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Carta 193

Joana d’Arc dos hipermercados

Eu preciso contar para você o que me ocorreu hoje. Tava eu hoje com o computador aberto, trabalhando, eis que recebo SEIS ÁUDIOS em sequência de uma amiga. Já achei que ela estava sendo sequestrada, abduzida ou que uma…

Gestão de negócios

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Como a senhorita chega no dia de hoje?

Eu preciso contar para você o que me ocorreu hoje.

Tava eu hoje com o computador aberto, trabalhando, eis que recebo SEIS ÁUDIOS em sequência de uma amiga.

Já achei que ela estava sendo sequestrada, abduzida ou que uma merda das grandes tinha acontecido.

Não podia ouvir na hora e mandei logo “amiga de Deus, tá tudo bem, não consigo ouvir agora”.

Ela prontamente respondeu com “só tô contando do meu dia”.

Eu e essa amiga temos conversas pouquíssimo usuais no WhatsApp, toda uma forma bem peculiar de se comunicar.

Mas receber 6 áudios contando o dia dela num era algo que já tinha me ocorrido.

Num aguentei esperar, parei o que eu tava fazendo e fui ouvir os áudios.

Eles já começam assim “minha vida ultimamente é desgraça em cima de desgraça, mas no dia de ontem o universo falou que ia tirar uma comigo”.

Aí eu já tava passando mal de rir.

Entre os muitíssimos minutos de áudio descrevendo a epopeia que ela se meteu, o resumo era mais ou menos assim:

Ela foi fazer uma mudança para um novo apartamento. Chegando com vários pacotes novos do Mercado Livre, os responsáveis pelo prédio acharam que ela era um entregador do dito e-commerce e deram um esporro nela, porque aquela hora num era hora pra entrega. Mal-entendido desfeito, ela já começou o dia às 6h da manhã tomando bronca por engano. Ok, segue o jogo.

Em sequência, a amiga em questão se dirigiu à Leroy Merlin (mais conhecida como Disney do proletariado) comprar uma lâmpada.** Como ela não sabia qual era o nome do modelo, resolveu levar a lâmpada queimada para comprar uma igual.**

“Eu mostro para o atendente o modelo e ele pega uma para mim.”

Ledo engano. Ao apresentar a lâmpada para o atendente, o mesmo prontamente respondeu:

“Mas a senhora não sabe que essas lâmpadas são extremamente prejudiciais ao meio ambiente?”

A pobi da minha amiga, que tem uma quedinha pelas questões coletivas, já começou ali a questionar todo o impacto ambiental que por anos ela deve ter causado sem saber.

Já baqueada pela bronca número 1, ela agora enfrentava a bronca número 2, essa sim muito merecida, afinal “QUEM AINDA USA UMA LÂMPADA TÓXICA EM PLENO 2026”.

Sensibilizada pelo erro imperdoável, ela ficou ali na frente do atendente. O referido trabalhador iniciou então um discurso sobre as diferentes lâmpadas, o avanço da tecnologia de iluminação e todos os riscos e problemas que a tecnologia antiga tinha o potencial de criar.

A pobi da amiga, com pressa, no meio de uma mudança, não quis interromper o rapaz.

Por isso ela passou os próximos DEZ minutos em uma palestra não solicitada sobre energias sustentáveis.

Findado o TED talk, ela então finalmente tem coragem de interromper o trabalhador e dizer: “certo, então me dá outro bocal, que então sirva para essa lâmpada que não vai destruir o meio ambiente, aí eu já levo a lâmpada mais tecnológica”.

Nisso o trabalhador responde “minha senhora, não vai dar. Para trocar esse bocal você vai ter que chamar um eletricista, conforme a resolução 378 da agência das lâmpadas sustentáveis. Apenas um profissional capacitado pode mexer com material com tamanho potencial destrutivo para o meio ambiente”.

(Ele não deve ter falado com essas palavras, mas farei uso da minha licença poética para contar a história exatamente como eu a visualizei através dos ricos minutos de áudio que recebi.)

Agora ela não tinha a lâmpada, não tinha o bocal e também num tinha um eletricista.

Ok, vamos corrigir esse erro.

Ela decide então descartar a lâmpada radioativa, comprar o novo bocal e se dirigir novamente ao seu apartamento para enfim chamar o eletricista e desfazer toda a bagaceira que aquele simples objeto reluzente já tinha causado em sua vida.

“Tô na Leroy, vou aproveitar e já descarto essa lâmpada naqueles centros de coleta de lixo que ficam ali no estacionamento.”

