Carta 201
Não desista
A carta da semana passada reverberou forte entre vocês. E não consigo ver outro assunto mais relevante para nós, mulheres, do que o momento histórico que estamos vivendo. Eleições, política e direito das mulheres. Então…
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega nessa sexta?
A carta da semana passada reverberou forte entre vocês.
E não consigo ver outro assunto mais relevante para nós, mulheres, do que o momento histórico que estamos vivendo.
Eleições, política e direito das mulheres.
Então vamos conversar sobre isso, mas não quero falar de candidatos nem partido.
Quero falar sobre nós, mulheres, e uma janela única na história que eu não sei se todas nós estamos entendendo que estamos bem no meio.
Recebi várias respostas da última carta.
A maioria esmagadora das respostas foram de mulheres que partilharam da minha decisão de voto no primeiro turno, mas também recebi respostas de outras mulheres que pensam diferente de mim.
Respostas respeitosas, questionamentos pertinentes, vontade genuína de uma entender a outra.
E isso é maravilhooooosso.
Maravilhoso porque é a conversa que faz a gente pensar, repensar, refletir, decidir e, em algum momento depois, AGIR.
Existe uma célebre frase que diz “a educação não muda o mundo, a educação muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo.”
E esse conceito tá incrustado no meu DNA.
Eu acredito demais nele.
Tanto acredito que escolhi educar mulheres.
Abri uma escola de gestão só para elas, ou melhor, só para nós.
E por que eu escolhi trabalhar com mulheres?
Porque tudo que eu já estudei, li e vivenciei me prova, com números e mais números, que os melhores sujeitos para transformar a sociedade são as mulheres.
Quando eu falo transformar, eu tô falando, por exemplo, de diminuir a pobreza, erradicar a desnutrição ou aumentar o índice educacional de uma localidade.
Eu não sei se você sabe, mas todos os programas de distribuição de renda e crédito de maior sucesso no planeta coincidentemente (ou não) colocaram renda na mão das mulheres.
Vou trazer um exemplo só para ilustrar: imagina que uma aldeia, ou povoado, vai receber uma doação da Fundação Gates (uma ONG criada pelo Bill Gates e sua então esposa Melinda). Onde e como esse dinheiro deveria ser aplicado? Quanto deveria ir para educação? Quanto para saúde? E que tipo de saúde? Montar um posto de saúde ou contratar um médico a mais para o posto improvisado que existe?
Já é bem difícil decidir onde a gente aplica nosso dinheiro em um CNPJ. Imagina a dificuldade de escolher, entre milhares de demandas igualmente urgentes, quais serão contempladas.
Isso é um dos maiores problemas de programas de doação ou incentivo financeiro: dinheiro não resolve.
O que resolve é o dinheiro aplicado no lugar certo.
E esse lugar certo é uma resposta extremamente complexa.
Eis que descobriram que não se precisa definir necessariamente ONDE o dinheiro vai ser aplicado, mas sim QUEM vai tomar essa decisão.
E os números são cristalinos: os melhores resultados aparecem quando mulheres pertencentes à comunidade que vai receber o investimento decidem onde investi-lo.
Não é que essas mulheres têm uma resposta mágica, é que elas conseguem reunir as pessoas que têm demandas e mediar os interesses até que se chegue em uma decisão que, naquele momento, é a melhor para todos.
As mulheres provaram ter uma capacidade considerável de fazer as pessoas se ouvirem e serem ouvidas.
E isso é verdade para programas de ONGs em áreas sem água potável e também é verdade dentro das maiores corporações do planeta.
Equipes lideradas por mulheres têm menores índices de stress, menos rotatividade, são mais diversas e, para a surpresa de um total de zero pessoas, geram mais lucro por dólar investido.
E o que isso tem a ver com eleições e política?
Nós estamos vivendo um momento histórico no Brasil curioso.
Em teoria, todo mundo quer um país melhor, mas parece que “melhor” não é um conceito que tá muito unificado.
Olhamos para o “outro lado” e achamos que todo mundo é doido, mal informado ou muito mau-caráter, porque não é possível que eles REALMENTE queiram o que tão dizendo que querem.
E o outro lado olha para nós e pensa exatamente a mesma coisa.
E eu não acho que nenhuma dessas duas visões é verdadeira.
Tem gente que acha que intervenção militar e ditadura é legal? Ô SE TEM.
Mas a maior parte de nós não acha, nem de um “lado” nem do “outro” (o que quer que esses lados hoje signifiquem).
Eu sei que dá um medo do caralho de pensar “misericórdia, vão destruir o país”. Dá, dá medo sim.
E que temos a sensação de que tínhamos avançado tanto e agora vamos retroceder.
Retrocesso, essa é a sensação.
Eu queria que você pegasse esse sentimento aí e ficasse uns segundinhos com ele. Tá sentindo essa coisa esquisita, mistura de medo e impotência, raiva e espanto, incredulidade e cansaço?
ISSO aí é a experiência full completa de ser mulher.
Sempre foi.
É que nós, as nascidas com internet quase na mão, que lemos Simone de Beauvoir, temos CNPJ, conta no banco e podemos comprar uma passagem para viajar sem precisar de uma assinatura do marido, vivemos tempo demais das nossas vidas com direitos “demais”.
