Carta 186
Gominhos de laranja de 3 tons
Do lado de cá, chego em terras brasileiras. Chego também ainda em clima de férias e com uma reflexão que eu fiz no último voo que peguei. (Que durou, no total, quase 12 horas). Sabe quando você pega um daqueles voos…
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega no dia de hoje?
Do lado de cá, chego em terras brasileiras.
Chego também ainda em clima de férias e com uma **reflexão que eu fiz no último voo **que peguei.
(Que durou, no total, quase 12 horas).
Sabe quando você pega um daqueles voos longos que vc pensa que vai ter que trocar o CEP da sua buzanfa de tanto tempo que ela estará instalada em outra localidade?
Pois é, meu caso.
Um deles era mais de 6 horas, ia começar uma da tarde e terminar por volta de uma da manhã.
Eu voltando das férias com uma cacetada de coisa pra fazer quando chegasse (temos desafio pra entregar na semana que vem…planejamento do segundo semestre) pensei: “vou levar coisinhas pra aproveitar essas quase 12 horas sentada no avião e adiantar a minha vida.”
Me preparei toda.
Levei o tablet, livro, Kindle, várias coisinhas pra que eu pudesse chegar na minha semana um pouco mais tranquila, já que ia ficar fazendo um total de vários nadas no avião.
E aí, o que rolou?
Comecei pelo planejamento da semana seguinte:
Quais sessões ia entregar, que reuniões tinha que fazer com meu time, o que tinha que remarcar..
Legal, terminei e ainda tem umas 10h de viagem pela frente.
Show de bola.
“Bora adiantar então o planejamento de julho que tá logo ali”
Planejei julho inteiro e quase fui pra agosto também, mas pensei “tá suficiente”. Nem faz sentido eu planejar tanto pra frente assim nesses mínimos detalhes…
Mais 9:45 minutos pela frente
“Bora fazer conteúdo, então”
Ainda com muitas horas e cheia de ideias na cabeça, abri o bloco de notas no Notion e escrevi o roteiro de pelo menos uns 10 vídeos.
Gancho, roteiro, CTA, e as descrições de como queria que o time editasse.
Mais 8:50 minutos pela frente.
Fui processar as anotações acumuladas na caixa de entrada, responder e-mail, ver o que eu tinha deixado pendente, se tinha algum pagamento que não fiz nas férias. Passei a limpa, resolvi.
Depois de ter feito tudo isso, ainda tinha mais tipo meia dúzia de horas de voo pela frente.
“Já trabalhei, já fiz tudo que tinha pra fazer, e ainda tenho quase um expediente inteiro sentado nessa poltrona”.
Não me leve a mal, mas depois de nadar com tartaruga, passear em cavernas, observar flamingos e nadar no mar mais azul existente nesse planeta, uma poltrona de avião imóvel é deveras sem graça.
Aí lembrei que eu tinha no tablet um aplicativo de colorir.
(Sim, eu sou dessas, adoro essas coisas manuais).
A única coisa que eu tinha já baixada (estava sem wifi ali) pra colorir era uma figura de fatias de laranja e de limão.
Eu não consigo colocar a imagem aqui pra você, mas vou descrever e você vai entender…
Imagina uma imagem de várias fatiazinhas de laranja e de limão em cima de uma mesa.
Sendo que dentro de cada fatia, todos os gominhos eram individualizados. Tipo, era para pintar CADA UM. Ou seja, pra cada rodela de laranja e limão havia pra lá de 300 gominhos.
Pensei “excelente. Muitos gominhos. Eu vou ter que pintar cada um deles, bem pequenininhos. Isso vai demorar para caralho. Quando eu terminar de pintar, a gente chega ao destino final.”
E lá fui eu.
Decidi fazer uma mistura ousada de cores, um jogo de luz e sombra.
(Não ache que eu tenho boas habilidades de desenho e pintura. Não tenho. Só tava com muito tempo livre, querendo gastar o meu tempo da forma menos otimizada possível pra que ele passasse mais rápido).
Cada gominho de cada laranja tinha no mínimo 3 tons de cores, pra dar profundidade e parecer um gominho suculento, brilhoso, aquoso. Sabe? Aquele escorrendo líquido. Era isso que eu queria.
Primeiro escolhi os tons de verde que usaria nas fatias de limão. Verdes mais vivos, mais fechados, claros e escuros. Parti para a pintura da casca do limão, textura, luz, sombra, várias cores Para ficar parecendo aquele limão da casca bem brilhante.
Fui para os gominhos, CADA abençoado gominho, eu pacientemente colori com nada mais nada menos que 3 cores diferentes.
Imagine bem a cena:
Uma laranja
Fatias de laranja
Gominhos dentro da fatia de laranja
3 cores para cada um
Agora pense nos limões e faça o mesmo raciocínio.
Devo ter passado em cada gominho umas 5 vezes cada um (tirando as vezes que borrei e tive que apagar, me ative aos pequenos detalhes, pois eles ocupariam tempo extra, olha que beleza).
Depois fui pintar as folhas com um verde bem folhoso nas bordas externas, um verde um pouco mais claro, até chegar em um verde amarelado, pra evidenciar aquele amarelado que algumas folhas bem naturais apresentam e trazer bastante realidade pro meu desenho.
Bom, neste momento você deve estar se perguntando…
“Meu Deus, Mari, por que você está descrevendo toda a sua epopéia artística nesses mínimos detalhes? A senhorita acha que é Monet? Van Gogh?”