Lá vai a pequena gafanhota corrigir seu erro com a mãe natureza. Ela já havia comprado o bocal e também estava de posse de outras coisinhas a mais para a nova casa.

Ela pega seu carrinho de compras, que obviamente veio com a roda puxando. Aquelas que você tem que empurrar o diacho do carrinho para o lado e para frente ao mesmo tempo, sabe?

E se dirige ao estacionamento, local onde está instalado o container de coleta seletiva.

Desvia daquelas esferas de cimento que, por Deus, ninguém sabe porque colocam nos estacionamentos que as pessoas precisam andar com os carrinhos.

Avança em direção ao container.

Quando ela tá quase chegando, ouve em profusa voz: “senhora, senhora”.

Olha para trás e lá vem a segunda unidade de trabalhador da referida loja.

Dessa vez, uma mulher.

“Senhora, você não pode deixar esse carrinho no estacionamento.”

Ela, muito educada, responde “eu não vou deixar não, tô só indo levar ali a lâmpada causadora do furo na camada de ozônio para a coleta seletiva”.

A trabalhadora, muito ciente de seu papel de controladora do tráfego de carrinhos de compras, não podia deixar essa passar.

Ela então declara com veemência que a pobi da minha amiga terá que voltar todo o percurso com o carrinho, deixá-lo na calçada e então novamente se dirigir ao container, para só então retornar ao encontro das suas compras e recuperar novamente o carrinho.

Ela, que naquele momento já tinha derrubado 18 hectares de mata atlântica, feito entrega em horário errado e desrespeitado as regras de trânsito do departamento de trânsito carrinhal, decide acertar uma no dia.

Volta, deixa o carrinho, vai até o container, deixa a lâmpada, volta todo o caminho e finalmente recupera o carrinho e suas compras.

Ponto para a boa moça.

Ao chegar no carrinho, ela percebe que acabou deixando a chave do carro com seu marido, que nesse momento se encontrava fazendo compras dentro do mercado que fica no mesmo prédio que a danada da Leroy Merlin.

“Putz, vou ter que achar ele no mercado para guardar as compras.”

Ela se dirige ao prédio do mercado, sobe a rampa rolante com seu carrinho e seu precioso bocal não destrutivo para a natureza e começa a busca pelo seu amado.

Em poucos minutos no mercado, ela é interpelada por um simpático cidadão guardião do sindicato dos carrinhos de supermercado.

Ele então se dirige a ela e diz:

“Senhora.”

Ela vira.

“Esse carrinho é da Leroy, a senhora não pode usar o carrinho da outra loja para entrar aqui no mercado.”

Ela tenta explicar que não vai fazer compras no mercado, que acabou de comprar um bocal sustentável na loja ao lado, mas esqueceu a chave do carro com o cônjuge, e que só precisa, pelo amor de Deus, pegar as chaves do carro, socorro, amém.

“Infelizmente regras são regras.”

“Você vai ter que trocar de carrinho.”

Ela então sai novamente do mercado enquanto o solícito funcionário pega outro carrinho, esse sim do mercado.

Troca as mercadorias da Leroy para o carrinho do mercado.

E libera nossa querida protagonista de mais essa infração cometida.

Dessa vez sem detenção, aceitando o réu primário da infratora.

De posse do carrinho certo, agora ela pode procurar seu cônjuge e encontrar as desejadas chaves do carro, para enfim concluir essa hercúlea tarefa de trocar uma lâmpada.

Encontra o cônjuge, alegria!

Pega a chave do carro e agora se sente aliviada, pois finalmente agora vai poder encerrar aquele capítulo das compras.

Passa pela porta do mercado e vai em direção ao estacionamento. Quaaase chegando no carro, a poucos metros do fim dessa epopeia, ela ouve então o que não queria.

“Senhora, senhora.”

Dessa vez ela decide se fazer de doida e simplesmente não olha para trás.

Mas, como ela disse, o universo resolveu tirar uma com a cara dela.

E nesse momento um outro cliente, que havia saído do mesmo mercado, muito solícito, avisa ela de forma veemente que a funcionária chama por ela.

Que educado.

Ela então vira para trás e encontra a funcionária.

Para a felicidade dos donos de supermercado, essa trabalhadora brasileira também tem plena noção do seu papel social ao organizar a entrada e saída de transeuntes dos estabelecimentos comerciais.

Ela vira para nossa heroína e diz:

“Senhora, você não pode sair pela porta que saiu.”

Ela, sem entender, continua olhando incrédula para a cara da dedicada funcionária.

Ela então explica:

“Existe uma porta para entrar no mercado e outra para sair. Você saiu pela porta de entrada, tinha que ter saído pela porta de saída.”

