Carta 047
É cilada, bino
Contratar amiga, fazer parceria verbal, aceitar proposta sem negociar — quem nunca? Uma carta com 3 chás de realidade para nunca mais se enfiar até o joelho nessas situações.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA.
Como a senhorita está nessa penúltima sexta-feira de setembro?
Parece que foi ontem que eu te escrevi uma carta falando que estávamos entrando no último quadrimestre do ano.
Mas, bora ao que interessa.
Hoje eu trouxe pra senhorita um conselho que eu não gostaria de ter que te trazer.
Sinceramente, me deixa P da vida ter que compilar um elaborado de orientações para que menos mulheres passem por isso.
A carta de hoje é um mix de “pronto, falei” com um conselho que se você levar ao pé da letra vai reduzir em pelo menos 90% as chances de você entrar numa cilada.
Uma cilada que provavelmente já aconteceu com você em 2023 e que provavelmente aconteceria novamente em 2024, 2025, 2026.
Pra gente quebrar esse ciclo vicioso, presta atenção na carta de hoje.
Vamos começar com algumas situações MAIS CORRIQUEIRAS do que eu gostaria na vida das empresárias.
Veja se você já viveu alguma delas:
Situação 1:
Você tá precisando de alguém pra trabalhar na sua empresa. E aí você tem aquela sua amiga que, poxa, tá desempregada, tá passando por um momento difícil. Você acha que essa sua amiga é legal. E aí você pensa, “eu vou ajudar minha amiga, vou trazer ela pra trabalhar junto comigo”. Ela começa a trabalhar com você, e agora você fica cheia de dedos para corrigir ou exigir coisas dela, afinal ela é sua AMIGA. A relação vira um bolo, a empresa sofre com a falta de aptidão dela, você sofre com a culpa de demitir a amiga e a merda tá feita.
Situação 2:
Você conhece uma pessoa que pode te abrir portas. Ela te faz uma proposta de uma possível parceria ou serviço “na amizade”. Você pensa que pode ser uma oportunidade de aprender, fazer case e ganhar indicações. Você começa a trabalhar de graça, com uma esperança de talvez quem sabe num futuro que você nem sabe quando, isso vai “retornar” para você. Pronto. Merda feita.
Situação 3:
Uma amiga está precisando de um serviço seu, você começa a ajudar ela. Mas, a relação fica tão misturada que você num sabe mais o que é trabalho e o que é amizade. Ela te pede coisas que não estariam no escopo do trabalho, desmarca com você em cima da hora, confunde o horário do seu serviço com momento para bater papo. O que era para ser uma ajuda vira um problema no seu dia a dia. Pronto. Merda feita.
Já rolou alguma coisa parecida com você?
(Me conta que quero essa fofoca)
Eu já vi mais variações dessas situações do que uma mente feminista é capaz de digerir.
Por isso, na carta de hoje, eu vou trazer alguns tratados que você vai fazer com você mesma para nunca mais se enfiar até o joelho em merdas desse tipo.
Tome aqui o seu primeiro chá de realidade:
Se não tá escrito, não existe
É isso mesmo. Se a senhorita não escreveu em lugar nenhum pode considerar que as outras pessoas vão poder dizer, pensar e exigir qualquer coisa que a cabecinha delas for capaz de criar. Inclusive coisas que você sequer sabia que ela queria que você fizesse.
O combinado NÃO SAI CARO.
O que eu quero dizer com o combinado não sai caro? Nunca, nunca, nunca, nunca. Eu vou repetir com bastante ênfase: jamais você fará nenhuma parceria, combinado, acordo com ninguém que não esteja escrito — seja uma pessoa conhecida que você está contratando ou seja uma parceria que você está formando ou seja, até mesmo, uma venda que você está fazendo.
“Mari, por que?”
Não é porque o escrito tem um peso. É porque o fato de nos obrigar a escrever nos obriga a perceber a natureza dessa relação.
Se você vai contratar uma amiga sua pra trabalhar na sua empresa, você vai sentar e vai escrever os combinados dessa relação e o que de fato a sua amiga vai fazer.
Aí tu vira pra ela e fala
“olha, amiga, suas tarefas são essas aqui e essa é a forma de remuneração”.
Só o fato de precisar formalizar, te mostra as enrascadas que existem que até então você não via porque não escreveu.
Quando eu digo tenha um contrato, tenha uma coisa escrita, tenha um e-mail ou até mesmo uma mensagem no whatsapp com essa descrição não é pelo valor jurídico, mas porque quando você coloca a coisa no papel, você percebe a enrascada antes de entrar na enrascada.
Serve tanto na hora de contratar quanto na hora de formar uma parceria.
Tu vai fazer uma parada de graça pra uma pessoa que pode abrir portas pra você?
ESCREVE. Escreve o que você vai fazer e o que essa pessoa vai fazer em troca. Quantas indicações ela vai fazer? Quais tarefas exatamente você vai fazer? Por quanto tempo vai rolar essa troca?
“Nossa, Mari, mas aí a pessoa não vai querer”.
PRONTO! ERA BEM AQUI QUE EU QUERIA CHEGAR
Por qual motivo alguém que tem boa fé não quer formalizar algo que ela está combinando com você?
Pensa aí…eu espero.
