Carta 203
Não se posicione
(A penúltima já de outubro! Falei que esse segundo semestre ia voar). Algumas de vocês, tenho certeza de que chegam com os nervos à flor da pele. Tá difícil se concentrar, atender, postar conteúdo ou fazer planos para…
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
(A penúltima já de outubro! Falei que esse segundo semestre ia voar).
Algumas de vocês, tenho certeza de que chegam com os nervos à flor da pele.
Tá difícil se concentrar, atender, postar conteúdo ou fazer planos para qualquer coisa antes de chegar o dia 25.
Muitas de vocês têm me contado que é assim que estão vivendo.
E, pra completar, ainda tem uma pergunta que chega com a delicadeza de um elefante arrombando a porta da sala:
“E aí? Vai se posicionar ou vai ficar em cima do muro?”
Você tem uma empresa. Tem clientes. Tem uma marca pessoal. E, de repente, parece que o seu perfil no Instagram também precisa responder publicamente a tudo o que está acontecendo nas eleições.
Então você pensa: eu conto em quem vou votar? Faço um post? Gravo um vídeo? Falo sobre um candidato ou sobre o outro?
Minha resposta é: eu não acho que todo mundo tem que se posicionar.
Mas tem gente que precisa.
E eu vou explicar por quê.
Para mim, existem dois grupos.
O primeiro é formado por empresas e pessoas que têm uma obrigação de coerência. Se você construiu seu faturamento em cima de uma população específica, vende para essa população, usa as pautas dela na sua comunicação e transforma essa relação em receita, você tem uma responsabilidade pública com os direitos dessa população.
Se uma empresa vende especificamente para a população LGBTQIAPN+, ganha dinheiro com essa população e tem o faturamento construído a partir dela, deveria haver um posicionamento público em relação à proteção dos direitos e das garantias dessa população. Existe aí, na minha visão, um dever moral de coerência.
Obviamente, o mesmo vale para quem trabalha diretamente com política. Se esse é o seu tema técnico, se você ganha dinheiro analisando política, ensinando política ou influenciando decisões políticas, o posicionamento faz parte do trabalho.
Esse grupo tem obrigação de se posicionar.
Agora vamos falar do segundo grupo: as pessoas reais. Nós aqui, reles mortais.
Eu, você, uma prestadora de serviço, uma médica, uma psicóloga, uma consultora, uma professora, uma advogada, uma dona de negócio tentando fazer a empresa funcionar.
Eu não acho inteligente pressionar automaticamente essas pessoas com o discurso do tipo “Meu Deus, você não se posicionou. Que absurdo. Em cima do muro!”
Não acho necessário. E, mais do que isso, acho que essa cobrança pode ser muito prejudicial, não apenas para a empresa, mas para o Brasil.
As eleições foram deslocadas para as mídias sociais. Antes, a mobilização acontecia muito na rua e a televisão tinha um papel enorme. Hoje, ela acontece nas redes sociais. A informação circula ali, a disputa acontece ali e a nossa vida vai sendo conduzida pelas Big Techs enquanto a gente continua vivendo a própria vida.
Quando a gente exige um posicionamento o tempo todo, a política começa a parecer futebol.
Você precisa escolher um time, vestir a camisa e defendê-lo até morrer. Não importa se ele perde, se ganha, se é ruim, se é bom, se fez uma coisa certa ou se fez uma coisa errada. É o seu time do coração. Partido vermelho contra partido verde e amarelo. Ou você é A ou você é B.
É reducionista. E não faz sentido político nem histórico.
Eu tenho uma posição política muito clara. Sou uma mulher de esquerda e progressista.
Meus votos não estão ligados ao bolsonarismo, que, na minha visão, não representa simplesmente a direita, mas um projeto de extrema direita muito prejudicial, especialmente quando olho para direitos humanos, autodeterminação dos povos, soberania nacional e proteção do Brasil diante de intervenções externas.
Nessas eleições, eu sou 13. Isso já deixei claro para vocês.
Mas ter uma posição clara não significa acreditar que política deveria funcionar como um jogo de futebol.
Não é saudável para um país que toda pessoa precise concordar com 100% das ideias do seu grupo e rejeitar 100% do que vem do “outro lado”. Eu não quereria isso dentro da minha empresa, porque uma visão única empobrece as decisões.
Então também não posso achar maravilhoso quando acontece no Estado.
Só que chegamos a um nível de polarização em que um lado parece dizer “todo mundo precisa sobreviver” e o outro responde “todo mundo precisa morrer”. Essa é a sensação do período eleitoral. E, dentro dessa sensação, qualquer diferença deixa de ser divergência e vira inimizade.
É por isso que, quando saio do grupo que tem obrigação moral de se posicionar e venho falar com as minhas alunas, mentoradas e empresárias, minha orientação pode parecer contraditória:
Se o posicionamento político da sua empresa vai empobrecer você, não faça.
Não faça e ponto final.
Porra, quem ganha com você ficando mais pobre?
Qual é o benefício coletivo para as causas em que acreditamos se as mulheres começarem a vender menos, perder clientes, comprometer a empresa e diminuir a própria independência financeira?
Pois é, nenhum.
Muito pelo contrário, pois isso nos leva para mais longe da independência financeira, capacidade de geração de receita, dinheiro no bolso, reserva de emergência, aposentadoria e dinheiro investido.
“Mas, Mari, você se posiciona.”
Sim. Eu me posiciono.
E isso não acontece porque eu tenho mais coragem do que as outras pessoas.
A marca da Fluida foi construída desde o início sobre um conjunto explícito de valores. Eu tenho mercado suficiente para manter esse posicionamento e continuar faturando o que preciso. O nicho em que trabalho, os canais pelos quais vendo, o tipo de produto que ofereço e a forma como construí a marca tornam esse posicionamento sustentável.
