Carta 200
Sim, falarei das eleições
Hoje chegamos com dois eventos históricos acontecendo no mesmo dia. Hoje chegamos na carta 200! 200 semanas escrevendo sobre a minha experiência de ser, antes de uma empresa, uma mulher que empreende. Duzentas. É semana…
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega no dia de hoje?
Hoje chegamos com dois eventos históricos acontecendo no mesmo dia.
Hoje chegamos na carta 200! 200 semanas escrevendo sobre a minha experiência de ser, antes de uma empresa, uma mulher que empreende.
Duzentas.
É semana para caralho.
Tem duzentas sextas-feiras que, sem nunca, nunca, nunca ter falhado, eu sento em algum lugar confortável e passo longos minutos pensando “o que vale a pena ser escrito hoje?”
“O que de mais útil eu posso ser na carta de hoje?”
E assim, semana após semana, desde meados de 2022, mais precisamente 28 de outubro de 2022, enviei a primeira Carta da Mari, assim intitulada, para vocês.
Observe a data: 28 de outubro de 2022.
Sim, novamente a sexta pré-eleições presidenciais.
E foi essa carta que inaugurou o que hoje se tornaram quase 4 anos de Cartas da Mari.
Quase um mandato inteiro, que ironia.
E volto aqui, na carta 200, exatamente na carta 200, nas vésperas das eleições, para falar de novo sobre o tabu do século 21: política.
E para falar sobre ele eu vou contar uma história, que coincidentemente (ou não) acabou de me acontecer, nos minutos anteriores a eu pegar meu tablet pra te escrever essa carta.
Vamos ao acontecimento:
Tem algumas semanas que eu tô percebendo meu notebook ficando cada vez mais lento. No começo, achei que era só uma atualização qualquer ou um dia de internet ruim, mas aí o bicho foi ficando cada vez mais lento até começar a travar de vez toda vez que eu abria mais do que 2 abas do Chrome e uma reunião do Zoom.
Veja, eu analiso centenas de dados todos os dias.
Para fazer UM planejamento semestral pra uma mentorada, são pelo menos 8 abas abertas simultaneamente.
Não tem condições de eu trabalhar com um troço que trava com 2, certo?
Vacinada que sou, eu fiz um vídeo do computador travando: como ele travou, como tava o gerenciador de tarefas na hora que ele empacou, quanto tempo tava levando do clique até a execução do comando… gravei tudo.
Mandei mensagem para a assistência técnica combinando dia e hora pra deixar o notebook lá. Meu computador é um escritório inteiro funcionando dentro dele, ficar sem computador é como um motorista ficar sem carro para dirigir. Peguei meu reserva, instalei o que precisava, salvei o que era necessário e fui lá deixar o bendito.
Eu atravessei a cidade inteira (pra quem não sabe, eu sou de Brasília, então eu fui de uma asa do avião até a outra), isso tudo no trânsito de depois do almoço, com aquele mormaço de outubro e com uma criança de 5 anos sentada na cadeirinha de trás.
Sextas são os meus dias de ficar com meu sobrinho, Caê, e, sendo sexta, ele faria essa peregrinação comigo.
Estacionei, atravessei 3 ruas sem sinal nem faixa de pedestre com uma bolsa, um notebook e uma criança.
Enfim, cheguei até a assistência.
Abri o computador e disse que ele estava lento, travando toda hora, e que às vezes eu tinha até que reiniciar para ele funfar.
O técnico, então, virou o computador para ele, apertou em meia dúzia de lugares e deu o veredicto:
“Eu olhei aqui, ele não tá lento não.”
Esse é um momento que toda mulher já viveu. Ele já é tão corriqueiro que a gente nem se lembra de comentar, é como dizer que o céu é azul, tá tão sempre lá que nem nos damos ao trabalho de apontar.
A nossa palavra não vale.
É como se tudo que eu relatei desde o dia que mandei mensagem no WhatsApp para a assistência técnica fosse pura invenção da minha cabeça.
Aí eu já tava irritada, mas ok, nada de novo, vamos lá.
Abri o vídeo que tinha feito nos dias anteriores e falei:
“Moço, tá lento sim, olha aqui, eu gravei um vídeo para te mostrar.”
Dei play no vídeo, mostrei os 2 minutos de gravação narrados por mim mostrando claramente a lentidão e o travamento.
5 segundos de silêncio e recebo a resposta:
“Aham, mas aqui não tá lento não.”
Nessa hora eu tenho vontades contraditórias.
Meu primeiro impulso é pegar o computador e ir embora, o segundo é calmamente virar para o indivíduo e dizer:
“Certo, então você acha que eu falei com você no começo da semana, agendei um horário, atravessei a cidade, fiquei sem computador para trabalhar e fiz tudo isso por um computador que está funcionando perfeitamente, é isso mesmo?”
Não podemos fazer nenhum dos dois.
