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Carta 036

Reboco Séquiçi

Por que a roupa que a gente veste nos preocupa tanto? Uma reflexão sobre male gaze, o espaço que a aparência ocupa na nossa cabeça — e o que isso tem a ver com mulheres empreendedoras.

Mulheres

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA.

Tô oficialmente de volta em terras brasilienses pós-férias.

Se você acompanha as cartas há mais tempo, já sabe que eu volto da praia e preciso de alguns dias para me desapegar da minha personalidade praiana.

Se você não conhece a Mari praiana eu vou te descrever ela rapidamente:

Ela vive de biquini o único sapato que o pé dela vê se chama havaiana, maquiagem nem passa perto e, se ela pudesse, passava um turno de todos os dias estatelada na areia tomando sol e bebendo caipirinhas com álcool de procedência duvidosa.

Prazer, Mari Praiana.

Bom, mas vamos para o assunto do email de hoje.

Nós falaremos sobre LOOKS.

Sim, eu sei que nesse momento você deve estar pensando

“mas, pepeka que pariu, Mari endoidou, que linha editorial é essa?”

Calma, aquiete a piriquita que vai fazer sentido.

Já aviso que o teor da carta de hoje parece um tanto quanto polêmico (mas, só parece) e eu quero trazer uma visão carinhosa sobre isso.

Então, comecemos:

Eu num sei se você sabe, mas eu fui para Floripa para participar de um evento de marketing (ai emendei depois nas férias).

Eis que por conta desse evento, foi criado um grupo no whatsapp com a mulherada que iria também para a gente combinar hospedagem, quem fica em qual hotel e já irmos nos conhecendo antes do evento.

Pois muito que bem.

Entre as conversas sobre hotel, onde ficar, promoção de passagens…

um assunto ganhou o primeiro lugar do pódio disparado.

Consegue imaginar qual?

Sim, os benditos dos looks.

A previsão não estava das melhores e, ao que tudo indicava, ia fazer um frio de congelar a ppk.

De acordo com o meme “não dá para ser elegante no frio”, essa era a exata preocupação mais frequente no grupo.

Fotos de looks para cá, pedidos de ajuda sobre qual sapato combinava mais para lá…

Era palpável a PRÉ ocupação que estar bem vestida causava na cabeça da mulherada.

“Lá vai estar frio, o look que eu tinha pensado não é para o frio”

“Se eu colocar um casaco, vai esconder e peça tal que transmite tal coisa”

Nesse momento é possível que você esteja internamente lá no fundinho da sua cabeça pensando:

“Nossa, mas que mulherada fútil gente, pelo amor de deus, precisa disso?”

Eu sei disso porque esse é o impulso que nos ensinaram: julgar coisas em outras mulheres.

Então, se isso passou na sua cabeça não se sinta culpada.

De verdade, o objetivo da gente ter nosso olhar moldado para avaliar o comportamento das outras é para que a gente saiba que se um dia A GENTE escorregar, também seremos julgadas.

E é sobre isso que vamos conversar aqui.

Passado nosso ímpeto natural de classificar o comportamento das mulheres em certo e errado (eu to incluída nessa também viu), vamos olhar para isso de uma perspectiva um tico mais ampla:

POR QUE AS PEÇAS DE ROUPA QUE A GENTE VESTE NOS PREOCUPAM TANTO?

Eu sinto que a gente ainda não esgotou esse assunto o suficiente.

E isso nos dá uma falsa sensação de já ter “superado isso”, que todas nós já SABEMOS que nossa roupa não nos definem.

Mas, essa experiência desse evento esfregou na minha cara que talvez esse seja um problema camuflado.

Pensa comigo… o evento era de negócios, não era nenhum São Paulo Fashion Week.

Os pedaços de pano que enrolariam nossos corpos já começavam a nos preocupar semanas antes de efetivamente desempenharem essa função.

Por que a forma como seremos fotografadas, registradas e vistas nos lugares importantes ocupa um espaço tão peculiar

nas nossas cabeças?

Eu já estive em grupos de empresários mistos, homens e mulheres que interagiam antes de se conhecerem em um evento.

E em nenhum desses grupos misto eu vi o assunto “LOOKS” ser mencionado.

Nem uma fucking vez.

Parece que a gente se sente autorizada a falar “disso” quando estamos só nós. Eu também nunca testemunhei um homem compartilhar com o outro sua preocupação sobre como os outros homens estarão vestidos numa festa.

Você já reparou nisso?

(Mais uma vez, essa mesma linha de raciocínio que acabei de fazer aqui, é usada para a sociedade taxar a mulherada de fútil, superficial, patricinha…. mas quem é que está questionando POR QUE nós nos comportamos assim?)

