Carta 167
Energia feminina
Energia feminina e masculina são só um rebranding moderno do mesmo produto de sempre: submissão, docilidade e passividade embalados em espiritualidade para que a gente mesma coopere com a própria perda de autonomia.
BUENAS TARDES, MARAVILHOSAS!
Como a senhorita chega hoje?
Ontem foi a nossa tradicional quinta pix no grupo de mentoradas (se você não tá familiarizada com a quinta pix é o dia que a gente comemora os trem tudo da semana juntas) e lá surgiu um assunto que eu quero falar com vocês há 29 milhões de anos e não sei porque ainda não falei.
Então hoje chegou o dia.
Eu vi esses dias um vídeo de uma mentora famoooossa falando desse assunto.
Mas hoje especificamente ele começou com uma mentorada contando um BO de hierarquia que tava tendo com o boy, que além de boy é sócio.
E aí entramos nesse papo de trabalhar junto com os maridos e maridas, dos limites disso, o que dá ruim, o que dá bom.
Eis que em algum momento uma mentorada questionou se o trem que tinha rolado entre ela e o boy era um erro dele mesmo, de não abrir espaço para ela tomar decisões, ou se na real era ela que não tava sabendo ser conduzida por ele.
Uma vez que ela já tinha cansado de ver na internet o tal do “você está muito na energia masculina, por isso tá tendo esse embate com o seu boy”.
É sobre isso que vamos falar hoje: energia feminina, energia masculina e minha opinião direta e reta, bem à la Mariana, como vocês estão acostumadas.
Vai ser tão direta e reta que já vou começar a carta pelo final:
NÃO EXISTE ESSE CARALHO DE ENERGIA FEMININA.
Pronto, poderíamos terminar a carta aqui e beijo, tchau.
Mas eu vou destrinchar meus motivos.
Talvez em algum momento da história pode ser que tenha existido alguma terapeuta, coach, mentora ou qualquer coisa que o valha que usasse o conceito de energia feminina e masculina de forma, vamos dizer assim, normal.
Como uma metáfora que reflete os opostos tão presentes na natureza, mas que precisam um do outro para os trem ficarem equilibrados.
Não adianta ter só sol se não tiver chuva também, não tem só predador, tem presa também… como uma METÁFORA que organiza o mundo para nós, reles mortais, nos sentirmos menos perdidos na imprevisibilidade que é a vida.
Deve ter existido alguém que usa esse conceito assim, mas nas minhas últimas andanças na internet o que eu tenho visto não é nada disso.
Então, para todos os efeitos, vamos estar eliminando esse caralho de energia feminina e masculina de nossas cabecinhas.
Explico:
Eu trabalho com mulheres há mais de 10 anos e consumo muuuuuito conteúdo que se destina ao público feminino, tanto de coisas que eu acredito quanto do que eu abomino.
Porque para entrar na sua cabecinha e te ajudar a chegar onde você quer, eu preciso saber o que é que tem residido nela.
Então eu acabo sendo atingida por tudo quanto é conteúdo destinado ao público feminino em doses cavalares e antecipadas.
O que você talvez tenha visto em um ou dois vídeos, eu já devo ter visto uns 50, 60, por baixo.
Esse é o meu trabalho também: ler o que o mundo tem dito para e sobre nós.
Bom, e eu vou te explicar que caralhos é esse trem de energia feminina que roda por aí hoje:
TUDO — eu vou ser enfática — TUDO, ABSOLUTAMENTE tudo que eu vi até hoje sobre isso é só um machismo desgraçadamente horrível travestido de espiritualidade e evolução humana.
Pensa comigo, mesmo que você não tenha visto muito conteúdo sobre isso, quando você pensa em “energia feminina” o que se fala por aí é que essa tal dessa energia feminina são coisas tipo essa aqui:
- Se deixar ser conduzida
- Deixar o homem fazer o papel do homem e você fazer o seu
- Ser provida ao invés de prover
- Ganhar as coisas pelo amor, não pela guerra
- Manter sua energia feminina alta ficando bela e bem apresentável
Basicamente ser uma camponesa amorosa que roda saia num campo de lavanda e consegue o que quer com uma açucarada voz infantil.
