Carta 055
Tia de sobrinho
Meu sobrinho Caê fez 3 anos e esta carta é uma celebração dele — das aulas de natação caóticas, das calcinhas caindo na frente de estranhos e de tudo que o meu CNPJ me permite viver que nenhum emprego jamais permitiria.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como está a senhorita nessa nossa penúltima carta de novembro?
A carta de hoje tem bulhufas nenhuma a ver com negócios, nem com empreendedorismo, metas nem dígitos.
É uma carta do coração.
Hoje eu queria falar sobre um papel meu que vocês pouco conhecem, mas é tão relevante na minha vida que eu quero dividir com vocês.
Hoje eu quero contar para vocês sobre ser tia.
Se você acompanha os stories, você já deve ter visto os pés gorduchos do objeto dessa carta: o meu sobrinho Caê.
Inclusive, sexta é o meu dia de ser tia. Mas, vamos ao começo.
O ano era 2020, auge da pandemia, estávamos em lançamento do ESE turma 4, o lançamento acabava no dia 9 de novembro. Aquela loucura, correria, o maior time que ja gerenciei, eram 12 fucking pepecas nesse projeto.
O lançamento já estava marcado há tempos, pelo menos uns 8 meses e eis que, por coincidências do destino, ele caiu BEM NA SEMANA da data provável de nascimento do Caê (o nome dele é Caetano, mas o apelido é Caê).
Eu não pude acompanhar a gravidez dele, estávamos em pandemia, sem vacina ainda, isolados e qualquer contato com uma gestante de barrigão poderia ser um desastre.
Fechamos carrinho dia 9 de novembro, baixa a adrenalina, vem aquela sensação de “agora posso respirar antes de começar o downsell”.
Eu passei o lançamento inteiro torcendo para as deusas “não deixa ele nascer no meio do lançamento, faz ele esperar um pouquinho”
Se você já fez lançamento, você sabe o que é. Sua vida fica uns 50 dias focada exclusivamente nisso. Eu mesma costumava cancelar todos e qualquer compromisso não ligado ao lançamento em época de lançamento.
Vivia para ele.
E aí que, afinal, as deusas me ouviram e no dia 9 eu fui dormir tranquila “ufa, Caê não nasceu ainda”.
E eis que dia 10, recebo mensagem no grupo de whatsapp da família “Caê vai nascer!”.
Ninguém podia acompanhar no hospital, reforço que eram tempos de pandemia e zero vacina. Então, as notícias era dadas pelo whatsapp mesmo.
Fora a adrenalina normal de um nascimento, eu roía as unhas pensando “que eles não peguem covid na maternidade”
Ficava pensando nas 98 mil possíveis complicações para um bebê recém-nascido que pudesse pegar covid.
(Deu tudo certo, Caê foi para casa. Sem covid.)
Eu vi os primeiros meses de vida do Caê pela tela do celular, uma vídeo chamada era o contato mais próximo que podíamos ter.
E fomos assim, se não me engano, por longos 6 ou 7 meses, até o covid dar uma baixada e eu tomar coragem de ir ver pessoalmente meu sobrinho.
Meu maior medo era eu levar covid para uma casa com um recém-nascido.
Lá fui eu - de máscara n95, passando álcool 98 mil vezes nas mãos e nos braços, tomando cuidado para sair de casa e ir direto ver ele. Tinha medo de passar em algum lugar o vírus ficar na minha roupa.
Fizemos essas visitas esporádicas mais um tempo, era como me preparar para entrar num centro cirúrgico.
Até que o mundo começou a voltar a normalidade, a licença maternidade acabou e ele ainda era muito pitico para ir para creche.
Nos dividimos em família para revezar quem ficaria de babá e que dia com Caê.
Separei minhas segundas, eu ainda ficava de mascara n95 100 por cento do tempo com ele.
(Eu não sei como eu conseguia ficar 6 horas initerruptas do dia com uma n95 esmagando meus miolos. Coisas que uma pandemia fez com a gente)
Almoçava separada dele para não correr o risco de contaminá-lo. Fomos mais alguns meses assim, até que eu tomei a vacina e fui ficando mais segura de interagir com meu sobrinho como os maias faziam: sem máscara.
Finalmente chegou o dia que eu estava segurança ficar com ele sem máscara.