Eu não coloco a Fluida em risco quando me posiciono. Também não coloco minha equipe em risco, porque os valores da empresa foram construídos sobre valores feministas desde o começo.
Mas presta atenção aqui, meu amô: o fato de não quebrar a Fluida não significa que não atrapalhe.
Pois, pasme, atrapalha.
Ele diminui o mercado disponível. Afasta pessoas que precisam do meu serviço, têm dinheiro para pagar, mas olham para a forma como tratamos questões sociais e políticas e concluem “Isso aqui não é para mim.”
Existe um prejuízo.
A diferença é que, hoje, o tamanho desse prejuízo não ameaça a perpetuidade da empresa. Eu posso me dar ao luxo de escolher uma comunicação que atrai pessoas muito alinhadas aos meus valores e afasta outras.
Se um dia eu entender que ser tão incisiva na comunicação está colocando minha equipe e a empresa em risco no longo prazo, vou rever a decisão e adotar outra estratégia.
Eu não vou mudar os meus valores nem a metodologia da empresa. Vou mudar uma estratégia de comunicação se ela deixar de fazer sentido para a continuidade da Fluida.
A gente vive numa era de hiperexposição em que tudo parece precisar ser público. 100% das coisas precisam ser literais. Você precisa dizer se é homo, se é hétero, se é de direita, se é de esquerda, se come carne ou se não come.
(Inclusive, não como carne vermelha, rs.)
E isso não é verdade. A gente construiu isso, mas isso não é requisito para que a sua empresa funcione, gere faturamento, seja lucrativa e exista no longo prazo.
Principalmente quando você tem uma marca pessoal, quando vende através da sua imagem, a gente mistura as coisas. Mas você não precisa tacar na sua cabeça um rótulo que pode prejudicar mais do que beneficiar o seu negócio.
Existe ainda outra pergunta que quase ninguém faz antes de exigir uma declaração pública:
Qual é o domínio técnico dessa pessoa sobre política?
Nem todo mundo gosta de política. Nem todo mundo sente que entende política ou que tem autoridade, lastro, para falar sobre um programa de governo do candidato A ou do candidato B.
E ficar julgando e tachando essas pessoas com “Ai, não se posiciona”, “Ai, vai estudar” é de um reducionismo gigantesco.
Eu tenho visto muitos posts do tipo “Ai, querida, você olhou dez reviews para escolher a sua base. Você poderia ter gastado esse tempo estudando um plano de governo.”
Só que isso ignora a complexidade da realidade.
Construir consciência política é muito mais complexo do que trocar o tempo de uma pesquisa de consumo pela leitura isolada de um plano de governo.
Tudo no nosso mundo hoje nos empurra para a alienação. Tudo.
O capitalismo mói as pessoas. Mói.
A mulher está sobrecarregada, cansada, desesperada para conseguir ter uma aposentadoria. Trabalha pra caralho. Tem que pagar os boletos de hoje, juntar dinheiro para o futuro, pagar um plano de saúde e dar conta de uma vida em que, muitas vezes, trabalha dez ou onze horas por dia, no fim de semana e sem feriado.
Isso não é um sinal de esforço, é simplesmente necessidade.
E, no meio disso, a gente coloca no indivíduo a culpa por não conseguir ser tudo aquilo que o próprio sistema impede que ele seja.
A gente não tem educação política. Nunca teve e provavelmente nunca terá no currículo formal. A gente não sabe como as leis são feitas.
É difícil acompanhar política no Brasil. É complexo, é rebuscado demais.
A nossa sociedade precisou dar um nome para notícias sabidamente mentirosas, construídas para serem mentirosas: fake news. Isso é uma loucura.
Não estamos falando apenas do Zé do Instagram inventando que um candidato vai fazer “sei lá o quê”. Estamos falando de estruturas de comunicação que produzem como notícia fatos que não ocorreram.
Então, não dá para individualizar uma responsabilidade que não é só do indivíduo.
Eu não estou dizendo que ninguém deveria aprender política. É o contrário. O que a gente precisa fazer é ir letrando as pessoas para que, em algum momento, elas sintam que têm o que contribuir, que a visão delas é importante e que faz sentido falar, entendendo como a política funciona. Isso é diferente de constranger alguém a produzir um posicionamento para provar publicamente que é uma pessoa boa.
Espero que a carta de hoje tenha trazido um pouco de alívio por aí.
Eu sei que os tempos estão difíceis.
Mas espero que eles não fiquem mais difíceis para a senhorita porque você se sentiu obrigada a se posicionar ou a fazer qualquer coisa que ainda não se sinta confortável para fazer.
Se você é uma empresária ou prestadora de serviço tentando construir independência financeira e um posicionamento pode colocar seu negócio em risco, não se sinta culpada por proteger a empresa.
Você não precisa assumir individualmente a responsabilidade pela salvação do mundo.
Se a gente quer trocar o jogo, a gente primeiro precisa ganhá-lo.
E, para as mulheres, ganhar esse jogo é dinheiro no bolso em primeiro lugar.
Independentemente do que aconteça no domingo, é assim que a gente ganha.
Eu não tô aqui para apontar o dedo na sua cara nem te dizer que meu posicionamento é melhor que o seu. Eu tô aqui para fazer a minha parte para que as mulheres continuem livres.
Se votamos igual nessa eleição, continue aqui.
Se votamos diferente, continue também.
Nós não ganhamos quando somos divididas em grupos que se odeiam.
Se queremos a mesma coisa para nós, a gente precisa aprender a divergir convergindo.
Continuaremos aqui falando de independência financeira, negócios, direitos das mulheres e tudo aquilo que de fato muda algum caralho.
Que o melhor nos aconteça nesse domingo.
Mari Fernandes