Se não for esse técnico, vai ser outro. Eu ainda vou ter que lidar com um homem que tem certeza que eu não entendo nada sobre computadores, olhando na minha cara, após passar 2 minutos com um aparelho que eu uso há sei lá quantos anos, me dizer que “não, não tá lento não”.
Resolvi fazer o que todas nós já precisamos fazer mais vezes do que gostaríamos:
Engolir o ódio, se fingir de doida e tentar trazer mais uma prova para o complexo arcabouço teórico necessário para um homem confiar no que sai da boca de uma mulher.
Fui para a terceira tentativa.
Disse para ele “então faz o seguinte, abre aí tal e tal aba e entra aí no Zoom para a gente ver uma coisa.”
Me fingi de idiota.
Ele fez.
Já balançando a cabeça em negativa, como se dissesse “senhora, o computador tá ótimo”.
Clica daqui, clica dali… e TCHARAM.
O computador trava.
Eu, pacientemente olhando para a tela, permaneço calada.
Ele clica, clica de novo, tenta fechar o Zoom, fechar de novo e nada.
Silêncio.
Até que não tinha mais como ele fugir:
“É, realmente AGORA ele travou.”
Após a batalha semijudicial para provar que eu não tinha levado meu computador perfeitamente ótimo para uma assistência porque eu quis, discutimos as opções e ele falou que precisaria fazer uns testes.
Deixei o notebook lá, peguei na mão do Caê, atravessei mais três ruas, botei na cadeirinha, aperta o cinto e vamos finalmente para casa.
No caminho, a raiva ainda me movimentava.
Tanto , que precisava externalizá-la.
Virei para o Caê e perguntei:
“Caê, me conta o que você acha que aconteceu agora com a tia Nana e o moço do conserto do computador.”
Ele, sem demorar mais do que um milésimo de segundo, respondeu:
“Ele não acreditou que o seu computador tava lento, né, tia Nana?”
Aqui preciso fazer uma observação: Caê tem 5 anos, e nós conversamos de tudo com ele desde que ele nem entendia o que era uma conversa. E eu falo com ele sobre absolutamente tudo, uma pergunta dessa no meio de um deslocamento de carro é completamente normal para ele.
Aí ele mesmo emendou:
“Por que será que ele não acreditou em você, hein?”
Eu respondi: “Humm… vamos refletir juntos… por que você acha?”
Silêncio.
Vi todas as engrenagens daquela cabecinha trabalhando, ele olhando para fora da janela, eu olhando de vez em quando para ele pelo retrovisor… alguns segundos depois sai a resposta:
“Machismo, né?”
Eu quis entender o que ele entendia por machismo e devolvi:
“Será? Me explica o que você acha que é machismo.”
“É quando alguém não acredita no que uma mulher fala.”
E aí entramos nós 2 em uma conversa sobre machismo, gordofobia, racismo, capacitismo.
Falei sobre brincar na escola com meninas e não só com meninos.
Tentei ao máximo fazer a lavagem cerebral reversa:
Mulheres são gente e precisam ser ouvidas.
E por que eu tô te contando essa história?
Meu sobrinho tem 5 anos, cinco
Ele não fez faculdade, não terminou o ensino médio e nem saiu em campanha para nenhum cargo.
Mas ele, do jeito dele, consegue perceber quando uma mulher é objeto de uma injustiça.
Sem que ninguém tenha precisado apontar literalmente, ele presenciou, entendeu, verbalizou e soube nomear exatamente o que tava rolando ali:
Machismo.
Os “ismos” da vida, todos eles, partem do pressuposto de que há alguém capaz de dizer quem merece o quê.
De que há um ser superior e um a ser subjugado.
Que há uma hierarquia divina que separa quem decide por si só e quem pode decidir pelos outros.
Todas essas ideias estão no campo contrário da nossa querida e tão mal compreendida democracia.
Eu trabalho com mulheres há mais de 10 anos, e TESTEMUNHO todo dia (mais de uma vez ao dia) o estrago abissal que o “ismo” faz na capacidade de mulheres serem independentes:
A certeza de que não é boa com números.
O medo do dinheiro.
A desconfiança de que, se ganhar dinheiro, vai torrar tudo.
A culpa por cobrar.
A vergonha de falar bem de si.
A sobrecarga mental.
Nada disso é inerente a essas mulheres, todas elas foram ensinadas que elas são assim.
Carentes de coragem, frágeis, incapazes, indefesas, necessitadas da tutela e proteção do outro.
Eu sei o impacto das ideias que dizem que nós somos menos.
E eu sei que tudo isso é mentira, porque eu vejo todo santo dia o que mulheres são capazes de fazer quando são capacitadas para fazê-lo.
Não precisamos de encorajamento, precisamos de ferramentas.
E é a democracia, meus amores, que nos dará, ou nos retirará, as ferramentas necessárias para o que quisermos fazer das nossas vidas.
Poder estudar, ter conta no banco, ter herança, não querer transar com o marido.
Leia a frase acima. TODOS os elementos contidos nela foram direitos que precisaram ser CONQUISTADOS.
