Carta 048
Queria ser a Anitta
Às vezes eu quero ser o Pepe Mujica. Outras vezes, a Anitta. A vida de empresária é uma contradição ambulante — e está tudo bem não ter as respostas pra isso.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA.
A carta de hoje é tipo aquelas conversas profundas e nada óbvias que temos com aquela amiga de séculos numa madrugada de sábado regada a vinho no sofá da sala.
É uma linha de pensamento que acho que ronda cabeças empreendedoras todo santo dia.
Mas, é um trem meio rodeado de tabus autoimpostos que a gente não se permite falar em voz alta.
Pois, hoje falaremos.
A vida de empresária é uma contradição ambulante.
No mês que a gente bate recorde de faturamento, é o mês que, entre amigas, ouço a seguinte frase “cansei de ser empresária, eu quero um chefe”
Essa amiga em questão tem 2 filhos.
Gerencia as empresas à distância.
Tem fornecedor, cliente, estoque.
E juro de dedinho, eu não sei como ela consegue.
Mas, eu entendo 500% porque ela se sente assim.
É uma contradição diária.
Talvez você conheça (com certeza já ouviu pelo menos falar) um médico que tem um salário mensal de 60k — nos meses ruins. Enquanto aqui, empresárias, comemoraram horrores quando a empresa bate 60k de FATURAMENTO.
(Tem um precipício que separa salário e faturamento)
Também tem outras histórias de, por exemplo, uma amiga que ficou doente, vai precisar se afastar do trabalho por 1 ano e vai continuar recebendo salário igual qui nem
tivesse trabalhando.
Um terceiro caso é o concursado do banco.
Sei lá quantas vezes no mês tem um tal de PLR, esse abençoado recebe uma bolada, maior que o próprio salário, assim, sem mais nem menos.
Isso nos faz questionar as nossas escolhas,
num faz?
Porque parece que a vida adulta é um conjunto de elementos que orbitam em torno do planeta DINHEIROS.
Ele, sempre ele.
Parece que tudo se resolve com dinheiro.
E a gente, é claro, persegue o danado.
Ao mesmo tempo, não queremos ser aquelas que vivem para ir atrás do dinheiro, mesmo o mundo todo funcionando a base dele.
A real é que o sistema não é muito (para não dizer nada) gentil conosco.
E ouso dizer que ele obriga contradições diárias:
A gente quer ter vida,
mas para ter vida além da empresa precisamos de dinheiro.
E aí precisamos ir atrás do dinheiro para ter vida além do dinheiro.
É uma rodinha de rato muito bem projetada, num acha?
Às vezes, confesso pra você, me imagino vivendo no meio do mato, plantando minha comida, captando minha própria água e energia enquanto o mundo derrete.
Às vezes me vejo em uma casa na beira da praia, enorme, com banheira, quintal e piscina.
Um dia quero ser o Pepe Mujica que tá cagando para o dinheiro e quer tempo.
Outras vezes quero ser Anitta, que num tem tempo para cagar em paz, mas tem dinheiro para um cacete.
Existe também um outro medo que eu nunca vi nenhuma empresária tendo coragem de confessar em voz alta
(apesar de saber que elas se sentem assim também) que é o medo do “buraco no currículo”
Já parou para pensar que se a gente desiste de ter empresa e se a gente quiser voltar par o mercado de trabalho, vai ter só um empregador no nosso currículo?
No meu estaria assim:
2017 - 2023: Fluida — CEO
O recrutador não sabe que ser CEO significa ser influenciadora, professora, mentora, consultora, contadora, vendedora, gerente de rh, especialista em processos.
Ele também num sabe que não existe maior prova de resiliência e capacidade de regulação emocional que ter uma empresa, sendo mulher no Brasil de 2023.
Eu sei, mas ele não.
Eu penso que ele vai olhar para aquela linha lá “Fluida — CEO” e vai agir assim como agem quando uma mãe fica fora do mercado pra ser mãe: “ela ficou FORA do mercado”.
Mal sabe ele que eu nunca estive tão dentro.
Todos esses pensamentos dão medo.
Dão ansiedade.
