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Carta 018

Carne e osso digital

Fui ao carnaval e percebi que ainda era a Mariana da pandemia. Uma carta sobre como o negócio digital nos isola de gente de carne e osso — e por que você precisa lembrar que não é só pixel.

Reflexões duvidosas

BOA TARDE, MARAVILHOSA.

Como você tá nessa sexta pós-carnaval?

Nesse feriado eu trabalhei um dia, fui para o carnaval outros 2 e tirei o último para recuperar e ficar com o meu sobrinho (tô me sentindo muito adulta inclusive por isso, em outros anos eu ficaria os 5 dias sem parar na rua 😅)

Esse processo de voltar a carnavalizar pós-pandemia me trouxe algumas reflexões que quero compartilhar com você hoje,

para a gente pensar sobre isso juntas.

Se você é DinoFluida, você se lembra que eu me isolei para caralho durante a pandemia.

Quando eu digo me ISOLEI é tipo 100% real oficial.

Eu fiquei pelo menos um ano e meio tendo contato só com o Pedro — meu boy que vocês agora sabem o nome.

Depois mais um ano e meio tendo contato com 8 pessoas da minha família. E só.

Na época da pandemia, muitas vezes, eu fui vista como “exagerada”, que já “tava de boa” e não precisava de tanto.

Mas, ninguém que me julgava “exagerada” sabe que eu perdi um amigo da minha idade para essa doença e que eu nesses anos eu vivi constantemente com um medo tremendo de morrer e matar.

Sim, era esse o meu medo. Morrer, sofrer ou transmitir para alguém e fazer essa pessoa sofrer.

Eu só consigo ver isso com clareza agora,

na pandemia eu só queria me certificar que não faria nada que me gerasse culpa depois.

Talvez você também tenha se sentido deslocada às vezes vendo o mundo voltar ao “normal” e você insegura de fazer parte disso. Se sim, saiba que você não estava sozinha.

Bom, com tudo isso acontecendo dentro de mim, a consequência natural foi que uma parte considerável da Mariana que vos fala desapareceu.

Eu simplesmente deletei porque não tinha como fazer essa parte existir, que é a parte de festa, de estar com outras pessoas, de conversar cara a cara, de sair para caminhar de manhã….

Fechamos o escritório físico que tínhamos na Fluida (talvez você não saiba, mas já tivemos 4 espaços físicos, meu negócio é REDE).

E, por escolha e imposição, não pude fazer nenhuma dessas coisas que em parte também me faziam ser quem eu sou.

Mas, não foi um fardo naquela época, eu claramente conseguia ver o quanto que ter um negócio digital era uma puta privilégio naquele contexto.

Eu PODIA levar a minha vida toda para dentro da minha casa (e eu agradeci MUITO isso milhares e milhares de vezes).

A realidade é essa? Então, bora trabalhar com o que temos.

Toda a minha vida se tornou digital, estava tudo online, ajustei toda a minha existência para funcionar através de uma telinha do computador ou do celular.

Do treino com o personal ao happy hour com as amigas…

tudo virou pixel.

Eu estava acostumada a viver entre telas, a não sair, a não ter mais como minha aquela parte que tomou chá de sumiço.

E eu me adaptei. Virei uma nova Mariana.

Que mal tira o carro da garagem, que conversa através de áudios, que só sai quando precisa.

Mas, eis que (graças as deusas e a ciência), a pandemia arrefeceu.

A vida e o mundo “voltaram”.

Mas, eu não.

Até poucos dias antes do carnaval, eu ainda era a Mariana da pandemia.

A chave ainda não tinha virado.

E veio o carnaval: muita gente, muito abraço, muito contato, muita aglomeração, muita liberdade…

Tudo que me faltou nos últimos 3 anos em doses cavalares.

Eu não tinha percebido que ainda era a Mari da pandemia até esse feriado.

Foi como um reset,

sabe?

Como se eu tivesse ficado suspensa de mim mesma por 3 anos e num tratamento de choque eu “voltei” para o meu corpo.

Tá, mas, o que isso tem a ver com você né?

Primeiro que eu chuto que para muitas de nós a experiência pandêmica ainda vai ser processada por longos anos, talvez você também tenha se dado conta de coisas que mudaram em você lendo esse email.

Mas a segunda coisa é a mais relevante ao meu ver:

Assim como uma pandemia (guardadas as devidas proporções): ter um negócio digital também nos isola do resto do mundo.

Explico:

Tudo que precisamos para trabalhar é um computador e acesso à internet.

Podemos ficar dias e dias sem ver um ser humano de carne e osso que a empresa continua lá.

Contratamos, recrutamos e nos reunimos em uma tela.

Fazemos nossas ofertas e conteúdos em uma tela menorzinha.

A maior parte dos nossos amigos não entende o que a gente faz.

É você, uma telinha e você mesma.

Quem escolhe por livre e espontânea vontade criar coisas para OUTRAS pessoas, tem no seu DNA um trem curioso:

Nosso trabalho nos move não pelo que o trabalho é, mas sim por QUEM ele transforma.

A gente entrou nessa parada para transformar GENTE, PESSOAS, SERES HUMANOS DE CARNE E OSSO.

É

ISSO que nos move.

Mas, ironicamente, o formato do nosso trabalho cria, quase sem que a gente perceba, um muro de pixels entre nós e aqueles que a gente tanto anseia estar junto.

O negócio digital existe para transformar pessoas, mas ele mesmo nos afasta de estarmos verdadeiramente junto de gente.

Não é louco isso?

Eu saio desse carnaval com a convicção inabalável que meu negócio é GENTE.

Um tipo específico de gente: NÓS

MulheresEmpresáriasInquietas, estudiosas, inconformadas, raivosas, empáticas…transformadoras.

Meu negócio é A GENTE.

E ter ficado tanto tempo longe fisicamente de nós teve um impacto em mim maior do que eu imaginava.

Eu não sei como isso te impacta hoje, mas sei uma coisa:

Seu negócio é digital, mas você é carne e osso

Dá para conversar com a sua amiga nas 3 redes sociais que vocês compartilham memes entre si. Mas, dá também para escapar para um almoço num self service de qualidade duvidosa perto do trabalho dela.

Dá para curtir as fotos do seu grupo da faculdade pelo insta, mas dá também para criar fotos novas com você junto deles.

Repito:

Seu negócio é digital mas você é carne e osso.

Lembre de suprir as suas necessidades também fora das telas.

Fez sentido para você? Ressoou? Bateu aí?

Pode me responder aqui mesmo que você tá em casa para falar das reflexões que surgiram por aí.

Beijos,

Mari Fernandes

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·