Isso significa que em algum momento da história (um momento grande demais para o meu gosto) ninguém achava que uma mulher deveria ter acesso a livros, e que não era necessário ter uma conta no banco, uma vez que tem conta quem tem grana.
Também foi necessário convencer as pessoas que as mulheres podem, vejam só, não querer transar com seus maridos.
E que, se um homem, ainda que marido, FORÇA uma mulher a fazer sexo com ele, isso também pode ser chamado de estupro.
Vejam só que coisa, não é mesmo?
Precisamos convencer as pessoas e bater o pé que a gente também é GENTE.
E isso só pode acontecer por conta da danada da democracia.
No direito de expressar seus desejos e escolher quem os representará.
É isso a democracia.
E é desse lado da história que eu estive, estou e estarei.
Não se negocia a democracia.
Minhas alunas mais antigas já me acompanharam em mais de uma eleição, então para elas é claro o que eu acredito e em quem eu vou votar.
Mas nesses últimos 4 anos chegou tanta gente aqui que eu sinto uma obrigação moral de explicitar novamente.
Nós podemos conviver com qualquer ideia, podemos não, DEVEMOS conviver com qualquer ideia que seja oposta à nossa.
Desde que essas ideias também permitam a coexistência das demais.
Já diria a famosa citação “toda unanimidade é burra.”
Visões diferentes de COMO o país deve ser gerido são valiosas.
Formas diversas de lidar com a economia são desejáveis.
Mas é intolerável a intolerância.
É intolerável, inaceitável, sem absolutamente nenhuma margem, que alguém se sinta no direito de dizer: “O Brasil é meu, e quem é diferente de mim que se lasque.”
Eu sou filha de brasilienses.
Minha avó veio para Brasília quando o que tínhamos aqui era um cerrado inabitado.
Eu sou a primeira geração de filhos de nascidos na nova capital do país.
Eu vejo TODO dia o que vocês veem na televisão.
Tem deputado passando do meu lado num carro preto na faixa de pedestre.
As enormes manifestações políticas que vocês acompanham pelas telas acontecem no meu quintal.
Nossos pontos turísticos são as casas onde as leis que regem a minha vida são escritas, votadas, aprovadas e derrubadas.
Eu presenciei, incrédula, a invasão do meu quintal no dia 8 de janeiro de 2023.
Eu ouvi as bombas, vi a fumaça e convivi por vaaários meses com os monumentos da minha cidade fechados para visita, com grades ao redor.
Nesse triste dia, um grupo decidiu que a democracia não valia de nada.
Que os votos de um país inteiro poderiam ser descartados.
Que eles iriam “tomar o país das mãos” de sei lá quem.
Os monumentos que eu desenhei na escola tantas vezes foram atacados, pichados, destruídos, incendiados.
E isso não se esquece.
E não se deveria esquecer.
O que aconteceu dia 8 de janeiro na capital do nosso país, mais conhecida como a cidade em que eu nasci e vivo desde então, foi a crença de que há hierarquia entre nós.
De que não se precisa respeitar as regras do jogo: se você não gostou do resultado, você pode, como uma criança que fura a bola dos amiguinhos, tomar à força aquilo que não é seu.
A manutenção da democracia não é negociável.
Não é. E não há absolutamente nenhum argumento que justifique isso.
Absolutamente nenhum.
Então hoje eu venho deixar claro, como fiz na carta número 1, de 28 de outubro de 2022, 200 semanas atrás:
Eu defenderei até o fim o direito de cada um expressar suas crenças.
Desde que elas não signifiquem a eliminação de todas as outras.
Nós temos treze candidatos disputando as eleições presidenciais, mas só um deles faz parte da família que criou um plano para matar o presidente, ministros e dar um golpe na democracia.
Só um deles é filho de um senhor que diz “eu tive cinco filhos, foram quatro homens, no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher.”
Se Caê, uma criança de meia década que ainda não tem autorização nem pra usar uma faca de serra sozinho, consegue entender o que é machismo, não ache que um homem adulto não entende as consequências do que fala.
Ele sabe o que fala, falou e continua falando.
E quis falar exatamente o que está escrito ali.
Você tem 12 opções de voto, mas ELE NÃO.
Meu voto no domingo será para proteger aquela tão cara a nós, mulheres.
Ela, que também tem nome de mulher:
Democracia.
Democracia.
Nada, absolutamente nada é mais importante nessas eleições do que ela.
Eu votarei em quem mais tem chance de impedir que um antidemocrático seja chamado de meu presidente.
Se você se identifica com as ideias que eu trago aqui, se as coisas que eu te falo ressoam em você, então estamos do mesmo lado.
Não necessariamente precisamos votar no mesmo candidato esse domingo.
Mas, se estamos juntas, precisamos pactuar que tem um deles que não pode ser nossa opção, nem hoje nem nunca.
Meu voto no domingo será 13. Jamais, em hipótese alguma, ele foi ou será 22.
Flávio é o retrato do que eu combato todos os dias.
Ele não.
Eles nunca mais.