Nos acordam mais cedo que o despertador.
Ao mesmo tempo, eu amo fazer essa parada, eu amo empreender, eu amo ser empresária e eu amo ter a minha empresa.
Eu pulo (literalmente) de alegria quando minhas mentoradas batem suas metas.
Eu choro quando conseguem tirar férias ou serem mães em paz.
Eu sinto nostalgia das empresárias inseguras e amedrontadas que elas eram e me orgulho pra ppk das potências que são hoje.
Eu me divirto com a minha equipe.
E sou feliz ao lado das mulheres que trouxemos para cá.
Vibro com cada habilidade que vejo elas conquistando, fico grata por poder mexer na minha agenda para ficar com meu sobrinho religiosamente toda semana. Agradeço quando tenho que marcar um médico (aquele abençoado que tira 60k de salário) em cima da hora e posso escolher qualquer horário para isso (liberdade que, ouso dizer, ele provavelmente não tem).
Empreender é uma contradição ambulante. Ser mulher é uma contradição ambulante.
Queremos nos sentir belas ao passo que odiamos que o mundo queira que a gente seja bonita.
Desejamos ser portal para uma nova vida, detestamos a obrigação de ter que ser um.
É um tiroteio de contradição.
Sinceramente, eu não faço e menor ideia de como a gente mantém a sanidade e o réu primário nessas condições.
O mundo tá derretendo, os ambientalistas pedem demissão para ficar com suas famílias.
A gente tá otimizando conversão de funil de venda.
Num é doido isso?
Sim, é.
Mas, o que essas caraminholas da minha cabeça tem a ver com você?
Eu quis hoje trazer essa miscelânea de pensamentos que rondam a minha cabeça e das empresárias que me cercam para você ter a convicção de que não é um ET.
De que você não é insegura, medrosa ou pouco arrojada.
É que o bagulho é loko mesmo.
Exige muita vulnerabilidade questionar o seu trabalho, questionar a sua empresa, questionar as suas escolhas.
(Minha psicóloga falou que isso também se aplica a relacionamentos, tô aprendendo)
Mas, ser vulnerável é tudo que nós mulheres NÃO QUEREMOS ser no planeta terra. Porque a gente sabe que quando nos mostramos vulneráveis, vem muita pedrada. Guardamos esses questionamentos na nossa cachola e ficamos performando certezas por aí, como se todo mundo soubesse o que está fazendo 24h por dia, 7 dias por semana.
Sabemos poha nenhuma.
Depois de um certo ponto da vida adulta, a gente tá é tudo correndo feito criança em festa de aniversário quando estouram o balão cheio de guloseimas. Não fazemos ideia de qual é o próximo passo.
Questionar sua empresa, suas escolhas, sua conta bancária NÃO É ERRADO.
E não significa que tu tem que vender tudo e ir ganhar a vida com as coisas que a natureza dá.
(Se quiser, pode)
Tá liberado questionar, reclamar e falar:
“Pelo amor das deusas, por que você me fez com esse espírito empreendedor inquieto?!”
“Por que céus eu não vim pra esse mundo com uma sedenta vontade por carimbar papéis, abrir processos e encaminhar documentos?”
“Por que eu nasci com vontade de ter podcast, empresa, equipe, evento presencial, estúdio de gravação, comunidade, mentoria, curso gravado, curso ao vivo, imersão?”
Eu não sei.
Só sei que foi assim.
E se por aí é assim também, a gente tá junta nessa.
Beijos ou não beijos,
Mari Fernandes.
OBS:
Se você é esse tipo de cabeça pensante que faz elocubrações mentais sobre o futuro e capitalismo… e no outro dia tá rebolando o popô com um funk duvidoso. Se você assim como eu, reconhece que ser mulher e ser empresária é navegar na contradição e tá caçando uma mentora que vive isso e não esconde de ninguém, talvez você devesse estar do lado de dentro da Fluida. Tô selecionando algumas empresárias para conhecer o negócio, apontar alguns caminhos e apresentar os programas da Fluida que fazem sentido pra ela. Quer fazer essa call comigo? Você pode se candidatar para ser uma das selecionadas clicando aqui.