Carta 177
Precoce
Eu chego com um pensamento a semana inteira me martelando. Essa reflexão já ronda minha cachola há uns bons meses — e acho que nas últimas semanas o parto foi feito.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega nessa sexta?
Eu chego com um pensamento a semana inteira me martelando, e será ele o escolhido para a carta de hoje.
Essa reflexão já ronda minha cachola há uns bons meses, mas acho que nas últimas semanas o parto foi feito.
Vou contextualizar:
Um dos desejos (às vezes ocultos) mais frequentes nas mulheres que procuram a Fluida é trabalhar MENOS. Mesmo que às vezes não venha como algo literal e falado a pleno pulmões, já percebi que todas nós, secretamente, temos a vontade de mandar o trabalho para puta que pariu.
Não que a gente não ame o que a gente faz, mas amar demais o que se faz faz com que você tenha seríssimas dificuldades em se desligar do trabalho emocionalmente mesmo quando poderia não estar trabalhando.
Tem esse ponto que às vezes é um trem, mas tem também o medo de estar deixando de viver pela empresa. Temos um pânico terrível de falharmos na nossa PJ, e também temos um pânico horrendo de falhar na PF. Perseguimos sempre um equilíbrio que, para falar bem a verdade, eu nunca vi acontecer conforme nossos sonhos utópicos gostariam.
Ser dona de uma empresa é um trabalho desafiador.
E, por isso, mesmo estimulante.
Você pode tudo. Criar produto novo, mudar a forma como atende seus clientes, fazer uma nova campanha de mkt, mas ao mesmo tempo você não pode nada. Não pode queimar o caixa inteiro da empresa com passagens para as Maldivas nem sair de uma quitinete para uma cobertura triplex só porque o faturamento foi alto nesse mês (pois nunca se sabe como ele será mês que vem).
Queremos acertar o placar dos 2 lados, na PF e na PJ, o equilíbrio miligramamente balanceado.
Quando achamos que estamos falhando em qualquer um dos dois lados sentimos uma culpa tremenda, uma sensação de ter falhado.
De ter se cuidado de menos em prol da PJ ou de ter deixado a PJ na mão por conta da PF.
Veja que bela lambança emocional.
Estamos sempre inventando um desafio novo, mais colorido, mais legal para perseguir.
Queremos aumentar o faturamento sempre, o salário sempre, o preço sempre.
Estamos enviagradas mentalmente querendo crescer para o infinito e além.
Superar o faturamento do mês passado, do trimestre passado ou do ano passado tá deixando a gente com uma dolorida ereção emocional.
Não dá para crescer para sempre.
E eu sei que você sabe racionalmente disso.
Mas saber na cabeça é MUITO diferente de saber com o corpo, alma ou qualquer coisa que você ache que faz parte da senhorita além dos miolos.
Saber na cabeça é uma coisa, AGIR como se soubesse é um trem abissalmente diferente.
E eu vou te provar que você ACHA que sabe que “tudo bem não crescer sempre todos os meses”, mas que na verdade você age exatamente ao contrário disso.
Nós temos metas de aumento de tudo.
Faturamento, preço, quantidade de clientes, conteúdo… e o escambau.
Tal qual machos de sapatênis disputamos com nós mesmas o tamanho do pau desafio que vamos imputar a nós mesmas no próximo período de nossas vidas.
Aí eu vou fazer uma pergunta para quebrar as suas pernas:
Qual é a sua linha de chegada?
Qual é o limite do seu crescimento?
Não tô fazendo uma pergunta metafórica e filosófica não, tô falando literalmente.
Qual é o número que quando você chegar nele você simplesmente para de continuar CRESCENDO?
Sua cabeça deve ter cuspido alguns números redondos e ridiculamente grandes “ahhh quando eu tiver 10 milhões investidos eu posso desacelerar”.
Mas não é isso que eu tô dizendo, eu tô falando que literalmente existe uma CONTA que você precisa fazer se não quiser deixar sua vida ir por água abaixo por conta da sua PJ.
Bora fazer uma conta aqui:
Imagina que você tem uma empresa que tem caixa para 6 meses.
Se der muita merda, você consegue ficar 6 meses corrigindo a merda porque tudo, inclusive as suas contas pessoais, está pago.
Vamos dizer que seu custo de vida mensal, ou seja, seu salário, é 10k e sua equipe custa 20k. São 30k de custo todo mês.
Você passou muitos meses, às vezes anos, faturando uma fração disso.
Começou com 5k, depois passou para 10k, 20k e um dia não mais que de repente você está fazendo 50k por mês, alguns meses um tico menos, tipo 40k, e outros meses um tico mais, tipo 60k. Mas existe uma boa confiabilidade que se você não der uma de Neymar os 50k vão continuar vindo nos meses seguintes.
Você faz 50k, e custa todo mês 30k.
Isso nos dá vinte mil reais de lucro todo santo mês.
Mas você olha para o faturamento de 50k e fala “nossa é pouco, eu queria ser que nem a fulana que faz 100k”.
Você dobra as metas, dobra suas ações e dobra a energia necessária para sair de 50k para 100k.
Nada contra querer sair de 50k para 100k no mês, mas a pergunta é: tu PRECISA COM TODAS AS SUAS FORÇAS fazer isso num período de 12 meses?
Não pode ser sei lá, em 18?
Todos os seus sonhos megalomaníacos TÊM QUE caber no intervalo de um ano?
Ou de um semestre?
50k por mês pode parecer pouco para a bolha empreendedorística utópica que você tá vivendo, mas foda-se, tu tá fazendo VINTE MIL REAIS de LUCRO TODO MÊS CARALHO.
O que dá para fazer com 20 mil reais?
