser mãe?
Jurema saiu do hotseat com um plano de ação:
Seu negócio não precisa mais de você agora.
(Saboreie essa frase, vou te dar uns momentos para pensar nela)
Por que eu escolhi te contar essa história na carta de hoje?
Porque essa conquista da Jurema também é um marco pessoal para mim.
Desde o dia zero da Fluida eu queria que as mulheres entendessem que o mundo não vai pegar leve com a gente quando o assunto é grana e maternidade.
Que não dá para seguirmos a visão de negócio de quem tem espermatozóide ao invés de óvulo.
Que TUDO muda em uma empresa quando a dona do CNPJ é uma mulher.
E eu queria provar para o mundo que se a gente trouxesse um olhar feminista para esse universo, um dia as empresárias poderiam ser empresárias e qualquer outro papel nas suas vidas EM PAZ.
A conquista da Jurema me preenche de orgulho, de felicidade e de fé no futuro.
Porra! Para para pensar comigo:
Tá tudo tão em ordem que a bicha está ENTEDIADA.
Quando é que uma vez na sua vida como empresária você ficou assim: sem porra nenhuma nova para fazer?
É uma vitória!
É como se eu conseguisse ver a genealogia das próximas gerações sendo mudada na frente dos meus olhos.
Como um efeito borboleta para o futuro.
Conseguimos.
Jurema conseguiu.
Levou 5 anos.
Meia década.
Mas, o que é meia década para séculos de socialização feminina?
O que são 5 anos para os os 1974 anos que levamos no Brasil para permitir que as mulheres tivessem conta em banco?
Não é nada.
E, ao mesmo tempo, é tudo
Hoje eu quero celebrar a vitória da Jurema.
Porque ela é também uma vitória de todas nós.
(Eu num te disse que tinha um plano, Jurema? Que bom que você acreditou nele junto comigo)
OBS: Bateu em você a carta de hoje? Te deu vontade de dar um abraço apertado na Jurema? Apertar ela e molhar o ombro dela com as suas lágriminhas de felicidade? Pois dê seu abraço (digitalmente, né?), manda seu recado que eu vou fazer chegar nela