Carta 178
Canudinho
Eu não sei mais se estou vivendo ou apenas pulando de feriado em feriado. Chegamos em maio — e com ele, um compilado de boas práticas para não surtar empreendendo.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega nesse belíssimo feriado?
Eu não sei mais se estou vivendo ou apenas pulando de feriado em feriado, toda semana é um dia.
Tenho a sensação que não saberei viver nos dias normais quando não tivermos mais um feriado emendado a cada semana.
Mas enfim, gostaria de lembrar algumas coisas antes da gente começar a carta de hoje:
Chegamos em maio: isso quer dizer que o melhor mês das galáxias finalmente começou.
Isso porque, caso a senhorita não seja veia o suficiente na Fluida, precisa saber que 10 de maio é meu aniversário e que as comemorações se iniciam assim que 30 de abril se encerra.
Isso te significa que dia 10 de maio estarei esperando efusivas mensagens de felicitações. Pode ser aqui na carta, por Instagram, telefone, sinal de fumaça ou pombo correio.
Recados importantíssimos dados, vamos à carta de hoje.
A carta de hoje será um tipo de **compilado de boas práticas para não surtar empreendendo. **Explico: já cansei de falar aqui que em 2026, uma das minhas metas pessoais é reduzir pela metade as horas que eu gasto trabalhando. É uma meta ousada ousadíssima, não precisa ser cumprida à risca, é mais um norte para me obrigar a fazer mudanças radicais.
Feliz ou infelizmente para a minha pessoa, metas muito suaves não me tiram muito do lugar, vim com esse pequeno problema de fábrica de preferir coisas um tico mais audaciosas.
Bom, eu tenho feito infinitos testes para colocar isso em prática.
Primeiro quero te explicar por que eu decidi fazer isso: eu tenho pressa de viver.
Pressa mesmo. Desde que me entendo por pessoa é muito clara para mim a noção que ninguém vai sair dessa vivo, amém.
Eu fui agraciada (ou amaldiçoada, fica aí o questionamento) com uma visão muito gráfica do tempo.
Tenho em uma cachola uma linha visual que me mostra o tempo que decorreu desde o dia que eu nasci, onde me encontro agora e quantos anos ainda tenho pela frente.
Talvez por isso a minha pressa, estamos em uma viagem muito doida que o destino é nunca mais usufruir de nada do que visitamos um dia.
Pessoas, lugares, momentos… tudim vai se embora.
Bom, vindo daí ou não, fato é que essa pressa me empurra muitas vezes para fazer coisas com o quê?
Pressa.
Correndo, doida para viver e aproveitar tudo que há para viver, vamos nos permitir.
E na Fluida não seria diferente, tem uns 3 anos consecutivos que dobramos de tamanho a cada ano.
Quando eu paro para pensar nisso simplesmente não consigo crer como caralhos fizemos isso.
Eu ainda acho que foi tudo uma miragem, num é possível.
É um choque e uma alegria misturada com orgulho. Tudo junto.
Orgulho de ter feito isso. Susto de que fizemos.
Bom, não sei se dona idade vem batendo na minha porta, mas no planejamento desse ano eu comecei a pensar “se todo ano a gente dobra, como que eu vou garantir que meu trabalho também não dobre?”
E essa tem sido a minha obsessão dos últimos 4 meses. Eu AMO o que eu faço na Fluida, tanto que constantemente eu preciso me lembrar que eu não sou o meu trabalho.
A gente gera impactos reais na vida de uma porrada de mulheres. Geramos milhões em lucro para elas todo ano, maaaaaas eu não quero chegar lá na hora de nossa morte amém e só ter dígitos e mentorias para contar.
Eu quero viagens, muito tempo com a minha família, incontáveis jogos dos esportes que ainda inventarei de praticar, sobremesas chocolatudas… enfim, quero saber que eu tomei esse mundo de canudinho.
Já deu para você entender os motivos, certo?
Bom, por conta disso eu tenho colocado à prova todas as teorias que minha cabeça já foi capaz de pensar.
