fluida blog

Carta 199

Liberou geral

Eu chego tentando me desvencilhar de pequenos dentes que resolveram cravar suas facas afiadas em minhas canelas. E, apesar de eu usar e abusar das metáforas, essa frase não é uma figura de linguagem. Minha avó resolveu…

Gestão de negócios

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Como a senhorita chega no dia de hoje?

Eu chego tentando me desvencilhar de pequenos dentes que resolveram cravar suas facas afiadas em minhas canelas.

E, apesar de eu usar e abusar das metáforas, essa frase não é uma figura de linguagem.

Minha avó resolveu ser proprietária de um cachorro.

Ela já teve vários bichinhos, mas o último faleceu há vários anos e ela decidiu não ter mais.

Eis que, por algum revés do destino, o universo decidiu mudar as ideias da minha vó.

Ela poderia pegar um hamster, um beta e até uma calopsita.

Mas ela resolveu escolher mesmo um doguinho.

Ah, Mari, mas que que tem sua avó resolver ter um doguinho?

Não tem nada.

Não fosse a raça que a bendita matriarca escolheu.

Pense aí quais raças te vêm à cabeça quando você pensa em uma aposentada de cabelo branco no auge dos seus mais de 80 anos.

Talvez um poodle daqueles bem fofinhos, com pelagem de ovelha?

Ou quem sabe um lulu-da-pomerânia, que adora um colo e se comporta tal qual um boneco, permitindo que você leve o cachorro para qualquer lugar que queira?

Bem que podia.

A abençoada da minha avó não escolheu nenhum deles.

Ao contrário do imaginário popular, ela decidiu inovar.

Cachorro frufru?

Mais fofinho que nuvem de algodão?

Calmo e plácido tal qual a maturidade da idade?

Não.

Minha avó escolheu um Jack Russell.

Eu não sei se você é letrada em raças de cachorro.

Eu também não era.

Mas, mesmo que você desconheça as características de cada raça, você vai compreender que raça é essa quando eu te disser que é bem provável que você já tenha visto um exemplar dela na televisão.

Você lembra de um desenho, que depois virou filme, que tinha por personagem principal um cara que, feliz ou infelizmente, teve seu destino cruzado com uma máscara de madeira?

E que, ao colocar a máscara, se transformava em um personagem verde, de terno amarelo, caótico, inconsequente e completamente desajuizado chamado “Máscara”?

Lembrou?

E você lembra que esse personagem altamente randômico tinha um animal de estimação?

Sim, o cachorro do Máscara é um Jack Russell.

Tal qual seu dono, a espécie é reconhecida pela sua energia infinita, movimentos acelerados e a fama de “Taz-Mania” dos cachorros.

Esse foi o pequeno anjo que minha vó decidiu trazer para dentro de casa.

O cachorro do Máscara.

Um anjinho.

O bendito já chegou fazendo jus à sua fama.

Ele acorda às QUATRO horas da manhã, choramingando, querendo brincar.

Por ser também um filhote, não tem 2 meses o abençoado, ele ainda tem hábitos de sono e vigília bem peculiares.

Ele acorda às 4 da manhã, choraminga, brinca, corre, pula em cima da pobre velhinha, que tem, segundo as palavras dela, que se enrolar tal qual uma múmia para que o cachorro não fique lambendo e mordiscando sua pele à mostra.

Depois do horário de acordar mais adequado a um galináceo, ele espera sua nova dona finalmente se levantar.

Ao longo do dia, o bendito gasta toda a sua energia mordiscando canelas e quase causando pequenos acidentes domésticos ao se embrenhar nos nossos passos enquanto andamos pela casa.

Mas o universo é justo e, tal qual uma criança, ele dá paz às moradoras da casa quando resolve tirar sua soneca.

Como se já tivesse a independência de um adulto, ele se dirige à sua cama, nos seus aposentos, se ajeita e dorme para a paz geral da nação.

O problema é que a bateria do serzinho não parece estar viciada.

E bastam QUINZE MINUTOS de soneca para ele retomar com toda a sua capacidade elétrica preenchida, pronto para atazanar quem quer que seja.

Quinze minutos é o máximo necessário para o descanso vespertino do dito-cujo.

Dito-cujo esse que minha avó nomeou de BOB.

Como boa mineira, não importa qual o nome da certidão de nascimento, todos os seres viventes na terra serão, mais cedo ou mais tarde, chamados por apelidos a depender de seu comportamento no momento em que são enunciados.

O filhote endiabrado já ganhou a alcunha de TOLOBA.

Eu não sei você, mas eu NUNCA tinha ouvido tal expressão.

TO LO BA.

Caí na gargalhada com tal sonoridade.

Segundo minha vó, toloba é similar a bocoió.

Outra palavra que eu simplesmente amo.

Não há nada mais redondinho para sair da nossa boca do que bocoió.

Quer dizer, até o advento de toloba.

Que claramente tomou o primeiro lugar.

Nos 7 dias em que Bob se encontra no seio da família Fernandes, ele já ganhou enxoval, brinquedos, pote de ração e já foi apresentado ao membro mais novo da família.

Caê, meu sobrinho, que já foi tema de tantas cartas aqui.

Caê nunca teve muito contato com cachorro. Ninguém da família tem um para que ele crescesse entendendo o que é ser criança e brincar com um cachorro tal qual ele fosse Playmobil.

Quando recebeu a notícia de que Bob tinha chegado, me perguntou: “Tia Nana, será que o Bob vai gostar de mim?”

A tia quase se desmancha de fofura e responde com toda a convicção do mundo que “é claro que vai”.

Cachorros e crianças são os seres que historicamente não têm como dar errado.

Os cachorros parecem entender que crianças são pequenos adultos embriagados e costumam tolerar, pacientes, qualquer manipulação que lhes seja infligida.

A carta de hoje é sobre isso.

Uma senhora de 82 anos que escolheu como companheiro um cachorro endiabrado.

Ela tinha várias outras opções para movimentar seus dias de aposentada:

Crochê, tricô, uma hidroginástica com as senhoras da quadra, palavra cruzada (essa ela já faz), mas ela escolheu se tornar responsável por uma unidade de caos de poucos gramas.

E por que eu tô trazendo esse assunto na carta de hoje?

Se minha vó pode escolher o filhote da raça mais caótica para ser seu novo pet depois de já ter casado, trabalhado, parido, mudado, aposentado e embranquecido seus encaracolados cachos.

Eu acho que ganhamos todas nós, abaixo dos 82 anos, a licença poética para fazermos o que quisermos das nossas vidas:

Pintar o cabelo de rosa.

Terminar um casamento.

Mudar de casa.

Demitir um funcionário.

Fazer dancinha na internet.

Mudar de nicho.

Fechar um CNPJ.

Abrir outro.

Tomar sorvete azul com gosto de chiclete numa tarde ensolarada.

Vim, então, te dar a notícia:

O sindicato das mulheres liberou geral.

Você está autorizada a fazer o que quiser.

Se você não julgaria uma senhora octogenária por querer um doguinho de companhia, você com toda certeza não vai se julgar por querer qualquer coisa que esteja passando na sua cachola nesse exato momento.

Liberou geral, galera.

Sejamos livres.

Segue foto do meliante para soltarmos juntas um “oouunnnt” bem fofinho.

imagem 1

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·