Carta 058
A bolsinha que só cabe batom
Em processos seletivos, a maioria das mulheres diz que outra pessoa acredita nelas mais do que elas mesmas. Uma carta sobre como a socialização feminina nos treina a performar fragilidade — e o quanto isso nos custa.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Chegamos hoje na quarta 58, faltam só mais 3 cartas para o ano acabar.
Você também tá com uma sensação que 2023 voou e ao mesmo tempo tem 84 anos que estamos em dezembro?
Eu estou.
- Aqui na Fluida estamos com dois processos seletivos abertos
- Gravação de novos conteúdos e nova linha editorial (viu lá no insta hoje?)
- Planejamento anual da Fluida para 2024.
- Preparação da Imersão de planejamento anual de vocês — sim, vai rolar imersão para vocês tal qual fizemos no ano passado, na próxima carta eu trago os os detalhes para vocês
Bom, atualizações feitas, bora pra carta de hoje!
A carta de hoje tem um quê de arrogância com pitadas de subversão.
Talvez a cartilha do mundo business torça o nariz para uma informação que vou trazer aqui.
Mas, se é para o bem geral da nação eu vou compartilhar.
Comecemos…
Como comentei aqui em cima, a gente está com duas vagas abertas aqui na Fluida para alguns cargos novos.
E time é um dos troços que desde o dia zero a gente se preocupa MUITO aqui na Fluida.
Eu lembro das primeiras reuniões de brainstorm do que viria a ser a Fluida, ali a gente já estava sonhando o dia que teríamos nossas “sereias”.
Sim, nós nomeamos a mulherada que trabalharia com a gente antes mesmo da gente ter uma empresa existente 😂
Bom, além de ser um sonho, ter um time sempre esteve na nossa visão estratégica.
Sem time, não existe empresa e eu sempre quis ter um time para chamar de nosso.
Pois muito que bem, lá atrás, há uns bons dez anos, quando a Fluida nem era uma ideia ainda, eu tinha o Boas Notas (uma escola de esforço escolar). No Boas Notas eu era a responsável pelo processo seletivo e treinamento de todos os professores.
Entrevistei uma cambada de gente das mais variadas formações que você pode imaginar, muitos deles com conhecimentos técnicos completamente diferentes dos meus (tipo física, geologia e troços cheios de números que eram absolutamente aversivos para uma bióloga em formação),
Bom, 10 anos atrás quando eu fazia os processos seletivos do Boas Notas, curiosamente a maioria ESMAGADORA dos professores que passava no processo seletivo eram professorEs. Eu entrevistava e selecionava num volume MUITO menor MULHERES (guarde essa informação).
Hoje, na Fluida, a gente só traz mulheres para o time, então eu deixei de ter essa parâmetro de comparação de como homens e mulheres se comportam nas mesmas situações.
10 anos depois, cá estou eu entrevistando uma cambada de mulheres para a Fluida e percebo um fenômeno que sempre aconteceu nas entrevistas, mas que eu não tinha sacado
lá na época do Boas Notas.
Vou explicar melhor:
Eu não deveria abrir explicitamente isso, porque isso costuma ser um “segredo” de contratação, mas vou contar uma das perguntas que fazemos em nossos processos seletivos
A pergunta é mais ou menos assim:
“Quem é a pessoa que mais acredita em você?”
Pensa você, e responde para mim.
Quem é?
Pensou?
Bom, agora vamos analisar as respostas:
Elas costumam variar entre meu marido, meu pai, minha avó, minha irmã, a amiga de infância….
Temos pessoas nas nossas vidas que acreditam muito em nós, isso é ótimo.
Mas, eu vou lá e pergunto “por que essa pessoa é a que mais confia em você?”
Pronto, aí o problema aparece.
Eu não fiz a conta no papel, mas de cabeça chuto que em 90% das entrevistas, a resposta é uma variação de “o Fulano é a pessoa que mais tem fé em mim porque ele acredita em mim mais do que eu mesma.”
Leia o que está em negrito.
Mais do que eu mesma.
Se eu fosse qualquer recrutador padrão do mercado da macholândia, sabe o que eu deveria deduzir dessa resposta?
Que a candidata que responde isso não tem o que é preciso para assumir o cargo.