E eu tenho chegado a alguns testes interessantes. Hoje quero compartilhar alguns pedaços dessas descobertas com vocês.
Eu acredito de verdade que uma boa equação para o que entendo por VIVER é ter dinheiro + tempo livre + saúde. Considerando que nesse momento ainda não me qualifico para te dar orientações acerca do seu colesterol, vou me deter a levantar aqui boas práticas sobre ter tempo para você testar pro aí também.
Esses dias soltei um vídeo no Instagram falando sobre o dilema que paira diariamente em cima de mim que é: eu quero viver tudo que há para viver, vamo bater meta, dobrar a empresa a cada anooooooo E eu também quero nadar pelada no rio e viver das coisas que a natureza dá.
Talvez você não viva esse dilema com tanta intensidade como eu, mas eu tenho certeza absoluta que todas mulheres seriam mais felizes se a gente tivesse nossa vida menos ocupada.
Então, vamos aos testes que eu fiz aqui para você ver se arranca alguma coisa útil para você também.
Uma das primeiras coisas que eu fiz foi pegar o meu Google Agenda e calcular literalmente quanto tempo sem atividade agendada tava rolando semana a semana na minha agenda. Tirando tudo tudo que a gente tem que fazer num dia, quanto tempo sobra para o que a gente quer fazer?
De cara eu percebi que na minha agenda tinha muita coisa da PF, inicialmente eu falei “nossa como sou equilibrada gente, olha o tanto de coisa de PF que tem aqui”.
Ledo engano, dando uma olhada mais aprofundada, um bocado considerável dessas horas eram da PF, mas não era bem o tipo de evento da PF que eu lembraria no meu leito de morte.
Fisioterapia, acupuntura, psicóloga… tudo isso é ótimo para a saúde, mas fato é que, gostando ou não,** tudo que ocupa a agenda impede que ela seja ocupada com outra coisa.**
Bom, outra coisa que eu percebi é que eu tava com muito horário de reunião com a minha equipe. Pro nosso tamanho e complexidade não precisava de tudo aquilo.
Eu gosto de conversar com meu time, a gente sempre tem ideias muito boas juntas, criamos coisas magníficas, mas de novo: cada hora ocupada é uma hora ocupada.
Legal, vamos ter que mexer nas reuniões.
Considerando que sextas eu não trabalho, eu já tenho um dia a menos para fazer caber uma empresa na minha semana.
Segui fazendo essa análise e cheguei a algumas decisões para testar:
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cortar o tempo de reuniões pela metade
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não fazer mais nenhuma reunião de manhã, só à tarde
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usar o horário do almoço como horário de pausa e não só de alimentação, parar mesmo, passear e gastar minhas duas boas horas brasileiras de hora de almoço sem pressa
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intercalar os compromissos pessoais com os profissionais. Eu percebi que juntava tudo de PF num turno e tudo de PJ no outro, e isso não tava parecendo fazer sentido
E a grandessíssima conclusão mais inovadora de todas:
Não dá para fazer tudo. Mesmo que tudo seja muito legal.
Isso de cara me trouxe alguns sentimentos conflitantes que já vou levantar aqui para você se preparar para eles:
Eu me senti fazendo tudo certo e tudo errado ao mesmo tempo. Diminuir tempo de reunião parece uma excelente prática de gestão, mas aí mesmo tempo você pensa “nossa, mas será que tudo vai funcionar normal se eu fizer isso?” “meu time num vai ficar órfão da minha pessoa?” “e se tudo virar uma grande catástrofe e a gente quebrar de hoje para amanhã?” Como vocês podem ver, pensamentos muito comedidos e ponderados.
Outros pensamentos também fizeram sua visita: quando vi que meus compromissos de cuidados com a saúde eram ótimos, me ajudavam a ficar mais saudável, mas estavam ocupando quase uma dezena de horas na minha semana, eu caí de novo em uma encruzilhada.
