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Carta 192

Sozinha no casamento

Animada com os últimos 5 meses do ano? (Sim, minha senhora, só faltam 5. Sempre que passa julho parece que o ano começa a correr tal qual um trem descarrilhado, embora eu nunca tenha presenciado esse evento, acredito…

Gestão de negócios

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Como a senhorita chega no dia de hoje?

Animada com os últimos 5 meses do ano?

(Sim, minha senhora, só faltam 5. Sempre que passa julho parece que o ano começa a correr tal qual um trem descarrilhado, embora eu nunca tenha presenciado esse evento, acredito que seja parecido.)

Nas próximas cartas vamos falar sobre esse último sprint do ano, mas hoje o assunto é outro.

Semana passada eu fui a um casamento que a única pessoa que eu conhecia era a noiva.

E fui 100% sozinha, eu, meu vestido, minha bolsinha de festa e mais ninguém.

A noiva deusa é nossa mentorada do Conselho.

Nós passamos os últimos meses organizando toda a empresa para que ela pudesse justamente casar e ficar um mês fora com toda a operação rodando sem ela.

Eu não conhecia o noivo em carne e osso, mas eu vivi por meses com ela todo o planejamento para esse casório, as decisões financeiras, o quanto aquilo era importante para ela…

Enfim, foi uma honra para mim quando ela me chamou para viver aquele dia com ela.

Todo mundo sabe o quanto custa um mísero convidado num casamento, e quase sempre queremos chamar mais gente do que o espaço comporta, ou o orçamento permite. Ser escolhida para estar ali testemunhando um dos sonhos da vida dela e que nada tinha a ver com só “faturar mais” é um ponto alto do meu trabalho: ver mulheres desfrutando das conquistas que elas trabalham tanto para conseguir.

Pois então, agora você entendeu como fui parar nesse casório.

Para num falar que eu não conhecia ninguém ninguém, eu tinha batido um papo com uma das amigas da noiva que estava no chá de lingerie (que eu também fui) e que estaria no casamento.

Ela continuava sendo uma completa estranha para mim, mas ela também estaria lá no casório.

Apesar de vocês jurarem que não, eu fora da Fluida não sou uma pessoa que faz amigo até na fila da padaria.

Na Fluida todas vocês são minhas conhecidas, minhas coleguinhas, então eu tenho 100% de permissão para ser eu mesma, falar o que eu penso e agir como eu de fato sou.

Confortável, sem podas, sem medo.

Em outros ambientes não tão conhecidos assim eu costumo ficar mais quieta, mais na minha, até encontrar alguém desconhecido que eu acho que vale a pena gastar energia para torná-la conhecida.

E assim vamos fazendo amigas, colegas, conhecidos…

Só que nesse casório aí eu só conhecia a noiva.

Não havia uma única alma viva naquele casório inteiro que eu conhecesse.

Nem o noivo eu tinha visto pessoalmente.

Eu não sei como foi a sua criação em específico, mas sei que se você é mulher, tem um sentimento que até nos acostumamos a experimentar todo santo dia: o danado do medo.

Nós sabemos desde muito novas que para nós existem muitos perigos no espaço público.

O cara que senta do seu lado no ônibus, o flanelinha que te aborda no estacionamento, o chefe no corredor.

Vivemos 89 tipos de medo todo santo dia.

O da integridade física é o mais “grave”, vamos dizer assim.

Aquele que mais dispara em nós o senso de “preciso me proteger”.

Mas tem o medo de ser mal interpretada, de ser julgada, de ser vista como arrogante, metida, o de ficar sozinha (numa festa ou na vida).

Medo, medo, medo.

Essa experiência com o medo acaba moldando profundamente nossas relações com o mundo.

Principalmente com uma figura que até o nome parece um perigo: desconhecidos.

Aprendemos que desconhecido é sinônimo de risco.

