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Carta 184

Relacionamento fracassado

Via de regra, toda sexta eu sento pra escrever a carta e vem uma ideia fulminante tomando conta dos meus dedos no ritmo ragatanga. Hoje, não. Hoje a carta vem de uma conversa que tive com as minhas mentoradas e que…

Gestão de negócios

BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!

Como a senhorita chega hoje?

Se você leu meu e-mail mais cedo, saiba que agora já estou em terras caribenhas.

Via de regra, toda sexta eu sento pra escrever a carta e vem uma ideia fulminante tomando conta dos meus dedos no ritmo ragatanga.

Hoje, não.

Hoje a carta vem de uma conversa que tive com as minhas mentoradas e que deixei preparada pra você receber nesse belíssimo dia dos namorados.

Vai parecer sobre términos, mas é também para aquelas que estão em relacionamentos (caso você não saiba, eu mesma tô há alguns vários anos com o sr. Fluido e já escrevi sobre isso na carta

110 - Feminista apaixonada

).

Pois bem.

Existe uma uma sensação esquisita:

a de você ter falhado quando termina um

relacionamento.

Principalmente se for um relacionamento mais longo. Ou se for com um cara legal. Ou se as pessoas em volta viviam falando que era um relacionamento bacana.

E olha, principalmente pra nós, mulheres feministas, o que eu tenho percebido?

A gente não encontra um bom parceiro. É a nossa postura, quem a gente é, o que a gente pensa, o que a gente aceita e o que a gente NÃO aceita que faz a gente encontrar esses, entre muitas aspas, bons homens.

E no curso do relacionamento, a gente vai desenvolvendo esses homens.

Sim.

Todos os homens que passam por relacionamentos longos com, entre muitas aspas, “boas mulheres”, recebem da gente um papel de educadora, de lapidação. Por mais lindo e maravilhoso que ele tenha vindo de fábrica, esse papel existe. E como a gente sabe que existe esse trabalho ativo,

boa parte do trabalho de manter um relacionamento a longo prazo fica desigualmente distribuída pra nós.

Em regra, são as mulheres que vão buscar as DRs. São as mulheres que falam “ó, isso aqui não tá legal”. “Ó, vamos fazer uma terapia de casal.” “Ó, você tem que ir no médico.” Mesmo quando a gente está com “bons homens”.

Tem uma energia nossa sendo gasta ali o tempo todo. É quase como se o relacionamento fosse também

uma obra nossa.

E aí qual que é o problema disso?

Ele é uma obra nossa, sim, também. Porque eu não acredito nessa de relacionamento hétero entre mulher feminista e homem que seja 50/50.

Não existe.

A gente sempre vai estar fazendo um pouco mais, nem que seja

o trabalho emocional

de fazer o trabalho emocional.

Porque o relacionamento exige isso: exige autodesenvolvimento emocional, exige criar conflito pra que os conflitos sejam resolvidos, exige levantar conflito hoje pra que problema do futuro não aconteça.

Então

o relacionamento vira uma obra nossa

. E como a gente coloca energia nessa obra, quando ela termina, a gente sente que

é um fracasso nosso

.

Eu tenho visto isso muito, muito, muito, muito em mulheres.

E eu queria que

a gente refletisse melhor sobre essa sensação de fracasso.

De que nós falhamos.

De que a gente não foi capaz de manter aquele relacionamento.

Mas presta atenção: isso aparece MESMO quando a decisão de encerrar foi nossa.

Pensa comigo.

Dentro de um relacionamento só existem essas opções, não tem outras. São duas pessoas. Ou uma quer continuar e a outra não, ou as duas não querem mais. Não existe relacionamento que termina porque as duas pessoas querem continuar juntas.

Então, ou você quis terminar e a outra também, ou só você quis terminar, ou só a outra pessoa quis.

E se a gente terminou porque a gente queria terminar…

como é que isso pode ser um fracasso nosso?

Por que eu tô fazendo esse paralelo todo?

Porque eu percebo que esse é o MESMO modelo mental que a gente carrega quando fecha empresa. Como se nós tivéssemos fracassado. Como se nós fôssemos uma fracassada porque alguma coisa não foi eterna.

Vou repetir:

a gente se sente fracassada porque algo que a gente criou não foi eterno.

E aí eu te pergunto: o que existe de eterno no planeta Terra?

Nada. Nada da nossa criação é eterno. Por que a gente se sente tão mal quando as nossas criações se encerram?

Aí eu vou

levantar a minha teoria.

Porque nós fomos socializadas pra colocar a nossa identidade FORA de nós mesmas.

A nossa identidade está sempre num papel que a gente desempenha. Ou você é empresária, ou você é mãe, ou você é filha, ou você é esposa. A gente foi ensinada a colocar a nossa identidade num cargo, num papel.

Eu não sou Mariana. Eu sou a CEO da Fluida, sou a esposa do senhor Fluido, sou a mãe da Joaninha.

Entende isso?

A gente é tão desprovida de identidade quando nasce mulher que transfere o próprio ser pros papéis. E os papéis não são eternos. Quando eles deixam de existir, por qualquer motivo,

a nossa identidade se esvai junto com aquele papel

. E vem a sensação de “eu fracassei”, “eu sou um fracasso”. Uma vergonha. Uma sensação vergonhosa.

Eu tenho me deparado com MUITAS mulheres sentindo vergonha. Quando a empresa encerrou, quando o relacionamento encerrou, quando o dinheiro encerrou no banco.

A mulher tem vergonha.

P

orque a nossa identidade não está dentro de nós. Está nos nossos papéis.

Quando eu falo aqui dentro da Fluida que é PF primeiro, PJ depois, e que existe uma separação entre PF e PJ, é disso que eu tô falando.

Você não é o seu negócio. E você também não é o seu relacionamento. Pro bem e pro mal.

É importante a gente aprender a reconhecer tudo aquilo que a gente faz bem, exaltar os nossos feitos, pegar os nossos louros. Mas é IGUALMENTE importante

a gente saber não ser levada junto com os nossos fracassos.

Porque senão todo fracasso em qualquer um desses papéis vira um fracasso NOSSO e não das coisas que a gente fez.

Eu fiz um bolo, o bolo solou. Eu solei? Não, eu não solei.

Eu fiz um bolo, o bolo queimou. Eu queimei? Não, eu não queimei.

Existe uma separação entre a identidade do que a gente É e do que a gente FAZ. Mas a socialização feminina, e o capitalismo também,

vão fazer a gente entender que o nosso valor está naquilo que a gente faz.

Então, fica aqui a minha reflexão pra você hoje. Principalmente se você tem relacionamentos longos e principalmente se você é uma mulher hétero porque essa análise se intensifica quando você coloca de um lado alguém socializado como mulher e do outro alguém socializado como homem.

Você

não é

a sua empresa.

Você

não é

o seu relacionamento.

E qualquer uma dessas entidades que não são você, se elas fracassarem, VOCÊ não fracassou.

Mari Fernandes

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·