“Mas como assim eu vou DIMINUIR o tempo que cuido da minha saúde? Isso não me parece nada saudável” “mas eu tô sendo responsável fazendo isso ou tô só usando esse projeto de trabalhar menos como desculpa para ser uma bela duma preguiçosa?”
A culpa burguesa da ociosidade.
É impressionante a força que tem essa nossa doutrinação para o trabalho. Todas nós.** Como se falar que quer trabalhar menos em voz alta quase fosse um pecado.**
Um atestado de preguiça.
De pouca ambição.
Bom, depois dessa análise da agenda um pensamento ficou bem vivo:
Se eu não vou fazer reunião de manhã, isso vai diminuir drasticamente os meus horários de atendimento, e neles eu faço vários dinheiros. Como vamos continuar crescendo em dinheiros se eu tô DIMINUINDO o horário onde ele é produzido?
E sim, isso é verdade, é uma preocupação legítima e real, não são só vozes da cabeça.
Mas mesmo assim eu decidi testar, eis aqui algumas coisas curiosas que aconteceram nessas semanas que eu apliquei cada uma dessas ideias:
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Não ter reunião de manhã me permitiu PENSAR com calma e clareza. Sem pressa. Eu não tenho que falar com nenhum ser humano de manhã nada. Posso sentar no computador de babydoll e coque bagunçado. “Meu deus como eu sou dona do meu tempo”. Já começei o dia vencendo.
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Como meus horários para reunião foram quase todos dizimados, quando alguma coisa aparecia para ser resolvida, um pedido de reunião, alguém querendo uma consultoria, eu percebi que meu cérebro encontrou soluções que eu não usava antes simplesmente porque não precisava. Vou te dar um exemplo besta: alguém te liga precisando da sua ajuda, uma amiga, uma cliente, um funcionário, se o assunto é meio complexo para resolver por mensagem a gente logo falava “vamos marcar uma reunião que vai ser melhor”, e de fato é melhor resolver coisas cabeludas falando do que escrevendo, porém, como eu não tinha horários livres, tive que encontrar outras formas de resolver a mesma coisa num espaço de tempo menor. E se eu ligasse ao invés de fazer uma reunião? Testei ligações. Sim, aquelas que alguém disca o seu número, você aproxima o celular da orelha e conversa com a pessoa sem ver ela em 3D do outro lado. Eu sei que pode parecer idiota, mas eu testei e metrifiquei. O tempo de solução do problema cai tipo pela METADE. Pelo menos, não sei que fenômeno sociológico é esse, mas nós seres humanos somos mais claros, objetivos e focados quando usamos o celular. Eu JAMAIS ia propor LIGAR para um ser humano em pleno 2026 se não fosse esse experimento maluco de cortar todos meus horários de reunião pela metade.
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Outra coisa muito interessante foi eu perceber que por ser uma matraca de primeira, eu prefiro FALAR as coisas do que escrever. Isso num é nenhuma novidade, porém sem horário para reunião eu me vi várias vezes sem espaço na agenda para juntar com o meu time e contar ideias e conclusões interessantíssimas que eu cheguei. E aí eu percebi que a forma que eu configurei nossas ferramentas de gestão de tarefas simplesmente não tinha um canto que eu pudesse explicar de forma mais extensa (e escrita) ideias e conceitos mais abstratos. O campo para escrever a descrição da tarefa era muito limitado em termos de edição. Toda vez que eu queria compartilhar algo maior com o time, eu não conseguia fazer isso de uma forma satisfatória sem ser FALANDO com elas. Um detalhe pequeno de ferramenta tava me empurrando para mais horas de reunião que nem eram necessárias.
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Quanto mais presente você estiver, mais as pessoas contam que presente você estará. E elas não fazem por mal, você acostuma as pessoas a FALAREM com você, e sem perceber elas vão ficando dependentes de FALAR com você. Simplesmente ninguém para e fala “ow, eu preciso mesmo conversar com fulana sobre isso ou tô indo conversar só pq é legal qnd a gente troca ideia?” Se o clima da sua empresa é meio bosta talvez você não entenda muito isso, mas se você assim como eu tem uma equipe que você ama conversar, que adora criar coisas juntas, que o clima é divertido, todo mundo vai acabar criando de propósito momentos para estar junta. E mais tempo junta conversando, de novo, é menos tempo fazendo qualquer outra coisa.
