Carta 176
Leitora(s)
A carta de hoje saiu de dentro de uma piscina de bolinhas e é uma homenagem pra-lá-de-especial.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!
Como a senhorita chega nessa sexta?
Eu me encontro em pé em uma brinquedoteca aguardando para que meu querido (porém caótico) sobrinho gaste todos os atps de seu corpinho em um recinto circular preenchido por pequenas esferas de plástico, vulgo piscina de bolinhas.
Comecei falando de meu pequeno espécime de homo sapiens, mas não é ele o tema da carta de hoje.
A carta de hoje tem um tema não usual.
Eu quase sempre conto causos de mentoradas, ou troços que rolaram comigo.
Mas hoje eu vou falar de vocês, vocês que me leem. Não exatamente todas, mas vocês vão entender.
Quando começamos esse rolê de carta de sexta, era para ser só um lugar para eu despejar as centenas de pensamentos que rondam minha cachola de forma mais profunda e organizada.
O Instagram é ótimo pra gente fofocar, conversar no direct, mas num é uma plataforma que privilegia conteúdos mais cabeçudos e reflexivos como eu gosto de fazer.
Acabou que a bendita foi virando um troço muito maior do que o esperado e começamos a receber respostas de vocês.
“Mari, de Deus, morri com a carta 149”
“Nossa, Mari, essa carta de hoje pqp, eu precisava dela. Terminei chorando”
Áudios, LONGOS áudios me agradecendo no direct por ter dito algo que acolheu, cutucou ou fez sorrir.
Depois, começaram os pedidos engraçados.
“Você precisa escrever um livro”
“Mari, quando vem o livro das cartas?”
Eu, que só queria falar o que penso, achei deveras engraçado.
E fomos indo (resistindo ao impulso de escrever fomos fondo que é muito mais legal), toda semana uma cartinha.
Toda semana um pensamento.
Toda semana meu ritualzinho de parar tudo que eu tô fazendo para conversar com vocês.
Descobri que, do mais absoluto nada, agora eu tenho LEITORAS.
Que coisa engraçada.
Pessoas que me leem.
Tipo como se fosse um livro enviado por partes tal qual uma série, mas sem que um episódio tenha nada a ver com o outro. Tem, mas não tanto.
Tipo Friends.
Cada carta é um episódio com começo, meio e fim. Você pode ver tudo na sequência, mas se escolher ver uma aqui e outra ali vai entender do mesmo jeito.
Bem, e nesses mais de 3 anos de carta, uma leitora se mostrou deveras assídua.
Ela leu tantas cartas, com tanta disciplina, que passou a ser uma espécie de controle de qualidade das cartas.
Se a carta realmente fosse boa, eu receberia uma mensagem no WhatsApp comentando.
Se algo estivesse errado em alguma carta, eu saberia, pois ela me apontaria.
Das vezes que tivemos bos tecnológicos e a carta foi atrasada, eu descobri por conta dela.
Como vocês poderão ver nas imagens abaixo, talvez ela tenha lido mais cartas mais vezes do que eu mesma.





Além de toda a presença semanal lendo as cartas, dos alertas quando algo estava errado, essa leitora não é só uma leitora.
Ela tem uma formação que me faz me sentir muito honrada de ter ela como crítica de meu humilde trabalho.
A bicha é apenasmente MESTRE em Letras.
Com especialização em ANÁLISE DO DISCURSO.
Que é algo que eu, como você pode ter notado, gosto bem muito de fazer todas as sextas.
Um discurso bem longo e cutucador sobre qualquer assunto que me atravesse durante a semana.
É como se eu tivesse uma crítica altamente gabaritada que simplesmente ama meu projeto despretensioso de escrever toda sexta.
Como se a cada semana saísse uma coluna da gabaritada profissional elogiando minha escrita, as analogias e os exemplos que uso.
Basicamente, tenho meu ego afagado semanalmente por conta dessa leitora.
Nesse momento você deve estar pensando:
Quem raios é essa leitora?
Bem, essa leitora/crítica nada ferrenha é minha irmã caçula.
E essa carta é sobre ela.
Semana passada, nos encontramos e ela brincou “a carta da semana que vem tem que ser sobre mim, que é meu aniversário”.
Respondi, falando a verdade “eu nunca sei o tema da carta de sexta, ele é 100% espontâneo, eu sento e escrevo, então não vou estar te prometendo nada”.
Eu não prometi.
Mas tô entregando.
Ela não é empresária, escolheu um caminho profissional bem diferente do meu, saiu da faculdade e foi fazer mestrado (o que a minha pessoa considera um feito tão heroico quanto ir à lua porque se eu mesma tivesse que escrever algo que seria APROVADO por alguém, eu estaria falecida).
Mas ela é a minha leitora número 1.
Dizem que os irmãos mais novos são os fãs número 1 dos seus irmãos mais velhos.
Já ouvi isso 98 mil vezes em lugares diferentes.
Que o irmão mais velho vira uma espécie de referência para o mais novo.
Eu, que nunca tive uma mais velha de referência, que escolhi uma profissão que ninguém da minha família tinha, que sempre careci justamente de referências, nunca entendi muito bem o que seria esse fenômeno.
Simplesmente sempre foi normal para mim não ter referência AT ALL.
Ou melhor, ter várias e várias ANTI referências profissionais.
O mercado que eu escolhi é DO-MI-NA-DO por homens, brancos, classe alta, conservadores, com inexistente consciência de classe e zero respeito pelas não portadoras de pinto.
Eu sempre olhei para o que eles faziam como o OPOSTO do que eu tinha que fazer.
Então entender sobre o tal rolê de “referência entre irmãos” não foi algo que eu entendia completamente.
Mas 176 cartas me fizeram entender isso de forma cristalina.
Eu não sei se ela é minha fã número 1, mas eu sei que saber que ela é minha leitora assídua me faz me SENTIR a artista número 1 das cartas de sexta.
Esse programa que só tem uma única artista e sou eu mesma.
A carta de hoje é para exaltar a leitora número 1 e torná-la pública para as centenas de outras leitoras (gente, como eu tô chique) que vez ou outra me mandam mensagem, respondem minhas cartas e me fazem me sentir ouvida (lida seria a palavra correta, mas vamos de licença poética).
O fato de saber que vocês me leem toda santa semana reforça em mim que as ideias não usuais que rondam minha massa cinzenta são relevantes para além dos meus divertidamente.
Vocês me fazem QUERER escrever mais, falar mais, refletir mais.
Porque, para além de devaneios, toda vez que recebo uma resposta mencionando uma carta, eu sei que ela, mesmo que por poucos minutos, fez uma mulher em algum lugar do mundo se sentir menos sozinha.
E talvez irmãos sejam sobre isso, sobre não estar sozinho na sua história.
porque talvez só e somente irmãos tenham vivido a sua vida como você viveu.
Somente eles tenham sido testemunhas de parte da sua história que ninguém mais sabe.
Um brinde às irmãs.
Às leitoras.
E principalmente às irmãs-leitoras.
Meu amor por você(s).
OBS 1: se você quiser, pode responder essa carta com um parabéns para minha irmã-leitora número 1. Vou mandar todas as respostas para ela.
OBS 2: se você tiver uma irmã ou irmão: você não precisa fazer uma carta para ele, mas pode mandar essa carta para ela ler, ela vai entender o recado.