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Carta 172

Trabalhinho de escola

Uma conversa com o sobrinho de 5 anos na porta da escola revelou algo que Mari vê toda semana: mulheres que só pedem ajuda quando não conseguem mais fazer sozinhas — e por que isso precisa mudar.

Nóias da cabeça

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Como a senhorita chega hoje?

Eu chego me sentindo meio culpada, meio aliviada.

Explico.

Eu não sei se você sabe, mas eu tenho um sobrinho de 5 anos. Na minha família, até eu ter 30 anos, só tinham nascido mulheres.

(Então você pode imaginar o que um menino pode causar de rebuliço em uma família que só conhecia meninas).

Caê nasceu na pandemia, no auge. Desde que ele pode ter contato com outras pessoas, eu fico com ele um dia da semana, todas as semanas, desde que esse pitoco tem menos de um ano.

Bom, eu me acho uma tia muito legal, muito maneira, muito galera, mas também sou uma tia rígida, talvez.

Eu amo cuidar e ver essa criança crescer, e uma das coisas que me dá mais felicidade de empreender é saber que eu POSSO escolher o dia que eu vou ou não trabalhar só para ficar com ele.

Buscar ele na escola, dar banho, e molhar as plantas do quintal (atividade que ele ama, além de lavar louça e limpar rodapé).

Sim, a doutrinação feminista foi executada com orgulho.

Uma das coisas que eu acho importante cultivar nessa criança é a autonomia

, a sensação de autocapacidade, de que ele CONSEGUE fazer as coisas.

Quando ele era pequeno demais para comer sozinho, eu espetava as frutas no garfo e ensinava ele a levar até a boca, até que as coisas foram evoluindo e eu já não precisava espetar todas, só algumas. Um tempo depois ele serve o prato sozinho, come sozinho e no final joga o restinho no lixo e coloca na pia para lavar.

Eu acho a coisa mais linda do mundo: autonomia, independência.

Mas hoje eu senti culpa.

Fui buscar o pequeno na escola. Hoje foi dia da água, então ele veio com um trabalho de papel daqueles que as crianças amam mas que os pais odeiam, pois são frágeis e não tem lugar mais para acumular folhas e folhas em casa.

Eis que na porta da sala vem ele e a folhinha.

Eu ensinei ele a sempre levar a própria mochila, então ele tá acostumado a sair da sala, pegar a mochilinha e sair arrastando ela pelo corredor.

Eis que hoje ele vira para mim e fala “Tia Nana”, sim, essa é minha alcunha para o referido, “você leva a minha mochila para mim? Eu não consigo levar ela e o meu trabalho juntos.”

Eu já vi essa criança carregando um dinossauro, uma mochila, uma lancheira e um baralho de cartas de super trunfo enquanto corria pelos corredores da escola.

Eu SEI que ele mais do que dá conta de levar uma mochila e uma folha de papel sulfite com o total de 20 mg.

Percebi que não era porque ele não conseguia. É porque ele queria livrar as mãos da mochila para ficar brincando com o trabalhinho da escola.

Na hora eu entendi.

Perguntei para ele “você não consegue levar ou você não quer levar?”

Ele olhando para mim com a cara de desconfiado, pensando se podia ou não me falar a verdade.

A verdade não saiu.

Eu disse:

“Caê, você quer que eu leve a sua mochila porque você não consegue levar os dois ou você quer que eu leve a mochila porque você quer levar só o trabalhinho para ir brincando?”

Na hora ele respondeu “EU CONSIGO, TIA NANA, MAS É ISSO. EU QUERO IR BRINCANDO COM MEU TRABALHINHO.”

Peguei a mochila e encarei ali uma culpinha subindo pela garganta.

Explico porque:

Por algum motivo, ele entendeu que só podia contar com a minha ajuda se ele não CONSEGUISSE fazer sozinho.

Ele achou que se me dissesse que CONSEGUIA levar os dois, ele não teria a ajuda que queria.

Perceba: a criança com meia decadazinha de vida, de algum jeito, naquele momento entendeu que AJUDA só vem quando a gente PRECISA dela, quando somos INCAPAZES de fazer algo sozinhos.

E ele, doido para brincar com o trabalhinho, usou sem pestanejar essa lógica para conseguir a ajuda que queria.

E o que raios isso tem a ver com você?

Na verdade, isso tem a ver com você, mas também tem a ver comigo.

Eu sou assim também, e tenho ao longo de muitos anos desmontando essa ideia de que a hora de pedir ajuda é quando você não aguenta mais.

Por muitas e muitas vezes eu me peguei pensando 10 vezes antes de tirar algo da minha lista de tarefas para delegar para alguém do time.

Por muitas vezes eu percebi que demorei demais para pedir ajuda, e que meu caminho teria sido mais fácil se eu, MESMO SABENDO FAZER SOZINHA, tivesse levantado a mão e dito: “faz para mim.”

Essa batalha não é uma batalha minha, ela é uma batalha nossa.

Eu vejo ela todo dia dentro da Fluida.