O que é que faz com que a maioria esmagadora das mulheres do planeta terra já tenha experimentado desconforto, preocupação e algumas horas gastas se a roupa dela estaria adequada para uma ocasião X.

O que tá acontecendo é que as roupas que a gente veste são uma preocupação não só por motivos estratégicos relacionados ao branding, posicionamento e o escambau das nossas empresas, mas porque a gente sabe que existem penalidades para as mulheres que não seguem as regras.

E a regra que eu quero que você entenda é essa:

Os olhos estarão apontados para nós.

Nós fomos ensinadas, sem perceber, que os olhos estão apontados para nós são atentos.

É só você pensar em todos os closes que os filmes dão quando uma mulher entra em um recinto.

Pensa aí o último filme romântico padrão com uma protagonista mulher que você viu

A capa das revistas """"""femininas""""""

Os takes que são feitos das mulheres nos comerciais de shampoo

Mostra-se o cabelo, a roupa, a câmera lenta amplificando cada micro detalhe.

A câmera para

O zoom aproxima

E a gente, naquele momento aprende que é ASSIM que as pessoas estão nos olhando.

Isso tem nome, chama MALE GAZE

(dá um google depois para você ler mais sobre isso).

Que nada mais é que a gente ser retratada a todo tempo nas revistas, filmes, novelas, livros sob a perspectiva do olhar masculino.

É como se colocassem a gente na posição do cara que nos julga, analisa e inspeciona cada centímetro.

BOOM, a merda tá feita.

A gente aprende que toda vez que estivermos visíveis, existe um olhar julgador sob nós.

Como se tivesse um danado de um câmera man com um zoom apontado para todas as nossas inseguranças.

Nós aprendemos a nos enxergar pelo olhar do OUTRO.

Nos acostumamos a sermos observadas de fora.

De estarmos sobre a mira silenciosa que não fala, mas diz muita coisa.

É ESPERADO então que a nossa roupa, cabelo, maquiagem e peso seja uma preocupação!

Tinha como ser diferente?

O que me inquieta no meio de tudo isso, e aqui é o meu convite para você, é o espaço que essa preocupação ocupa DA nossa vida.

E, veja, eu não tenho uma solução única para isso e nem to dizendo que e fácil.

Eu to aqui justamente para te dizer que o fato de SABER tudo isso não impede o medo do julgamento de fazer você muitas vezes gastar mais tempo do que o que gostaria com a sua aparência.

E ficar em uma culpa dupla (quem é aluna da Fluida sabe que isso se chama golpe duplo).

A culpa de saber que as roupas não definem quem você é mas ao mesmo tempo ter receio de ser julgada por elas.

Racionalmente a gente sabe que se estamos ocupadas vendo e revendo looks incessantemente, que espaço sobra para ver e rever a margem de lucro do mês?

Mas, ao mesmo tempo, a gente põe um batonzinho, passa uma make e pensa “olha como eu fico mais bonita de make”.

Percebe a armadilha?

Não tem escapatória.

Em qualquer um dos cenários a gente tá ocupando a poha da nossa cabeça com a nossa aparência.

Seja por NÃO querer se dobrar ao estilo de mulher impecável maquiada até quando acorda.

Seja quando queremos ser exatamente essa mulher.

Leia as próximas palavras pausadamente:

A melhor forma de FREAR mulheres talentosas talvez seja fazendo com que elas estejam ocupadas demais para usar seus talentos.

“Ocupadas demais” , você entendeu o truque?

Minha reflexão aqui não é um convite para você chutar o pau da barraca e passar a ir de camiseta rasgada e chinelo para os próximos eventos de negócios que você for.

Nem uma sentença de “culpada” nos dias que você quiser tacar uns reboco na cara e uma roupa mais séquiçi para se sentir melhor.

O meu convite é só para gente colocar menos peso nos tecidos que cobrem nosso corpo e mais no cérebro brilhante que carrega esse corpo

por aí.

Beijos sem batom vermelho e blazer (por hoje),

Mari.

OBS: Todas nós transitamos em algum momento entre “não vou gastar minha vida tentando ser mais bonita para os outros” e “eu quero ser bonita caralho”.

É essencial ter como guia quem entende de lucro, produtos e estratégias de negócios, mas é talvez mais urgente ter alguém que entende também dos conflitos internos que te atravessam por ser mulher.

Se você quer no seu negócio o olhar de uma mentora que entende das duas coisas, a gente tem muita coisa para construir juntas.

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Te espero (com o ou sem maquiagem).

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·