Carta 197
Pare de dosar quem você é
Na carta de hoje, quero te contar uma coisa que eu ouvi de novo. De novo porque eu já ouvi centenas de vezes. Mas toda vez que eu ouço, me assusto. Não porque seja um troço digno de filme de terror, mas porque eu me…
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega hoje?
Na carta de hoje, quero te contar uma coisa que eu ouvi de novo.
De novo porque eu já ouvi centenas de vezes.
Mas toda vez que eu ouço, me assusto.
Não porque seja um troço digno de filme de terror, mas porque eu me autoengano.
Tem tanto tempo que eu trabalho com mulheres, tem tanto tempo que eu estudo os mesmos temas, que eu resolvo os mesmos problemas, que meu inconsciente esperançoso se convence de que os problemas que mulheres vivem estão superados.
Essa mentorada era uma trouxa com a equipe, agora ela sabe ser firme = todas as mulheres do mundo agora sabem impor limites.
É assim que, sorrateiramente, meu cérebro inconsciente registra cada problema que eu resolvo, mentoro e oriento nas milhares de horas que passo sentada com empresárias.
Mas meu cérebro consciente sabe que
estamos longe disso.
Essa semana, eu ouvi a seguinte pergunta:
“Mari, como dosar a minha personalidade nos meus conteúdos e na hora de vender?”
E eu já ouvi variações disso também.
“Como dosar a firmeza com a minha equipe?”“Como dosar minha personalidade com meus clientes?”
Como dosar _____? Insira aqui qualquer
traço inerentemente humano que fomos convencidas que é quase um defeito.
E nós precisamos conversar sobre isso.
O que me chama mais atenção nessa noia que a gente vive é a palavra que escolhemos para expressar esse incômodo:
DOSAR.
Quando eu penso em “dosar”, “dosagem”, eu imagino um cientista num laboratório dosando minúsculas gotículas de um reagente altamente explosivo numa mistura química prestes a levar tudo pelos ares caso a dose seja demais.
Ou a frase “o que difere o veneno do remédio é a dose”.
DOSAR algo é tomar muito cuidado para colocar pouquíssimo dessa coisa onde quer que seja, pois qualquer coisa a mais que isso certamente criará uma tragédia.
É assim que nos referimos a nós mesmas.
“Dosar” quem somos.
Se somos mais descontraídas, engraçadas e gostamos de memes duvidosos, precisamos dosar isso no conteúdo, caso contrário seremos vistas como pouco profissionais.
Se temos opiniões políticas claras, se defendemos um posicionamento, temos que dosar isso, afinal, não podemos ser categorizadas como radicais.
Se somos mais jovens, precisamos dosar o tom de voz e tomar cuidado com nossas roupas, evitar flores e babados, senão passa da dose e somos lidas como infantis, e ninguém compra de criança.
E a lista segue:
Amadora, infantil, pouco profissional, ultrapassada, radical, extremista, inexperiente.
Absolutamente todas as nossas ações e aspectos, na dose errada, são errados.
Estilo de roupa, tom de voz, cor do cabelo, tatuagem, crenças, relacionamento… cada microaspecto da nossa existência é nocivo.
É uma
dose letal para como somos vistas
perante os outros.
Como vamos ficar confortáveis em vender, liderar, gerir, se não estamos confortáveis em simplesmente SER?
O desconforto que você sente ao precisar dizer não para um desconto não é só falta de experiência em dizer não pro outro.
É tempo de experiência demais dizendo não para si mesma.
Nós, mulheres, estamos, sem nos dar conta disso, na maior parte da nossa vida, dosando porções diminutas de nós mesmas.
Dosar, para nós, não está relacionado com equilíbrio comedido.
Mas sim com ser obrigada a represar porções fartas do que somos.
Não podemos ser as mulheres que de verdade somos.
O que o mundo vê são frações ínfimas do caldeirão farto e transbordante que estamos trancafiando sabe-se lá onde.
Ninguém ficará confortável em posição nenhuma,
se não puder ficar confortável na própria pele.
A resposta para a pergunta inicial é:
NÃO DOSE.
Não é possível dosar partes de nós.
Você não pode andar por aí sendo porções de você.
Não existe humano íntegro que carrega apenas peças de quem se é.
NÃO DOSE.
Não dose o seu humor.
Não dose o tipo de lazer que você gosta de ter.
As músicas que você ouve.
Os hobbies que você se interessa.
Os livros que você lê.
As coisas que você acredita.
NÃO DOSE.
O preço de dosar quem você é é estar desconfortável por toda a sua existência.
É viver a vida com um sutiã de aro que escapou pela lateral e te cutuca a cada passo sem furar.
Não é suficiente para causar um estrago que te pareça grave.
Mas é mais do que suficiente para você passar mais tempo tentando se livrar daquele ferrinho que te cutuca do que
aproveitando a festa que você só vai viver uma vez.
DOSAR = Diminuir.
Seja volumosa.
Derrame porções fartas de você mesma.
E, se necessário, envenene todo mundo que não suporta mais que migalhas de quem você é.