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Carta 183

O problema de trabalhar “pouco”

Aqui nós estamos já começando o planejamento do segundo semestre. Sim, o querido chegou. De junho para frente tem minhas férias, Copa do Mundo, eleições, Black Friday e a gente tentando dobrar a meta sem enlouquecer. As…

Gestão de negócios

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Como a senhorita chega nessa sexta pós-feriado?

Aqui nós estamos já começando o planejamento do segundo semestre.

Sim, o querido chegou.

De junho para frente tem minhas férias, Copa do Mundo, eleições, Black Friday e a gente tentando dobrar a meta sem enlouquecer.

As últimas semanas foram muito tensas aqui na Fluida. Teve mesa redonda, aulão aberto, hotseat da Vênus, sessões do Conselho com as minhas mentoradas individuais, meta do mês superada e começamos algumas reflexões internas aqui sobre o que vamos manter no segundo semestre, o que vamos parar de fazer e o que tem que ser implementado de novo.

Não sei se a senhora já fez esse exercício aí, mas era bom você já ir bloqueando na agenda as datas dos grandes eventos que você tem ainda para fazer esse ano.

Férias, feriados, jogos, dias que você vai fazer ação de vendas, eventos presenciais, lançamentos…

O calendário tá bem bem apertado, então faz isso rapidinho já. Isso evita você ficar pensando mil planos mirabolantes que talvez nem sejam possíveis só por uma questão de calendário.

Lembrete sobre o segundo semestre dado, vamos para a carta de hoje.

Uma das grandes questões que eu persigo para resolver é empreender sem enlouquecer (não à toa uma das nossas formações tem exatamente esse nome).

É muito muito, muito, difícil viver um modelo de crescimento que cresça sem esmagar você no meio do caminho. Por vários motivos. O primeiro é que o mundo por si só na atualidade tá todo desenhado para que o trabalho ocupe quase todas as horas acordadas que a gente tem.

Segundo: tem guerra, bomba, briga, disputa política, e tudo isso cria um cenário de instabilidade econômica que mesmo que indiretamente cria uma ansiedade generalizada do “cada um por si, corre atrás do seu.”

Tudo isso já seria suficiente para endoidar metade da população, mas nós, mulheres AND empresárias, temos alguns agravantes.

Quando somos donas dos nossos “trabalhos”, não tem ninguém para mandar na gente.

Nenhum chefe dizendo o que devemos fazer, cobrando produtividade, nem metas batidas.

Porém, contudo, todavia, não obstante…

Mulheres que somos, fomos treinadas para atender expectativas impossíveis de serem alcançadas.

Sem que ninguém precise dizer um A, a gente mesma tá lá se chicoteando quando achamos que não fizemos o suficiente. Somos nossas maiores capatazes.

Um cenário social ansiogênico, uma ausência de chefe, uma capataz internalizada: a receita para a gente se despedaçar pelas nossas empresas tá pronta.

Se tudo isso não bastasse, o mundo dos negócios opera numa lógica pensada para homens que podem colocar toda sua energia na PJ, porque atrás dele existe alguma mulher cuidando da sua PF.

Consultas marcadas, comida na mesa, presente de aniversário dos filhos comprado… o homem comum tem uma mulher que faz tudo isso por ele.

A PF dele não tá em risco. Ele pode, sem culpa e sem risco, colocar tudo de melhor em si na sua PJ, focar tudo que tem em fazer lucro, abstrair todas as preocupações de uma mulher “comum” e produzir, produzir, produzir.

O problema é que nós mulheres não podemos fazer isso.

Nós não temos um mini exército de ávidas trabalhadoras do sexo feminino cuidando das nossas vidas por nós.

Você se preocupa há quanto tempo não faz um checkup, lembra daquele exame que ainda não buscou o resultado, do natal em família que você ainda não distribuiu quem vai levar qual prato, a roupa que precisa ser estendida, o parente que está em um momento difícil e precisa de apoio…

Nós somos os braços que mantêm as famílias e a sociedade amarradinhos funcionando.

Não podemos nos dar ao luxo de “colocar toda nossa energia no trabalho.”

Mas o mundo não tá nem aí, os dinheiros precisam entrar, as reservas precisam ser feitas, as aposentadorias precisam ser planejadas.

Ainda que pudéssemos nos dar esse luxo, a verdade é que nem QUEREMOS viver em função das nossas empresas.

Não queremos viver em função de nada. Fugimos do aprisionamento doméstico, nos libertamos de lavar as roupas à mão, de ter que esperar o marido em casa com jantar na mesa e de estar com a casa impecável para as visitas.

Saímos do nosso CEP e buscamos abrigo no CNPJ.

O nosso espaço, com as nossas regras, do nosso jeito.

Mas a tão sonhada liberdade irrestrita não parece ter chegado.

Equipe, meta, imposto, tráfego, cliente… tem coisa demais ainda para a gente cuidar.

Não queremos a prisão de um CEP, e ainda estamos aprendendo como não nos aprisionar a um CNPJ.

E tudo isso tira de nós uma coisa preciosíssima: tempo sem porra nenhuma para fazer.

Tempo livre, aquele que não tem nada agendado e justamente por isso você pode escolher usá-lo com o que quiser.

Mas o danado do tempo “sem nada para fazer” traz junto com ele um problema terrível.

Quando temos esse tempo, não sabemos qual é o melhor jeito de ocupá-lo.