Quanto tempo 20 mil reais compram de volta da sua agenda?
Você já tem seu salário garantido.
Já tem caixa.
E ainda tem os 20k sobrando todo mês.
Tu precisa correr para dobrar o seu faturamento esse ano ainda?
Não, não precisa.
Mas agimos como se precisássemos.
O seu trabalho NÃO É CONTINUAR CRESCENDO SUA EMPRESA PARA SEMPRE.
Escuta isso: seu trabalho é chegar num número de LUCRO mensal que investido vai permitir você trabalhar mais devagar.
Eu sei que você já ouviu 98 gurus de finanças falando sobre viver de renda, eu não tô falando exatamente sobre isso.
Tô falando que se você juntar 500k em uma conta, num investimento bem bostinha, tu gera só de juros SEIS MIL REAIS por mês.
E se você soubesse que mesmo que você fechasse as portas da empresa 6k iam cair COM CERTEZINHA na sua conta?
Você num ficaria um tico menos agoniada para dobrar seu faturamento para ontem amém?
“Ahhh Mari mas eu não tenho 500k investido”.
Eu juro por tudo que é mais sagrado que mesmo quem tem continua pensando desse mesmo jeito.
A gente acha que quando for “a nossa vez” vai ser diferente, que vamos saber “parar” quando necessário.
Não vamos. Porque fomos todas concebidas numa maquininha de moer gente chamada capetalismo.
E esse bendito nos ensinou que o único rumo possível é para cima.
E de preferência o mais rápido possível.
Bem fálico como você pode perceber.
Eu fiquei muitos e muitos meses observando esse comportamento em mentoradas minhas que já tinham seus 100k, 200k, 500k, ou milhões investidos.
Vi esse mesmo padrão nas que ainda não tinham muita grana guardada mas estavam ali todo mês fazendo 5k, 10k de lucro.
Elas ainda agiam como se fossem morar debaixo da ponte amanhã e esgotavam todas as suas energias para se superarem mês após mês.
Essa questão me intrigou meses “por que é tão difícil para elas desacelerar?”
Descobri uma solução:
Sem uma faixa de chegada estendida na nossa frente, a gente não sabe que chegou.
E por isso continuamos correndo.
Precisamos, a cada fase da nossa empresa, de linhas de chegada diferentes.
-
Primeiro precisamos pagar nossas contas todas com a empresa, sem botar dinheiro nosso → check
-
Depois precisamos começar a dar lucro → check
-
Aí quando o lucro começa a chegar não temos clareza de qual é a próxima linha de chegada. Parece que ela não existe.
Precisamos defini-la:
Ela pode ser um valor de lucro mensal a partir do qual você só MANTÉM o tamanho da empresa sem precisar crescer todo mês
Ou um valor investido no caixa da empresa ou na sua PF que compensa o valor “perdido” pelo não crescimento.
É mais ou menos assim:
— Quando eu tiver faturando 50k vou passar alguns meses SEM QUERER aumentar esse faturamento. Vou focar só em mantê-lo assim até sentir que tô com muita energia de sobra para crescer de novo
ou
— Quando eu tiver com x meses de caixa guardado, vou DIMINUIR minha agenda de atendimentos em x horas por semana
EXISTE SIM UMA POHA DE UMA LINHA DE CHEGADA.
E você PODE PARAR ou simplesmente DESACELERAR quando chegar lá antes de se enfiar em outra corrida.
Talvez a gente tenha tanta dificuldade em definir uma linha de chegada porque é provável que sejamos as primeiras gerações que chegaram em algum lugar com suas próprias empresas.
Já houve um tempo que nem empresa a gente podia ter, nem conta no banco.
E de repente nos vemos com um tanto de dígitos caindo na conta sem acreditar que eles continuarão caindo.
É como alguém que ficou muito tempo de jejum vê um banquete suculento pela frente.
Dá vontade de socar comida até nos ouvidos com medo de não ver aquela mesa farta nunca mais.
Existe linha de chegada.
Se você sente que constantemente dá mais que o seu corpo aguenta, se se vê todo mês numa corrida louca sem saber muito bem o porquê, tu só precisa desenhar a linha de chegada.
Veja, eu não tô falando linha de PARADA necessariamente.
Não tô dizendo que é uma linha de aposentadoria que você vai largar definitivamente a corrida.
Só tô dizendo que tu chega na linha e pode decidir QUANDO quer correr de novo.
Você já cumpriu uma prova, não precisa se inscrever em outra 5 minutos depois de ter concluído a anterior.
É claro que sei que para muitas empreendedoras essa fase talvez ainda não tenha chegado, existem mulheres que ainda não conseguem pagar 100% de suas contas com as suas empresas, é verdade.
Mas eu tenho encontrado pelo caminho muito mais delas que sequer sabem que chegaram.
Que estão correndo sabe-se lá para onde.
Desacelerar não é “trabalhar com mais calma”.
“Não se estressar tanto”.
“Fazer massagem toda sexta”.
Desacelerar é DESACELERAR.
É DIMINUIR concreta e matematicamente os números que você impôs para si mesma.
E daí se você demorar 6 meses a mais para bater o milhão?
E daí se a coleguinha do Instagram ganhou a plaquinha dela antes de você?
E daí se você se permitir ser preguiçosa e ESCOLHER faturar MENOS num mês para trabalhar MENOOOOOOOS?
Estamos impondo a nós mesmas números super alcançáveis com prazos impossíveis.
Tu pode chegar no número que você quiser.
Mas por favor: tenha um número.
E se não souber como defini-lo, a gente sabe.
Não permita que a pressa coletiva impeça você de viver nos seus próprios termos.
Vá devagar coisinha.
Você num tá fugindo de nada.