Não, mas a senhorita vai entender o meu ponto.
Eu estou descrevendo isso em detalhe pra te trazer uma reflexão que eu mesma tive nessa tour artística do meu último voo:
A nossa vida cabe gominho para caralho quando a gente não tá trabalhando.
Essa é uma das minhas angústias existenciais.
Viver constantemente o dilema de que eu amo o meu trabalho, e ao mesmo tempo não acredito que ele deveria ocupar tanto tempo da minha vida.
Eu amo os tempos da minha vida. E todos os tempos que eu estou trabalhando, eu não quero que eles terminem, porque eu gosto de quem eu sou e de como eu me sinto quando eu tô trabalhando.
Mas, felizmente ou infelizmente (Charlie Brown já dizia), nessa vida, cada escolha uma renúncia. Quando eu estou trabalhando, eu não posso estar pintando gominhos de laranja de três tons pra que eles pareçam realistas e suculentos. É uma coisa ou outra.
E aí, meu amô, eu te pergunto (e me pergunto também ao mesmo tempo):
Como fazer com que o trabalho nos alimente, nos motive, nos dê dinheiro, reconhecimento, valorização pessoal sem que ele seja o principal ator das nossas agendas?
Essa é uma pergunta que eu quero responder bem respondida na minha vida.
Quando eu aplico gestão na Fluida, quando estudo, aprendo, melhoro um processo, quando eu contrato alguém, eu pessoalmente estou pensando em como extrair ao máximo da vida limitada que eu tenho.
Então hoje eu te faço essa reflexão.
Será mesmo que a gente precisa trabalhar tantas horas quanto trabalha? Ou é só o fato de não termos outros modelos de trabalho como viáveis que faz a gente continuar seguindo uma lógica que é a única que conhecemos?
Em algum momento da história, era normal trabalhar 12, 14, 15 horas. Isso era o normal. Até que alguém decidiu que aquilo era muito sem noção, decidiu queimar uns pneus, queimar umas fábricas, fazer umas pessoas de refém e aí foi possível que essa rotina de trabalho mudasse para 8 horas. E hoje a gente acha que 8 horas é normal.
Mas eu queria te dizer que eu não acho que 8 horas é normal.
E eu acho que o fato de a gente achar que acha é o que faz a gente continuar trabalhando 8 horas como se normal fosse.
É normal a gente ter 7 dias na semana e desses 7, dedicar prioritariamente 5 ao trabalho? Uma fatia muito maior do que a metade?
É isso que a gente quer levar quando for falar “morri, fui pro céu”?
Quando a gente estiver lá de cima olhando o nosso legado, o que a gente quer ver são todas as horas sentada no computador emitindo nota fiscal? Todos os momentos em que respondeu um cliente no WhatsApp ou entregou uma reunião de uma hora e meia quando deveria ter sido só uma hora?
Eu sei que essa é uma questão universal dos seres humanos. Mas eu acho que ela é especificamente relevante quando a gente fala de nós, mulheres.
A gente nunca pôde ser dona das nossas coisas, do nosso trabalho, do nosso conhecimento, do nosso dinheiro, das nossas propriedades.
A gente teve que reivindicar isso e tomar pra nós a posse sobre estes bens.
Só que eu acho que tem um bem que a gente ainda não tomou pra nós a posse: o tempo.
E o tempo, pra nós mulheres, é muito mais precioso.
O nosso tempo é muito mais caro pra nós justamente porque a gente está há séculos sem poder usá-lo como bem, entende?
A próxima fronteira (a próxima, não a última) que a gente precisa reivindicar **é o poder sobre o nosso tempo **e enxergar que o nosso tempo não precisa ser útil ou relevante.
Ele pode ser gasto pintando gominhos de laranja suculentos de três tons.
Mas ele também pode ser utilizado pra você passar cinco horas deitada em uma cadeira de água olhando pro nada.
Pra você mergulhar com tartarugas e achar que ia ter o momento mais emocionante da sua vida e ter quase ter um piri-paque quando uma tartaruga quase do seu tamanho se aproxima e você tem a sensação de que ela vai te engolir, apesar de saber que é fisicamente impossível isso acontecer.
O seu tempo pode ser gasto navegando a internet lendo review de boia pra levar nas férias, ou passando por um mercado que tem tudo em alemão e norueguês tentando entender o que caralho significa um “iogurte virje” pra depois descobrir que é um iogurte livre de alguma coisa, tipo lactose ou glúten.
O próximo direito que a gente precisa conquistar, é usar o nosso tempo a nosso favor de forma inútil.
E é com essa missão que eu volto das férias na semana que vem para entregar o Desafio Agenda Vazia, Caixa Cheio, onde a gente vai olhar pra como você pode usar todo o dinheiro que produz nas sua empresa para trazer mais liberdade pra você.
Não faz sentido a gente construir um trabalho que levou anos pra botar de pé (e que tem um risco absurdo, que exige tantas renúncias durante tanto tempo) se isso não puder ser compensado com você tomando posse do tempo que é seu.
A gente começa o desafio na segunda-feira. Faltam três dias.
Se tudo que eu trouxe nessa carta faz sentido pra você, se você ama o seu trabalho mas também quer ter tempo pra pintar laranjas e limões além dele, o link pra fazer parte do desafio está aqui.
Eu te espero pra gente reivindicar juntas o direito ao nosso tempo.