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Carta 163

Concurseira

Aquele pensamento que toda empresária já teve: será que não seria mais fácil ter feito um concurso?

Nóias da cabeça

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA!

Como a senhorita chega nesta segunda sexta-feira útil do ano?

(Num estou contando com a sexta-feira dia 3 pois esta foi dedicada inteiramente a minha PF)

Pois muito que bem.

A carta de hoje é sobre você, empresária.

Você, mulher ambiciosa, líder, gestora, prestadora de serviço.

Aqui, a gente vai conversar sobre um segredinho que você talvez não tenha coragem de contar pra ninguém.

(Você pode contar ele pra mim, tá? Porque eu já sei, na real.)

Sabe quando passa na nossa cabeça assim — e já passou na sua, com certeza absoluta já passou — aquela ideia que você até tenta ignorar, dizendo “não, não, não, nem vou pensar nisso porque não quero abrir essa porta na minha cabeça”?

Em algum momento você já pensou:

“Cara… será que não seria mais fácil se eu tivesse feito um concurso?”

Ontem eu estava conversando com as minhas mentoradas da Vênus, contando que o sr Fluido preferiu a estabilidade de um concurso do que o rivotril do CNPJ e abri esse loop na minha cabeça.

“E se eu tivesse feito um concurso?”

Pois num sei se você sabe, eu fui concurseira por algum tempo.

Afinal, sou nascida e criada em Brasília e aqui o auge da vida do brasiliense é passar num concurso, financiar um apartamento no bairro águas claras, comprar um ar condicionado e ter um shitzu.

Fecha parênteses.

Talvez a vida de uma pessoa concursada fosse melhor do que a minha. Aquela amiga que nem é tão inteligente assim. Aquele cara da faculdade que nem era tão genial assim. Parece que a vida deles é tão mais fácil.

Isso já passou na sua cabeça?

Em sequência, você pensa:

“O que foi que eu fiz comigo mesma? Por que eu me meti nesse diacho dessa empresa? Por que eu escolhi um caminho tão difícil? Por que eu me interessei por uma coisa tão complexa? Eu só queria que fosse mais fácil.”

Vamos conversar sobre isso.

Existe uma dicotomia, um paradoxo no empreender e na nossa existência humana.

Toda melhoria é uma mudança.

Leia novamente.

Toda melhoria é uma mudança.

E mudanças exigem muito. Mudanças exigem que a gente mude.

Ao mesmo tempo que a gente quer melhorar, mudar é trabalhoso. A gente pode olhar isso pelo lado emocional e psicológico. A gente quer ser mais paciente, mas ser mais paciente exige mudar a nossa impaciência. E isso custa. É difícil.

Mas eu quero falar também da dimensão prática, quando você quer melhorar um processo na sua empresa, você precisa parar de fazer do jeito antigo e descobrir um jeito novo. Isso custa energia. Se você quer melhorar algo, é porque aquilo já não está funcionando tão bem. Ou seja, aquilo já está te drenando, seja de tempo, de dinheiro, de atenção.

Só que, pra mudar, você ainda vai ter que colocar mais energia em algo que já estava te drenando.

Essa é a vida de uma empresária.

Gerir uma empresa, uma equipe, fazer dinheiro, lidar com mercado, imposto, pessoas, consumo, atenção, redes sociais… é o tempo todo tentar melhorar coisas.

Você precisa melhorar seu conteúdo.

Melhorar seu tráfego.

Melhorar a eficiência da sua equipe.

Melhorar sua margem de lucro.

Toda hora você precisa mudar.

E mudar cansa.

Porra, mudar cansa pra ppk.

E é por isso que, às vezes, você pensa que às vezes queria ser concursada.

(Aqui um outro parêntese importante: isso não quer dizer que você não possa deixar de ser empresária se quiser. Eu quero mais é que você faça coisas que te deixem feliz).

Mas desejar ser concursada não significa que você falhou. Não significa que você errou. Não significa que você não teve sucesso.

Significa só uma coisa:

O seu sistema nervoso está pedindo menos mudanças.

Está pedindo mais estabilidade.

E olha que doideira:

Pra mudar menos, você vai ter que melhorar menos. Pra melhorar menos, você vai ter que aceitar permanecer onde está.

É aí que mora o quase impossível pra mulheres ambiciosas.

Porque a gente quer sempre melhorar.

No nosso desenho de vida não existe “andar pra trás”.

É daqui pra frente.

É daqui pra cima.

É daqui pra melhor.

Então, se o padrão é melhorar, a manutenção parece fracasso.

Se o padrão é melhorar, permanecer parece regressão.

Mas não é.

É só permanência.

Quando você sente vontade de estabilidade, isso não é fraqueza. É só o seu corpo pedindo menos mudança.

E sim, às vezes não dá. Às vezes o caixa aperta, a plataforma trava, o fornecedor dá calote. Às vezes você precisa crescer.

Mas na maioria das vezes, dá pra manter.

A realidade permite.

Num cai naquele papo de guru sapatênis que diz que foguete não dá ré.

(Ele pode até não dar ré, mas tu já viu a quantidade de foguete que explode? Pense nisso na próxima vez que um macho vier com essa história de foguete pra cima de tu)

A gente sente que é errado ficar onde está.

Mas a verdade é que nós somos seres humanos, a gente precisa de alguma previsibilidade pra sentir que vai existir amanhã.

E quando você sentir essa vontade de estabilidade, reconheça: está tudo bem.

Isso não significa fracasso.

Não significa jogar tudo fora.

Não significa que você errou.

Significa só que o seu corpo precisa de menos mudanças.

E, às vezes, menos mudanças no longo prazo exigem uma grande mudança agora.

Trocar de nicho, de mercado, de modelo de negócio.

Encerrar um produto.

Demitir alguém.

Tirar um ano sabático.

Nada disso invalida o que você construiu.

Nada.

Muito pelo o contrário.

Está tudo bem querer outra coisa.

Está tudo bem querer estabilidade.

Está tudo bem mudar.

Está tudo bem parar.

Está tudo bem descansar.

Desde que você esteja bem (e tenha se planejado pra tal).

É possível querer grandes mudanças e ao mesmo tempo não querer fazer as coisas necessárias para mudar.

Beijos de uma ex concurseira que ama adrenalina mas também gosta de um 13º

Mari Fernandes

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·