Pode não ser exatamente má fé, pode ser simplesmente que essa pessoa não está preparada para trabalhar de forma profissional. Ela enxerga essa parceria de forma amadora, um favor, uma ajudinha.
E, como já vimos, ajuda não pode ser cobrada. Você dá se você quiser e como você quiser.
Só que a outra cabecinha dessa parceria tá lá querendo que na hora de fazer as coisas para ela você seja 100% profissional, mas na hora dela dar a contrapartida dela ela quer que seja 100% amizade.
Larga a mão de ser trouxa, escreva os seus acordos.
Agora vamos para o segundo chá de realidade:
Não aceite nada antes de negociar
Isso aqui pode parecer que eu to dizendo para você pechinchar verduras na feira para ganhar mais alguns centavos. Não é isso.
Mulheres negociam pouco. QUASE NADA.
O nosso padrão é de ceder demais, de buscar sempre o consenso, de ter uma dificuldade enorme de definir os nossos termos e apresentar os nossos termos para outra pessoa.
Então, o que eu tenho visto recorrentemente são mulheres que estão sendo chamadas para parcerias, para collabs, para trabalhos (remunerados ou não) que elas acham que só tem duas opções:
-
SIM
-
NÃO
Ou você aceita como a pessoa te propôs ou você tem que recusar tudo que ela ofereceu.
Isso nos deixa com opções MUITO limitadas de navegar na vida e nos negócios.
Se a pessoa ofereceu 10% de remuneração a cada 30 dias, você pode pedir 5% de remuneração a cada 15.
Ou pode querer uma remuneração fixa anual.
Ou pode não querer % nenhuma, mas ter tal vantagem.
EXISTE VIDA ALÉM DO SIM E DO NÃO.
Negocie. Esse músculo bem desenvolvido nos homens é bem mixuruca em nós mulheres.
Agora vamos ao terceiro chá do dia:
Quem quer a parceria que desenhe a parceria
Vou explicar:
Eu num sei quantas MILHÕES de vezes recebi pedido de ajuda de mentorada assim:
“Mari, me ajuda a desenhar uma parceria com fulano”
Aí eu vou ajudar a mentorada e descubro o seguinte:
O fulano, tão cheio de boas intenções convidou minha mentorada para uma parceria.
Porém, o fulano quer que a minha mentorada desenhe todos os detalhes da parceria.
Ele não quer gastar o tempo dele pensando em como vai ser, qual será a remuneração, o prazo… O fulano quer uma proposta de parceria pronta recém saída do forno, sem que ele tenha que mexer um único dedo para isso.
Pensa 2 segundos comigo: se esse ser abençoado num quer trabalhar nem na hora de analisar a viabilidade da parceria, como é que você acha que ele vai agir durante a parceria?
LARGA DE SER TROUXA.
Se alguém quer te oferecer algo seja profissional, diga:
“Claro, Fulano, eu adoraria avaliar a viabilidade de um projeto em conjunto. Me envia o rascunho que você já pensou dessa parceria para eu avaliar. Você acha que consegue me enviar quando?”
Observe nesse momento 99% dos “parceiros” desconversando e te pedindo licença para ir ao banheiro.
Mulheres têm mais intenções sociais com as suas empresas do que os homens.
Os homens em geral buscam intenções financeiras.
Já nós, mulheres, sentimos um peso muito forte nas relações que a gente constrói com as nossas — com a nossa equipe, com as nossas parceiras comerciais, com os nossos clientes.
Só que nem sempre essas relações são valorizadas da mesma forma, por seus parceiros, por seus clientes, enfim.
E tá tudo bem.
Construa relações duradouras, construa relações fortes, mas aquela frase “amigos, amigos, negócios à parte”, existe por um motivo e esse motivo num é nada negativo.
O real significado é que você valoriza tanto as relações que você tem com a sua equipe, com um parceiro, com um terceirizado, com uma cliente, que quer proteger esta relação.
E como que a gente protege esta relação?
LARGANDO DE SER TROUXA E ESCREVENDO AS POHAS DAS REGRAS
O combinado não sai caro.
Amigos amigos, negócios a parte
(Vou precisar de mais um ditado clichê para te convencer ou já tá suficiente?)
Essa frase significa que nós somos amigos, mas os nossos negócios estão à parte da nossa relação. Justamente para proteger a nossa relação.
Vou te dar um exemplo prático de como eu não misturo esse trem.
Se você é minha amiga e virou minha mentorada, eu crio um grupo com você, no celular da Fluida chamado MENTORIA NOME DO NEGÓCIO.
Isso me ajuda a separar bem as coisas.
Na conversa normal, trocamos nossas mensagens de amigas.
No grupo, falamos de negócios.
É desafiador separar as coisas sim, mas é necessário.
É uma dádiva poder trabalhar (seja contratando, seja numa parceria, seja mentorando uma amiga) com aquelas pessoas que ainda que não fosse o dinheiro, a gente estaria perto delas.
Muita gente precisa lidar com clientes que odeia, com colegas de trabalho insuportáveis e com chefes terríveis.
Temos que reconhecer o quão incrível é não ter que fazer isso.
Mas, reconhecer esta dádiva não pode ser motivo para deixar pessoas te fazerem de trouxa.
Beijos registrados e assinados em cartório,
Mari.