“Eu nem conheço ele”

“Primeira vez que eu tô conhecendo agora”

Não conhecer é uma potencial porta para 79 tipos de riscos diferentes.

E isso me deixa ao mesmo tempo muito puta e muito triste.

Mas naquele casório, rodeada de desconhecidos seguros, eu percebi o tamanho de tudo que a gente NÃO vive por conta do danado do medo.

Cheguei lá, procurei um lugarinho na cerimônia para sentar.

A música começa, as pessoas começam a entrar, madrinha vai, noivo vem, vi a cerimônia inteira sem ninguém para comentar.

O quanto ela tava feliz, o quanto o noivo tava emocionado, o quanto amei que a cachorrinha deles entrou também… sozinha.

Rodeada de desconhecidos.

Mas essa categoria de desconhecidos, todos os demais convidados, era uma categoria peculiar.

Afinal, ali só existiam pessoas que a noiva, minha mentorada, que eu conheço profundamente, escolheu cada um para estar ali.

Não tinha como ter ninguém perigoso ali, nem mal-intencionado, nem nenhuma das 23 categorias de “desconhecidos” que aprendemos a temer desde que nos entendemos como mulheres.

Só um monte de amigos e familiares celebrando o amor.

E esse ambiente fez um troço curioso em minha pessoa.

Eu sentia que, apesar de não conhecer ninguém ali, nenhum deles se encaixava na categoria de desconhecidos a se temer que ganhei de presente quando nasci com um útero.

Não tinha risco falar com desconhecidos, nem a chance de ser mal interpretada ou julgada.

Um lugar cheio de desconhecidos era seguro.

Decidi que ia aproveitar essa experiência antropológica de ir a um casamento sozinha (eu num sei se você já viveu isso antes, mas eu nunca, como boa curiosa da humanidade, quis fazer esse teste).

Sentei numa mesa, cumprimentei as pessoas, puxei papo.

Descobri onde cada uma trabalhava, quem namora com quem, há quanto tempo fulano estava junto com ciclano, onde a outra tinha morado antes de sair pelo mundo numa Kombi, descobri quem gosta mais de carne e quem não tolera frango. Soube de quem não toma destilado e quem só gosta de cerveja. Dançamos juntos, rimos, comemos à beça.

Uma quase pegou o buquê, o outro conseguiu pegar o whisky que o noivo jogou, uma terceira elogiou minha maquiagem, eu elogiei o vestido de uma outra.

Emprestei meu carregador de celular, ganhei um punhado de rosas laranjas da decoração na saída.

Passei 7 horas no meio de desconhecidos e num teve um minuto sequer que eu tenha sentido aquele conjunto de alertas que nos diz “atenção, veja se isso é seguro”.

Eu sempre soube na teoria o quanto o medo limita as experiências que nós como mulheres poderíamos viver.

Viajar sozinha, ficar até mais tarde numa festa…

Na teoria eu sempre soube.

Mas na prática eu testemunhei **o quanto a gente poderia viver MAIS se o medo não fosse uma constante **nos bastidores das nossas cabeças.

E eu não tô falando do medo da nossa segurança física apenas. Esse medo parece que se alastra e se infiltra como um vazamento de cano não detectado e se expressa em mais reações nossas do que eu gostaria de admitir.

É medo de cobrar caro.

Medo de não dar certo.

De dar certo demais e se deslumbrar com o dinheiro.

De enriquecer e não conseguir ajudar toda a família.

De ficar pobre e não poder ajudar ninguém.

De ser mãe mas ser uma péssima mãe.

De nunca ser mãe.

Estamos sempre com um pé atrás.

Na vida.

Nos negócios.

Naquele casório eu comi, bebi, dancei, ri, conheci gente, fiz piada, ouvi piada, fiz um networkinzinho básico… tudo porque o medo não tava ali.

É como se pela primeira vez eu tivesse realmente experimentado na pele a ausência de qualquer unidade de temerosidade.