Nosso repertório de uso do tempo para além do CNPJ não foi desenvolvido.

Quando crianças, a gente brincava de trabalhar: cuidar de boneca, casar a Barbie com o Ken, embelezar nossos cabelos com belos apetrechos.

Eles tinham bola, videogame, pipa, carrinho de rolimã, skate, bicicleta.

E essa falta de repertório gera uma sensação estranhíssima quando pensamos que teremos “tempo livre.”

A gente tem que racionalmente ESCOLHER o que vamos fazer com ele.

Precisamos de uma listinha que nos lembre dos nossos hobbys, precisamos que nossa mentora diga “vá fazer uma massagem amanhã”… a gente meio que desaprendeu a fazer o que dá vontade.

Claro, nossas vontades nunca foram prioridade para ninguém.

E aí entra um mecanismo muito curioso que a gente mesma usa contra nós sem perceber.

Não ter nada para fazer não é uma sensação familiar para nós.

Parece meio esquisito que a gente esteja “livre” para fazer o que quiser. Como fomos apartadas do doce sabor da liberdade do tempo, a gente meio que esquece como é gostosinho.

É como quando você fica gripada e tudo perde o gosto. Nem Nutella você tem vontade de comer, aquele doce gorduroso e aromático parece agora só uma papa gosmenta grudando no seu céu da boca.

O tempo sem nada fica insosso.

E é justamente isso que faz a gente evitar, ignorar, postergar e até eliminar as ações dentro das nossas empresas que nos trariam justamente isso: tempo sem nada.

A nossa resistência em delegar não é porque você não SABE como é porque você não sabe PARA QUÊ.

Para que delegar? Se a única coisa que eu ganho com isso é um tempo livre que pareço não saber como usar direito?

Para que automatizar isso? Se eu parar de fazer esse trem que me ocupa todas as minhas terças-feiras, o que de mais interessante eu vou ter para fazer?

Eu não preciso contratar mais uma pessoa, eu super dou conta de fazer isso, nem me toma muito tempo.

É provável que agora você esteja me achando deveras exagerada.

“É claro que eu sei o que eu ia fazer com meu tempo livre, Mari, é o que eu mais quero.”

Eu sei que você sente no fundo do seu coração que sabe o que faria com esse tempo, mas eu vou te convidar a enunciar mentalmente essa lista que você acredita que tem.

Pensa aí.

Pensou?

Agora me diga se ela tem coisas como:

“Ficar mais tempo com a minha família.”

“Me exercitar mais.”

“Ter mais lazer.”

Tem?

Se sim, eu te pergunto:

O que EXATAMENTE é “ficar mais tempo com a sua família”?

Se eu te der DEZ HORAS agora para “ficar com a sua família,” exatamente O QUE você faria?

Se você tivesse todas as sextas livres, que “lazer” você teria?

Nós temos uma noção de quais CATEGORIAS gostaríamos de investir nosso tempo, mas temos tão pouca experiência nelas que elas são só isso: categorias abstratas e amplas que podem caber meio mundo de coisa.

Nos falta refinamento do que exatamente são essas coisas.

É ir no restaurante da esquina, pedir uma banoffee e comer junto com a sua avó Gilda depois da hidroginástica dela?

Ou é chamar a amiga Carla e ir tomar um moscow mule no barzinho no outro bairro?

Precisamos urgentemente** ganhar repertório de tempo livre.**

Mas antes disso precisaremos NOS DAR esse tempo, mesmo que ele pareça despropositado.

Nossas empresas dependem muito de nós porque não sabemos como seríamos valorizadas se não fizéssemos nada.

Que valor teríamos em não fazer nada útil?

Quão reconhecidas seríamos se não tivéssemos construído nada?

Nosso valor está intrinsecamente ligado ao que FAZEMOS para o outro.

Tirar isso das nossas vidas é como tirar um pedaço de nós mesmas.

Chegamos então a dois problemas para resolvermos:

  1. Nos DAR tempo livre, mesmo que a gente não saiba muito bem para quê.

  2. Ganhar repertório de como usar nosso tempo para nós.

Essa é uma questão muito maior que um punhado de palavras em uma carta, mas tenho algumas sugestões que podem nos ajudar:

  1. Reconheça que você não sabe o que fazer do seu tempo livre. Nós não sabemos, tá tudo bem.

  2. Esteja em ambientes de negócios onde os únicos interesses não sejam falar sobre dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. Dinheiro é bom, mas só ele não nos serve.

  3. Aqui vai parecer contraditório o que vou falar, mas para mulheres faz sentido: gaste dinheiro com coisas para usar no seu tempo livre. Nós investimos centenas de milhares de reais para nos capacitar para nossas empresas. Curso, mentoria, consultoria, livro. Nós não gastamos um décimo disso para comprar um equipamento de esporte, um livro de colorir, uma massinha para modelar. O dinheiro tem muito peso para nós, quando investimos, nos sentimos obrigadas a usar. Use isso a seu favor.

  4. Se force a implementar estratégias na sua empresa para você trabalhar menos, mesmo que “te faça se sentir uma preguiçosa com pouca ambição.”

E se tudo isso parecer fazer muito sentido, mas você não tiver ideia de por onde começar, anota na agenda o dia 10 de junho que em breve eu venho com novidades de como vamos fazer isso juntas.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, mas nenhuma empresária também será livre se a única coisa que tiver nos restado for dinheiro.

A gente merece ter os dois.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·