Pensa comigo: se a própria pessoa diz que as outras confiam mais nela do que ela mesma, ela tá deixando bem explícito que tem dúvidas sobre as suas capacidades.
E esse definitivamente não é o perfil que as empresas buscam para liderar os seus setores. Sim, não se espante, é assim mesmo que uma cambada de RH avalia as respostas dos candidatos.
Mas, acontece que eu não sou um recrutador padrão da macholândia.
Eu sei o que é socialização feminina, tenho uma escola feminista e já interagi com centenas suficientes de mulheres para entender que, em alguma medida,
TODAS nós duvidamos de nós mesmas.
Eu consigo compreender que isso não significa que essa mulher é fraca, que ela é incompetente, que ela não é ambiciosa o suficiente para o cargo…
Agora pensa comigo: os recrutadores do mundo todo vão entender isso?
NÃO, definitivamente não vão.
Essa danada dessa frase
“fulano confia mais em mim do que eu mesma”
talvez seja responsável por muitas mulheres serem empurradas para abrir os seus negócios.
Sabe por quê?
Simplesmente porque elas não conseguiram crescer nos seus empregos.
E não por que não são competentes, mas porque PERFORMARAM fragilidade em momentos decisivos de suas carreiras.
Sim, performamos fragilidade.
Aprendemos que a donzela delicada que quebra suas frágeis unhas ao abrir uma bolsinha minúscula que não cabe poha nenhuma além de um batom é o esteriótipo de “elegância” que devemos seguir.
A grande armadilha
é que o mundo não confia muito em líderes frágeis.
Eu perco fios de cabelo pensando que as mulheres não estão fazendo entrevistas só para a Fluida.
Quem dera eu pudesse empregar todas as mulheres do planeta Terra, mas eu não posso.
Elas estão participando de entrevistas em outras empresas em que recrutadores e entrevistadores sequer sabem o que é socialização feminina.
Elas estão disputando o cargo e o aumento de salário com um colega que vai sentar na mesa do chefe e vai dizer “pode botar essa responsabilidade nas minhas costas porque eu sou a melhor pessoa para isso.”
E às vezes esse colega não é.
Mas, a mulher que carrega o setor nas costas não vai ter (como o mundo gosta de dizer) “culhões para botar o pau na mesa” e dizer “eu sou a pessoa que você precisa para esse cargo”.
A gente vive uma disputa injusta.
Não advogamos em causa própria
E, meu amô, sinto dizer que não tem defensoria pública para lidar com esse B.O.
O tal do gap de confiança, os números que a gente traz sobre as disparidades de salário e promoção entre homens e mulheres, esses dados que parecem distantes…
eles não são sobre “mulheres” no plural.
Eles são sobre A mulher que escreve essa carta.
Ou sobre A mulher que está lendo agorinha o que eu escrevo.
Sim, tu mesma.
Esses dados não acontecem lá na conchinchina, eles acontecem na SUA história.
Se questiona aí:
“Quantas vezes eu fiz isso sem saber?”
“Quantas vezes eu devo ter respondido pra minha chefe ou pra alguém que trabalha comigo que eu não sei se eu sou a pessoa certa pra tal coisa?”
“Quantas vezes eu suavizei minha competência?”
“Quantas vezes alguém me disse ‘eu acho que você não é a melhor pessoa pra esse cargo’ e eu respondi ‘tudo bem, se você acredita, eu acredito também’?”
Eu não sei quantas vezes na minha vida a socialização feminina me impactou negativamente. Uma parte significativa dessas vezes deve ter passado desapercebida.
Mas, eu sei que quanto mais eu trabalho com mulheres, mais eu vejo que esse é um inimigo silencioso que merece continuar sendo apontado.
Sei também que falo dele durante anos e eu ainda acredito que ele precisa ser falado por mais muitos anos a fio.
Eu não posso garantir quanto aos outros recrutadores, mas, quanto a mim, posso te garantir que continuarei sendo este lembrete constante de que não pode ser tolerável eu entrevistar 10, 20, 30 mulheres e nenhuma delas me responder o que eu queria ouvir:
“Quem é a pessoa que mais acredita em você?”
- EU MESMA
Essa tem que ser a nossa ÚNICA resposta possível.
Beijos arrogantes,
Mari Fernandes