“Ah, mas se o celular acabar a bateria, como eu chamo o Uber?”

Alguém do cerimonial vai ter um carregador.

“Mas e se eu não conhecer ninguém e ficar lá sozinha?”

Eu já não conheço ninguém, então o ponto de partida já é ficar sozinha, bora conhecer gente.

“Eu não vou lá para o meio da pista de dança dançar sozinha”

Ninguém me conhece mesmo.

É impressionante a quantidade abissal de pensamentos permeados pelo medo que nossa cabeça é capaz de produzir.

Ter experimentado essa ausência irrestrita do medo num lugar rodeado de completos desconhecidos me fez perceber que só quem não vive isso somos nós.

Talvez seja exatamente assim que todos os homens vivam as suas vidas todos os dias.

Apenas preocupados com o que eles podem aproveitar ali.

Quem vão conhecer, que experiências terão, que coisas novas vão acontecer.

Como que podemos esperar sermos tão “corajosas” e “ousadas” quanto as referências inalcançáveis de empresários que temos, se antes de ter um CNPJ já passamos 20, 30 anos das nossas vidas tendo que nos proteger de tudo que ainda não conhecemos?

Não é justo com nós mesmas que a gente se exija essa ousadia que frequentemente sentimos que não temos.

Nós sempre temos muito mais a perder, é natural que sejamos mais """"conservadoras"""" (apesar de eu ter minha questão com esse termo… mas vamos seguir com ele).

Todos os medos que vivemos na nossa PF parecem ridículos frente ao monumental pânico que ter um CNPJ para cuidar desperta em nós.

É uma experiência ampliada do medo.

E se ninguém quiser comprar?

E se a gente quebrar, como eu vou pagar as dívidas?

E se meus clientes reclamarem do meu serviço?

E a minha reputação?

Será que eu consigo outro emprego se tudo der errado?

Eu toleraria trabalhar para alguém de novo?

Medo, medo, medo.

Aumentado pelo zoom do CNPJ.

Na carta de hoje eu quero vir aqui te dizer que você tem absolutamente TODOS os motivos do mundo para sentir medo do caralho que for.

É justificável, esperado e até saudável que você não seja uma kamikaze que se joga em tudo sem pensar nas consequências.

Você pensa,

repensa,

analisa,

toma cuidado.

Nossas referências de empreender são, em sua maioria, mesmo que a gente não se dê conta disso, do grupo de pessoas que vive exatamente como eu vivi no casório de desconhecidos seguros.

Roberto Justus, O Aprendiz, Silvio Santos… temos no nosso inconsciente as histórias dos homens que aparentemente não tinham medo.

E talvez eles não tivessem mesmo.

Medo do flanelinha, do cara na balada que você conheceu ontem, do colega de trabalho que roubava suas ideias, dos pedreiros da obra no final da sua rua.

Nós vivemos com medo, mesmo que a gente não perceba.

E é natural que você leve todas essas experiências para o seu CNPJ.

O que eu não posso deixar você achar é que ter medo é sinal de FRAQUEZA.

De que você não tem “o que é necessário” para empreender.

Que porque outras pessoas fazem com tanta facilidade, que você que tá aí com 97 riscos mapeados na sua cabeça deve ter alguma falha horrível.

Não tem.

Você é só uma mulher num mundo que te ensinou que o desconhecido é sempre um perigo.

Empreender sendo mulher é se jogar numa piscina de riscos sem saber se você lembra como nadar e sem ver nenhum salva-vidas por perto.

É você e seus medos.

Mas ainda assim você tem feito, não tem?

Talvez corajosas mesmo sejamos nós.

Que vivemos com medo todo dia.

E ainda assim estamos aí.

Indo para casamentos, abrindo CNPJs, aparecendo nas urnas eletrônicas.

Corajoso mesmo é sentir medo para caralho.

Todo dia.

E continuar agindo com ele.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·