Silêncio.

Ela então continua:

“A senhora vai ter que voltar e sair pela porta certa. Se meu chefe ver que você saiu pela porta errada, vai dar problema.”

A nossa pobi criatura já não tinha mais forças para lutar. Ela pensou “nossa, coitada, vai que o chefe dela briga com ela, dá uma advertência, sei lá”.

Ela então percorre todo o caminho que acabou de fazer novamente, entra no mercado pela porta de entrada (deus me livre cometer o mesmo erro duas vezes!!!!!).

Anda pelo mercado até o outro lado do mercado.

E sai novamente pela então porta de saída, aquela que deveria ter saído em primeiro lugar.

Mais uma boa ação no dia concluída.

Guarda as compras, fecha o carro e comemora que finalmente aquele dia está prestes a terminar (são 11h da manhã).

Considerando a sorte de acontecimentos que ocorreram desde que ela saiu da cama, seria de bom grado se um meteoro caísse no planeta Terra antes que ela cometesse mais alguma gravíssima infração para com a sociedade brasileira.

Ela volta ao supermercado, pela porta certa, e dessa vez sem carrinho.

Encontra seu marido, que pede a ela para encontrar trigo para kibe.

Ele quer fazer um kibe cru em casa e acabou esquecendo esse único e indispensável ingrediente.

Se dirige à prateleira de farinhas e afins. Ela, que tem meio metro só de perna, olha para um lado, para o outro, vasculha as prateleiras e não acha a danada da farinha.

Certo, “vou procurar um funcionário”.

Ela encontra um bem apessoado rapaz no corredor seguinte.

“Você pode me ajudar a achar trigo pra kibe?”

“Senhora, é lá nesse corredor aí que a senhora saiu.”

Ela então, temendo mais uma gravíssima infração, diz:

“É que eu acabei de sair de lá e não achei, pode me ajudar?”

“Claro, vou lá com você.”

Simples assim. O funcionário, sem apontar nenhuma falha, apenas diz que vai ajudá-la.

Que **as deusas abençoem **aquele rapaz.

Depois das malsucedidas interações com os trabalhadores do sistema mercatorial, seria um bálsamo para a alma de nossa preciosa não ser repreendida.

Já tava de bom tamanho não tomar a quarta bronca do dia, mas ser ajudada? Aí sim o universo tinha sido misericordioso.

Ela então anda em direção ao corredor e o prestativo funcionário a segue.

Ela se vira pra prateleira das farinhas e pergunta:

“Onde é que tá?”

Ele olha para ela, reflete e solta a última frase que ela achou que ouviria da boca de um funcionário de supermercado.

“Tá quente, senhora.”

“Tá quente.”

Naquele momento o querido resolveu que a melhor forma de ajudá-la seria indicar, através das palavras “tá quente” ou “tá frio”, o quão perto ou longe nossa miserável criatura estava do bendito trigo.

“Err… mas você pode me dizer onde tá?”

Ele então fala:

“Ihhhh, agora tá frio.”

Sim, ela está em uma gincana do Gugu, no meio do supermercado, a ponto de se humilhar para conseguir um conjunto de grãos ensacados.

Depois de um punhado de orientações térmicas do exemplar funcionário, encontra finalmente seu saco de grãos.

Você pode achar que eu inventei toda essa epopeia, e eu sinceramente gostaria que a minha mente fosse criativa o bastante para tal.

Mas a verdade é que essa história é verdade verdadeira.

Tão verdade verdadeira que a dona dela me autorizou a contá-la aqui E mencioná-la. Em breve revelo o nome da abençoada para que você possa prestar as suas condolências.

Mas, fora toda criatividade dos seres que devem reger esse universo, eu escolhi contar essa história na carta de hoje para falarmos sobre um troço:

O exemplar treinamento que os funcionários de estabelecimentos comerciais vêm tendo pelos seus empregadores.

Kkk claro que não (apesar que eu estou genuinamente intrigada com como eles são orientados a aplicar as regras do lugar).

Fora essa estranhíssima forma de aplicar regras aos clientes, eu queria que a gente revisasse juntas os acontecimentos dessa história.

  • Primeiro ela ouviu por mais de dez minutos uma palestra não solicitada sobre energias renováveis, só porque não queria interromper o pobi do funcionário que parecia muito ávido por mostrar seu mais recente treinamento.

  • Ela voltou um caminho pelo estacionamento já 90% percorrido, para devolver um carrinho que supostamente não poderia ir ao estacionamento, apenas para não criar um confronto com a funcionária que sinalizou o grave erro cometido.