Nós, que temos 30, 40 anos, nascemos podendo votar e sendo votadas.
Fomos ao ginecologista e pedimos um anticoncepcional.
Usamos camisinha como algo banal.
Tudo isso que a gente faz sem perceber NÃO ERA NOSSO.
Só que agora parece que sempre foi, e perder qualquer uma dessas coisas parece de um descabimento quase ficcional.
Nós não tivemos tempo suficiente sem essas coisas para entender, na alma e não no cérebro, o buraco que é não tê-las.
E quem não conhece sua história está condenada a repeti-la.
Por isso, na carta de hoje, eu queria lembrar algumas coisinhas aqui para nós.
Em 1932, recebemos o direito ao voto. Tem 94 anos.
A primeira eleição presidencial direta no Brasil aconteceu há mais de 130 anos.
Veja, levou mais de QUARENTA anos para o Brasil falar “Tá, ok, vamos deixar essas muié votar”. Quarenta. Mais do que os anos que eu já vivi.
Até 1962, as mulheres casadas eram LEGALMENTE consideradas relativamente INCAPAZES. Isso significa que, se seu pai fosse um bilionário e morresse, quem ia gerenciar TODA a sua grana era o senhor seu marido. Como a gente não tinha dinheiro, para abrir uma conta num banco era preciso que nosso homi assinasse a poha de um papel dizendo que a gente podia.
Quando a pílula anticoncepcional chegou no Brasil, se você fosse na farmácia, iam te pedir sabe o quê? Sua certidão de casamento.
Poooois, se você fosse solteira, sem um homem para ser responsável por você, você não podia decidir o que queria fazer com o seu próprio ciclo menstrual.
Eu poderia escrever 874 cartas descrevendo os absurdos ultrajantes que as mulheres antes de nós tiveram que engolir a seco durante loooongos anos de suas vidas.
Mas acho que já deu para você entender que, quando a gente fala de conquista de direitos para as mulheres, a palavra CONQUISTA não tá lá à toa.
O troço teve que ser perseguido e agarrado no laço, caso contrário não teríamos nada disso.
E aí que estamos agora vivendo os lados confusos de uma história muito louca.
Sentimos que o mundo avançou para nós.
Mas também sentimos que falta muito.
E que tudo que temos parece não estar tão garantido assim.
Mas agora a gente vota, mas ainda vemos o aumento do feminicídio.
Vivemos numa contradição histórica que uma hora nos empurra para a esperança ou para a desolação.
Esquisitíssimo ser mulher nessa época, né não?
Sim, sim e sim.
Mas eu queria resgatar todos os belíssimos dados que te trouxe lá no começo da carta.
Lembra quando eu te disse que o QUEM importa mais do que o O QUE?
Que mulheres decidindo pelas suas comunidades são mais efetivas que as equipes técnicas vindas de fora?
Pois muito que bem.
Essas mulheres somos nós.
Não “elas”, NÓS.
Eu e você.
Nós mesmas.
E talvez não tenha caído essa sua ficha.
Você faz parte também do grupo de mulheres que decide para onde sua comunidade vai andar.
E nesse momento você tá pensando “uai, mas como assim, Mari?”
Eu não sei se te ocorreu que o seu CNPJ é um grupo de pessoas em torno de um trem que você construiu.
Sua equipe, fornecedores, clientes… toda essa galera circula EM TORNO DE VOCÊ.
O faturamento da sua empresa compõe o PIB. O salário que você paga paga também a mensalidade da escola do filho da sua funcionária. O conteúdo que você faz vira referência de conduta para quem te segue no Instagram.
Eu não sei qual é a saída para o Brasil.
Mas eu tenho absoluta certeza que somos nós, as mulheres, as mais capacitadas para fazer o que quer que seja necessário.
E uma das coisas que a gente precisa fazer é nos apoderar da capacidade de mobilização e poder que toda portadora de CNPJ, sem saber, tem nas mãos.
Se a gente não entende que liderar, gerir e saber unir pessoas em torno de um objetivo é a arma mais poderosa existente no planeta, a gente simplesmente não usa.
Gestão não serve só para fazer lucro vendendo mais.
Gestão serve para motivar as pessoas numa direção comum.
Para influenciar as pessoas para aquilo que a gente acredita que é o certo.
Para pôr dinheiro onde a gente acha que tem que ter.
Nenhuma luta, nenhuma mudança acontece sem LIDERANÇAS.
Acho que isso tá mais do que esfregado na sua fuça a esse momento.
Eu não ensino gestão porque eu quero que você seja (só) mais rica.
Eu ensino gestão porque acredito que a gestão é uma ferramenta de transformação da sociedade.
Quando uma mulher aprende a liderar seu time, não pense que ela não saberá liderar um grupo de militantes por um direito ou outro.
Quando uma mulher aprende a fazer dinheiro, não duvide que ela saberá multiplicá-lo para investir nas causas em que ela acredita.
Quando aprendemos a negociar, tenha certeza que usaremos isso para pleitear leis que nos favoreçam.
É nisso que eu acredito.
Em nós e na nossa capacidade de gerir o mundo ao nosso favor.
Não vai ser gostosinho, não vai ser fácil, mas, contra todos os séculos de sabotagem, a gente tá ano a ano avançando sem nunca desistir.
Não desista.