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Com menos reunião com meu time, nós temos menos tempo para DISCUTIR coisas, certo? E com menos tempo discutindo eu percebi que temos menos IDEIAS NOVAS surgindo. À primeira vista isso pode parecer um efeito colateral ruim, mas eu percebi outra coisa: UMA ideia nunca é uma só. Uma ideia, assim que disparada, será inevitavelmente acompanhada de dezenas de outras tarefas que serão necessárias para aquela primeira ideia ser concluída. Ou seja, mais tempo conversando = mais ideias = mais tarefas = mais tempo trabalhando. Isso me obrigou a ser muito mais comedida nos projetos que eu defini que seriam feitos. E com menos projetos, a gente não se perde no meio deles, fica muito óbvio o que tá atrasado, o que ninguém começou, e o que tá parado lá e ninguém sabe por quê.
Ou seja, me obrigar a trabalhar menos, me obrigou a ser implacável NO QUE eu escolho trabalhar.
Parece óbvio mas eu fiquei chocada com a quantidade de projetos legais que a gente tinha mas que na verdade não eram tão relevantes assim para o resultado que queríamos naquela semana.
Antes eu quase fazia um cortejo quando tinha que pausar um projeto que eu achava muito massa, depois que eu comecei esses testes eu mato ele sem dó nem piedade. Vai com deus meu querido.
Minha cabeça nunca vai parar de me dar boas ideias, nem que eu quisesse, então posso ficar em paz de pausar e assassinar qualquer ideia mara que apareça, pois no próximo banho relaxante eu serei agraciada com ideias novas de novo.
Eu tenho ainda algumas dezenas de reflexões e aprendizados sobre essa minha saga de trabalhar menos, mas hoje eu queria deixar você com uma ideia central martelando a sua cabeça:
Para trabalhar menos, você tem que primeiro trabalhar menos.
Eu não sabia mas no meu subconsciente eu achava que eu ia fazer milhares de alterações na Fluida, que eu faria um trabalho de formiguinha ano após ano e aí depois de tudo isso chegaria o momento em que eu perceberia que não era mais necessária aqui e ali e minha agenda começaria a ficar mais vazia naturalmente.
EU ESTAVA MUITO ERRADA.
É literalmente o oposto: você precisa primeiro diminuir o trabalho para então ser capaz de encontrar soluções para diminuí-lo.
Sua empresa não é um mecanismo com vida própria, por mais que pareça que não, TUDO QUE ACONTECE nessa bagaça acontece porque você escolheu que acontecesse.
Você disse que ia atender 29 pessoas por dia.
Você escolheu fazer 79 reuniões com o seu time.
Você decidiu que ia fazer reuniões no Zoom ao invés de ligações.
E se você decidiu tudo isso, tudo pode ser DESdecidido por você também.
Olha que maravilha.
Eu não sei qual é a mudança que você quer fazer aí na sua empresa: se é trabalhar menos horas, sair de um determinado processo, não atender mais um tipo de cliente… não sei o que é.
Mas eu tô aqui para te avisar, já que ninguém me avisou:
Primeiro você faz a coisa.
Depois ela está feita.
Esse trem aí não vai mudar com nenhuma outra ação que você fizer, a não ser A EXATA ação que você quer.
Quer trabalhar menos horas? Então diminua suas horas de atendimento e veja seu cérebro criando soluções que você nunca aplicaria se não tivesse no desespero de ir morar debaixo da ponte.
Quer parar de trabalhar com cliente do tipo x? Tire todas as divulgações falando que você trabalhava com público x e veja quão imbuída sua mente ficará de achar novos clientes uma vez que agora os antigos não têm mais como bater na sua porta.
Muda a coisa, para a coisa mudar.
Beijos