  • Ela esperou plantada, na porta do mercado, que outro exemplar espécime de CLT trocasse suas compras de carrinho, para que ela não infringisse as regras alfandegárias de carrinhos de compra.

  • Ela READENTROU um mercado do qual JÁ HAVIA SAÍDO, e saiu NOVAMENTE, pois não queria causar complicações para a funcionária que deixou ela passar pela receita federal dos hipermercados de forma ilegal.

Repare comigo a quantidade de vezes que essa mulher aceitou CALADA a aplicação de regras no mínimo questionáveis.

Quanto tempo e passos dados ela deu desnecessariamente, pois não podia sair por uma porta que ela JÁ TINHA SAÍDO?

Quantos minutos de sua preciosa e corrida vida de autônoma ela desperdiçou ao ser plateia para um TED talk não solicitado sobre um caralho de um bocal de lâmpada?

Você deve estar achando que ela só pode ter algum problema muito grave em seus neurônios, ou que talvez tenha sido vítima de algum golpe de drogas no café da manhã, para que aceitasse em silêncio todos esses inusitados pedidos que acatou sem reclamar.

Você pode achar que ela é muito diferente de você.

Mas não é.

E eu vou te provar.

Sabe aquela vez que você cortou o cabelo e ele acabou ficando mais curto do que você gostaria e você não disse nada para o cabeleireiro?

Ou aquela outra que você viu alguém furar fila na sua frente, mas não comprou briga porque não valia a pena?

E aquela vez que você marcou o cliente num horário que normalmente você nem trabalha, só porque ele pediu com jeitinho?

Nós somos todas **iguaizinhas à nossa heroína **do dia.

Todas.

Todas nós evitamos milhares de batalhas todos os dias.

Engolimos os pequenos desconfortos e deixamos as pessoas nos fazerem executar manobras próximas à insanidade apenas porque “são as regras”.

PARA O CARALHO COM AS REGRAS.

Você não deveria se sentir impelida a ENTRAR NUM ESTABELECIMENTO QUE JÁ SAIU SÓ PARA SAIR DE NOVO PORQUE NÃO PODE SAIR PELA SAÍDA QUE VOCÊ, veja bem, JÁ SAIU.

O nosso problema é que somos educadas demais.

Demais da conta.

A ponto de nos sujeitar a uma gincana do Luciano Huck enquanto só queríamos o caralho do trigo do kibe.

Eu escolhi trazer essa hiperbólica (e verdadeira) história para você gravar ela bem na sua cabeçinha.

A partir de hoje você está oficialmente autorizada pelo sindicato das mulheres educadas demais a ser completamente descaralhada da cabeça com quem te pede coisas que não deveriam ser pedidas.

Você pode interromper o discurso presidencial do cara das lâmpadas:

“Certo querido, não posso ouvir agora.”

Você pode permanecer fora do mercado que você já saiu e dizer:

“Ah, que pena, da próxima eu saio pela porta correta.”

Você pode dizer:

“Não quero.”

“Não vou fazer.”

“Não gostei.”

“Você pode me dizer onde raios está a poha do trigo?”

Você pode.

Suspeito eu que são as pequenas insanidades cotidianas que nos moldam para aceitar as enormes atrocidades globais que são infligidas a nós.

Eu te desafio a pensar em uma unidade de homi que se sujeitaria a passar por todos esses desgraçados infortúnios sem dar um pio.

Homens dão as costas sem vergonha.

Dizem não sem receio.

Infringem regras sem pudor.

Eu num tô dizendo que esse é OOOO modelo de humano que gostaria que nós nos tornássemos.

Eu só tô dizendo que o mundo continuará rodando se você simplesmente disser

NÃO ✨

Uma palavrinha tão anã.

Tão diminuta e tão absurdamente necessária.

NÃO.

Não vou dar esse desconto.

Não vou voltar lá para a caralha da outra porta.

Não vou ouvir seu monólogo.

Não vou me sentir culpada de ter comprado em 1500 a poha da lâmpada que acabou com os pandas da Índia.

Não, não e não.

Uma palavra completa.

Use-a.

E para você que ficou até o final esperando quem é a Joana d’Arc dos nossos não:

Ela é minha amiga, minha consultora financeira e uma Fluida desde 1500.

A nossa protagonista se chama Laianna, e você pode encontrar ela e prestar suas homenagens lá no direct dela.

@oxentelai

Te amo, amiga! Mas da próxima vez que for trocar uma lâmpada, nos chame. Montaremos o sindicato das empresárias mal-educadas para proteger você.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·