Estávamos almoçando, ele sentado no cadeirão dele, eu de n95, trouxe meu prato e tirei a máscara.
Supresa.
Ele começou a chorar descontroladamente.
Eu não tinha previsto que a minha cara para ele era composta daquele negocio branco, que ele NUNCA tinha me visto sem uma n95 no rosto.
Sim, meu sobrinho tinha mais de um ano e nunca tinha me visto sem máscara.
Deu ruim.
Tive que colocar a mascara de novo e pegar ele no colo para consolá-lo.
Foram algumas semanas “acostumando” ele a me ver sem máscara com vários choros no caminho.
(Muito tempo depois ele via gente de n95 na rua e falava “naná” que é como ele me chama, o pobre coitado do meu sobrinho achava que a tia dele era um par de olhos com umas máscara em baixo)
A vida foi se ajeitando, Caê começou ir para a escola e eu continuei firme na minha missão de baba dele 1 ou 2 dias por semana.
No começo eu terminava o dia de baba EXAUSTA.
EXAUSTA NÍVEL ÇOCOORRO.
Levava HORAS para conseguir fazer ele dormir e só dormia no meu colo sacolejando para lá e para cá.
Depois que as deusas tinham me concedido o milagre de fazer ele dormir, chegava a batalha para colocar ele na cama sem acordar, perdi as contas de quantas acrobacias aprendi a fazer para sair da cama sem acordá-lo.
Vieram as aulas de natação.
Uma fofura inconcebível para um coração que nunca tinha tido um sobrinho.
Uma pequeno mascote michelan de sunga e touca batendo perninhas na piscina.
Eu AMAVA levar ele para a aula de natação, mas odiava na mesma medida.
A aula durava 30 minutos, é tipo um peidinho e cabou.
Era um dia inteiro orbitando em torno da natação. Qualquer 10 minutos de atraso significava que ele tinha perdido UM TERÇO da aula.
A aula era bem no meio da tarde, ou seja, bem no meio da soneca dele, tinha que botar ela para dormir correndo, torcer para ela acordar cedo, sair desesperada inserindo pedaços de frutas na boca da criança para ela acordar, enquanto vestia a sunga e a touca em uma criança completamente sonolenta.
Coloca o maiô, pega a touca, coloca a fralda, pega a mochila, põe na cadeirinha, liga o waze, lembra de levar a água, a toalha e a roupa para trocar.
Vivi situações hilárias nessa missão da natação.
Uma delas inclui o meu carro dando um piripaque no meio da rua enquanto eu ia para a escolinha de natação com ele. Tive que sair do carro desesperada e catar a criança no braço rezando para nenhum carro bater na nossa traseira e nesse momento noto que a criança fez xixi na cadeirinha toda.
Eu de maiô, no meio da rua, com uma criança pingando xixi no braço tentando me manter calma para chamar um socorro. Deu certo.
Uma outra vez eu entrei tão desesperada na escolinha de natação que minha bolsa esbarrou na catraca, abriu e caiu um monte de coisa. Inclusive, a minha calcinha que eu tinha colocado na bolsa para trocar depois que saísse da piscina.
A bonita caiu no pé de um pai bem solícito que não viu que era uma calcinha e se abaixou para me devolver o pedaço de tecido.
No segundo em que ele pegou a calcinha, viu o que era e aí não tinha mais como voltar atrás. Eu recebi a minha calcinha da mão de um desconhecido.
Foram várias situações desse nível que envolveram eu esquecendo a fralda da natação, deixando para a traz a mochila da escola ou tendo que lidar com um cocô infantil inesperado num local sem fraldário.
Até que a rotina de levar ele na natação começou junto com todas as outras orbitações da vida e começou a ficar mais pesada do que leve. Um pensamento me rondava “o dia que ele não for mais para a natação vai ser ótimo, né?”
Em seguida uma culpa de leves “mas, a natação é importante, quer que ele morra afogado?!”
Pronto, entendi o que era a tal da culpa materna
que as mulheres falam. Eu queria muito que ele aprendesse a nadar, queria muito criar essas memórias na piscina com ele, mas eu não queria passar a minha sexta feita que nem uma doida para lá e para cá cronometrando os segundos para ele não perder a tal aula de 30 minutos.