Tudo isso parece até meio sensato, né? Tipo “nossa, parece que faz sentido”.
Agora vamos ver o que caralhos é “energia masculina”:
- Prover troços para sua mulher
- Ter uma mulher para proteger
- Decidir coisas, agir, brigar, lutar, falar alto
Tudo que tá muito relacionado a FAZER, DECIDIR e MANDAR tá nessa esfera aí do “masculino”.
Então, comparando, os homens quando estão no seu papel correto decidem, mandam, falam alto, criam coisas.
Mulheres escutam, cuidam, fazem pão e se embelezam.
Homens fazem todo o resto que eles quiserem.
Eu não sei se já tá bem claro para você, mas os verbos DECIDIR, MANDAR, DEFINIR, PLANEJAR, EXECUTAR, FAZER são verbos de AÇÃO.
Se tudo que é AÇÃO tá relacionado à energia masculina, o que sobra para as mulheres então?
Sobra para a gente o oposto: a INAÇÃO.
Ou seja, a passividade.
Nesse binômio, se alguém manda, outro alguém obedece.
Adivinha onde a energia feminina nos colocou?
Na casinha do “obedece”.
Tcharam. Tá aí a sua resposta.
Energia feminina e energia masculina são uma roupagem nova e muito modernosa, aparentemente, de dizer “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Mas como as mulheres agora trabalham, têm acesso à internet e estão mais letradas nesse rolê todo de socialização feminina, foi preciso um rebranding na parada.
Para não parecer tããão machista assim.
O rebranding foi tão bom, tão eficiente, que agora até nós mesmas estamos nos convencendo que quando os homens fazem homices o erro foi NOSSO de não ACEITAR a homice.
Que temos um erro horrível de ferida com a mãe lá na quadragésima sei lá qual geração que precisa ser curado e é ele que faz a gente se sentir silenciada, cansada e injustiçada na sociedade.
Sim, é a minha tataravó.
Não é o homem que não aceita que você talvez saiba mais do que ele, que não aceita fazer terapia, que não sabe o que é regulação emocional, que resolve tudo no grito e acha que sucesso é ter um abdômen tanquinho e um relógio tão grande quanto o seu ego.
Sim, claro que é a ferida com a tataravó.
Mulheres passivas ACEITAM.
São conduzidas.
São levadas para o lugar que alguém quiser levá-las.
Já pudemos perceber, pelas bruxas chamuscadas tais quais churrasquinho, que nem sempre é um lugar muito bacana, né?
Esse caralho de energia feminina é só uma forma de fazer você mesma cooperar para a sua própria perda de autonomia.
É tão mais fácil domesticar um animal que se esforça para ser dócil, não é?
Pois então.
Esquece essa merda.
Energia feminina e energia masculina, como postas hoje, são o puuuuro suco do capitalismo com um rebranding belíssimo.
Só isso.
O produto é o mesmo:
Submissão.
Docilidade.
Dependência.
Passividade.
Se um macho te interrompeu, não pare de falar.
Se o marido te pergunta pela milésima vez onde está a porra da frigideira, finja que não sabe.
Se o cliente duvida que você sabe do que tá falando, não recue.
Energia feminina não é fazer com que os OUTROS fiquem mais confortáveis com a sua presença.
Energia feminina, pelo menos até onde minha faculdade de biologia me ensinou, é:
- Produzir TODOS os seres humanos do planeta
- Fazer alimento dentro das suas próprias células
- Expulsar de dentro da sua própria ppk um ser humano INTEIRO
- Sangrar todo santo mês e não morrer
Onde qualquer uma dessas coisas aí tem relação com “passividade e docilidade”?
NADA DE NADA.
Nunca acredite de que sua habilidade de GERIR é um louro restrito aos homens.
Mari Fernandes.