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Carta 190

Catástrofe do brownie

Na carta de hoje quero conversar com você sobre um trem curioso que nós fazemos. E sem perceber. Imagina que você, assim como eu, é fã de um brownie quentinho, daqueles bem gordurosos e suculentos. Você compra um pedaço…

Gestão de negócios

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Como a senhorita chega hoje?

Na carta de hoje quero conversar com você sobre um

trem curioso

que nós fazemos.

E sem perceber.

Imagina que você, assim como eu, é fã de um brownie quentinho, daqueles bem gordurosos e suculentos.

Você compra um pedaço para saborear a iguaria.

Você gosta tanto tanto do bolinho que começa a pensar no seu futuro sem ele.

Ele é tão gostoso, tão reconfortante que você não consegue imaginar como triste seria a sua existência sem aquele pedaço de açúcar enchocolatado.

Precavida que você é,

você começa a pensar formas de proteger

sua fatia da alegria.

Compra uma caixa com tampa, hermética. Pronto, nada de moscas.

Agora que você já resolveu o problema das moscas começa a pensar também em como proteger o formato do brownie, vai que a caixa se sacoleja e ele se amassa ou até mesmo esfarela todo? Não.

Você sai e compra uma espuma bem fofinha, corta nela um furo do tamanho exato da fatia e posiciona a espuma em volta.

Sacode um tico a caixa e percebe que agora ele está protegido de possíveis amassamentos, nem se mexe.

As moscas foram resolvidas, amassamentos também.

Mas e se chover? Brownie molhado está fora de cogitação.

Você então constrói um mini guarda-chuva preso em cima da tampa já hermética.

Joga um copo de água em cima e vê que a água escorre perfeitamente para fora dos limites da tampa.

E isso imediatamente te faz pensar E SE TIVER UMA ENCHENTE?

A água vinda de cima eu já resolvi, preciso encontrar uma solução para a água que pode vir de baixo.

Engenhosa que você é, rapidamente percebe que tudo que precisa fazer é pegar uma pequena boia e prender a tal caixa, já paramentada com um guarda-chuva em cima.

Assim ao menor sinal de inundação toda a sua geringonça flutuará mantendo sua preciosa sobremesa intacta, e seca.

Todos os dias você sabiamente adiciona um dispositivo de segurança para uma possível catástrofe.

E todos os dias

v

ocê vai dormir tranquila sabendo que aquela preciosidade está cada dia mais a salvo

de qualquer perigo que possa aparecer.

E isso te faz sentir que tudo está no devido lugar, o mundo pode acabar que o que importa para você estará protegido.

Passam os dias, semanas, anos…

E um dia você acorda e pensa “não consigo pensar mais nenhum risco que possa ameaçar meu querido brownie, meu trabalho está feito”.

Orgulhosa do tanto de dedicação desprendida para cuidar do seu açucarado quadradinho, você decide admirar sua criação.

Tira o guarda-chuva, desacopla a boia, desarma o alarme (que você instalou 9 meses atrás), e um por um você retira todos os dispositivos de segurança que criou ao longo do tempo.

Até que você enfim chega na parte da espuma fofinha.

Ao olhar para o espaço cortadinho no centro da espuma, você vê uma maçaroca estranha, com uma penugem marrom, pontilhada de bolinhas brancas…

Você demora um tempo para entender o que tá acontecendo

e aí realiza.

Uma colônia de ousados fungos burlou todas as suas estratégias de segurança e destruiu seu brownie.

Seu tesouro não pegou chuva, não foi submerso pela inundação, nem foi roubado por um adicto em açúcar como você.

O filho da puta do fungo acabou com tudo.

E você num pode comer nem um pedacinho.

Você foi capaz de pensar todos os riscos possíveis e inimagináveis.

Mas

você esqueceu

de um.

E não foi o fungo.

O maior risco que você corria protegendo seu delicioso brownie era justamente aquele que você mais queria evitar.

Nunca poder comer um pedacinho.

Na ânsia de garantir que no futuro você teria o brownie e poderia se deliciar com ele até ter uma leve dor de barriga, você esqueceu de comer um pedacinho que fosse, no dia em que guardou ele na bendita caixa.

Você não passou o dedo no chocolate derretido e deu aquela lambida gostosa.

Não pegou a casquinha durinha da borda e deu uma mordidinha.

Não aproximou o quadrilátero do nariz e deu uma bela fungada naquele cheirinho adocicado.

Você

guardou tudo para depois.

E esse é o problema.

O depois.

Nós fomos treinadas para ter aversão ao risco.

E pensar nos riscos é prudente, oras, quem num lembra da pobi da cigarra que só queria saber de tocar violão e acabou passando fome porque não fez como a formiga e estocou alimento no verão?

Ninguém quer ser a abestalhada da cigarra.

Mas ainda assim a cigarra TOCOU o violão.

Ela não DEIXOU de tocar o violão para QUEM SABE um dia poder tocá-lo depois.

Você não queria ser a abestada da cigarra e acabou sendo a prima mais lesada dela.

Tu não comeu o brownie hoje e não vai comer ele amanhã.

Com medo de talvez um dia termos

uma empresa grande demais

que não vamos conseguir gerenciar, a gente evita crescer.

Afinal, eu não quero que em 2097 eu tenha que fazer uma demissão em massa quando a IA tiver acabado com a necessidade de metade das minhas funcionárias.

Eu não aguentaria jamais olhar uma por uma aquelas pessoas, sendo demitidas e perdendo suas rendas só para eu ter mais lucro. Nem pensar.

Com medo de não ter paciência de cuidar de um escritório de 2 andares na Avenida Paulista, tu não sai do home office.

Imagina o trabalhão de todo dia ter que limpar aquelas enormes janelas de vidro com a vista mais privilegiada da cidade? É melhor permanecer sentadinha de frente para a parede da minha sala de casa que eu chamo de escritório.

Não contratamos.

Não delegamos.

Não crescemos.

E

achamos que tudo isso é prudência.

É medo.

O medo de perder o que é valioso amanhã faz a gente perder (olha que ironia) o que é valioso hoje.

Ninguém comeu o seu brownie.

Nem você.

A carta de hoje é um cutucão para você ser talvez um tico menos precavida.

Para você lembrar de comer o brownie quando ele ainda está quentinho, íntegro e sequinho.

Você nunca sabe quando um fungo filho da puta vai comer ele no seu lugar.

O maior risco não é perder seu brownie amanhã.

É ter ele intacto na sua frente e não fazer nada com isso.

Faça com o que você tem hoje.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·