Eu me sentia uma péssima tia quando atrasava e ele perdia a musiquinha no começo da aula.
A censora
que em mim habita me dizia que a natação era questão de vida ou morte, o simples fato de eu estar cansada dessa rotina era quase como dizer que eu ia empurrar meu sobrinho na piscina sem bóia.
Hoje eu vejo como era uma loucura esse pensamento, mas era o que me rondava.
Caê parou de ir para a natação. Passamos a ter mais tempo juntos.
Brincamos de massinha, levei ele no mercado, “ensinei” ele a fazer suco verde sentado na minha cozinha.
Na sexta passada, Caê fez 3 anos. Foi um dia de correria, enrola brigadeiro, busca a torta, amarra o saco das lembrancinhas, corre para o local da festa, arruma tudo na mesa.
Prepara para o parabéns, “cade Caê?”
Caê com febre, molinho, enjoado bem no dia do aniversário dos seus 3 anos.
Não teve parabéns. Dá remedio, põe para mamar, arruma as coisas para voltar para a casa.
Foi mais um dia cansativo, cheguei em casa com a lombar doendo, as pernas latejando e algumas marmitas de doces altamente açucarados.
Eu não sei se ele vai lembrar do aniversário de 3 anos.
Das boas horas que toda a família passou planejando, fazendo e idealizando sua festinha de 3 anos.
Mas, eu sei que Caê é amado.
Sei que a natureza dá um jeito da gnt se derreter por uma criatura com um quinto do seu tamanho que joga macarrão no seu sofá, cospe água no chão da sua sala e te faz ficar de maiô no meio de uma avenida com xixi infantil pingando na sua perna.
A carta de hoje é uma celebração, aos 3 anos do meu primeiro sobrinho.
Do trequinho que me faz ao mesmo tempo sentir alívio porque eu tô devolvendo para as mães e saudade porque ainda vai levar mais 7 dias para vê-lo de novo.
Talvez, sem querer, essa carta também seja sobre negócios.
Foram eles que me permitiram ser tia integral do Caê, um dia inteiro da minha semana, todas as fucking semanas.
O Caê está na agenda da equipe, todas elas sabem os dias que eu to com ele, não tem reunião, atendimento, nem lançamento nesses dias.
Esse é o dia do Caê.
Em qualquer outro trabalho que eu ja fiz na vida, isso seria inconcebível.
Eu talvez tivesse que ser a tia do final de semana, a que leva para o zoológico e para o circo. Nada de horrível nisso.
Mas, talvez eu perdesse os dias de natação e as horas que passava dando janta pra ele no estacionamento da natação dentro do carro antes de devolvê-lo para as mães.
Simplesmente porque comigo ele comia tudo direitinho e em casa rejeitava a janta.
Talvez eu perdesse também o dia que sem querer ensinei ele a falar “eita poha” quando ele não tinha nem 10 palavras no seu vocabulário.
Começou a chover muito, veio um trovão absurdo e eu, no susto, gritei “tapoha!”
Ele passou a repetir “tapou” como um verbo para quando qualquer coisa caía no chão.
Todos os dias que eu pego Caê na escola eu agradeço
“brigada universo por me dar um trabalho que me deixa fazer isso”.
Eu não quis se empresária para buscar meu sobrinho na escola, mas sempre entendi as mães que escolheram um CNPJ pelo mesmo motivo.
Hoje entendo elas num nível ainda mais visceral.
Talvez a carta de hoje seja sobre negócios.
Essa entidade que dá tanto trabalho, mas dá também tantas recompensas.
Tal qual minha relação de amor, ódio e culpa com a natação do Caê, talvez seja assim a nossa relação com as nossas empresas.
Elas são recompensadoras em milhares de aspectos, mas dão um trabalho absurdo em tantos outros.
Se eu pudesse realizar um sonho utópico, pediria para o universo que todas a mulheres pudessem ter essa opção.
Um trabalho que lhes permita viver a vida além do CNPJ
(E também um sobrinho tal qual Caê para elas amarem).
Feliz 3 anos, neném.
Que a gente construa juntos memórias tão hilárias quanto o dia que eu recebi minha calcinha de um estranho.
Brigada por isso
Beijos,
Tia naná