Se não fosse deprimente, seria até engraçado.

“Mari, tô muito sobrecarregada aqui na empresa, preciso muito de vocês, vou organizar as coisas aqui e quando tiver melhor eu começo o Vênus.”

“Quando eu tiver melhor eu começo…”

“Quando tiver mais organizada eu posso…”

“Quando a gente tiver vendendo mais vai dar para…”

Sem perceber, imputamos a nós mesmas a solução de todo e qualquer problema que cai no nosso colo.

É como se já soubéssemos que “ninguém vem me salvar” e lidássemos com isso com “então eu vou resolver.”

Em muitos casos, sim, o mundo não vai vir te salvar.

Talvez, se você sofrer a infelicidade de se relacionar com um macho escroto, talvez ninguém vá intervir se ele começar a gritar com você em casa.

O que mais me ofende, irrita e me agonia é que eu sei que “dar conta sozinha” é um mecanismo que literalmente salva as nossas vidas, mas é indignante ver a gente usando esse mesmo mecanismo nas nossas empresas.

Eu entendo de onde vem, mas dá vontade de gritar:

POR QUE CARALHOS VOCÊ TÁ SE FUDENDO TENTANDO RESOLVER SOZINHA?

Nem sempre há espaço para gritar isso no ouvido da pobi da lead que acabou de conhecer a gente, mas 100% das vezes eu sei quando é um impeditivo real e quando é só mais uma mulher agindo no automático e achando que ela precisa chegar na escola já graduada.

É automático. Elas nem LEMBRAM que podem parar de executar tudo e simplesmente ter outra pessoa dizendo “faz isso, nessa ordem, desse jeito!”

Quase como se isso fosse trapacear.

Essa semana, atendi uma empresária que tá como lead no nosso comercial desde 2024.

A última oferta que fizemos para ela foi em janeiro de 2025. Ontem ela me mandou uma mensagem dizendo:

“Mari, agora chegou a hora, chega de palhaçada, bora trabalhar juntas.”

Liguei para ela e durante a conversa ela disse “se eu tivesse entrado naquela vez que você falou comigo, eu não estaria aqui agora, né?”

Eu não posso prever o futuro, mas eu vejo todos os dias o que acontece quando uma empresária insiste tempo demais em “fazer sozinha.”

E perceba: não é uma recusa, não é teimosia, não é que elas pensam “vou fazer sozinha porque vai ser melhor.”

Não é isso.

É que não passa pela cabeça delas que tornar o negócio mais leve para ELAS é urgente.

É como se não fosse um problema “digno” de se gastar dinheiro para resolver.

Conteúdo bosta: contrata social media.

Cadeira quebrada no escritório: compra outra, os clientes não podem sentar aqui.

Ar condicionado tá sem esfriar: manda consertar, o time não pode trabalhar no calor.

A empresa tá custando mais da minha vida do que eu gostaria: ok, esse não é tão importante, podemos resolver depois.

No paradigma de prioridades da nossa cachola, inexiste a palavra “eu.”

Não lembramos de pedir ajuda simplesmente porque “ajuda para mim” simplesmente não está lá.

A minha culpa veio daí: de perceber que eu, sem querer talvez, tenha estimulado meu sobrinho a pensar como todas as mulheres que chegam até mim.

Elas precisam de mim só quando não dá mais.

Só quando são incapazes de fazer mais.

E definitivamente não é isso que eu gostaria que ele aprendesse.

Pensar assim sobrecarrega, suga e cansa. Muito.

Eu queria que ele entendesse que ele é capaz de fazer qualquer caralho que ele queira, e que ainda assim ele pode pedir ajuda quantas vezes ele quiser, sem que isso se configure um “fracasso” da própria autonomia.

Eu quero que ele diga “eu sei fazer, eu tenho tempo para fazer isso, mas eu vou pedir para fulana do meu time fazer porque quero mais tempo de almoço hoje”.

Eu quero que ele peça ajuda não por incapacidade, mas por inteligência.

“Eu sei fazer sozinha, eu posso fazer sozinha, mas se eu chamar esse especialista aqui vai ser feito mais rápido e menos doloroso para mim.”

E isso que eu quero para o Caê.

E a origem da minha culpa é porque é exatamente isso que eu quero para você também.

Que você insira no seu imaginário a palavra EU.

Que você abandone o hábito de levantar a mão só quando está insustentável.

Que você, com orgulho, diga “não há motivo para eu me estressar com isso aqui se alguém já sabe fazer.”

Eu quero que você corte caminho, que chegue nos lugares que quer mais rápido e que use SEM DÓ absolutamente toda ajuda que puder.

Eu não sei qual ajuda você tem precisado agora.

Qual ponto da sua empresa você, sem perceber, tem refletido mais do que o necessário para buscar uma solução.

Em se tratando de empresas, eu consigo afirmar que pelo menos uns 98% de qualquer coisa que você tenha pensado, alguma outra empresária já fez, já resolveu e nem lembra mais que um dia teve esse problema.

Eu espero que você peça ajuda.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·