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Carta 160

Jaqueta de Couro

A epopeia courina: como o universo conspirou a favor depois de uma compra enganosa em feira de artesanato.

Reflexões duvidosas

BUENAS TARDES, MARAVILHOSA, COMO A SENHORITA ESTÁ?

Eu chego sendo exaltada pelo universo.

Primeiro precisei ser humilhada, mas os dias de glória chegaram.

A carta de hoje é para te trazer esperança.

Esperança de que, não importa quão xoxa, capenga ou manca você esteja, o universo pode conspirar a seu favor.

Já aviso que falaremos sobre um tema totalmente irrelevante que, quem sabe, talvez não tenha nenhuma relação com negócios.

Mas, como se chama Cartas DA MARI, eu vou me dar a licença poética de compartilhar com vocês essa vitória.

Vamos aos fatos:

Se você me acompanha no insta, deve ter visto sobre a consultoria de imagem que eu fiz e também minha saga para gerenciar essa nova parte da minha existência: looks para eventos.

Vejam bem, que ironia.

Bom, eis que eu, como boa nerd que sou, não tenho muita predisposição pra fazer algo sem aprender sobre ele.

Então, desde que montar looks específicos para eventos específicos se tornou parte do meu trabalho, eu tenho estudado moda, tecidos — tudo que uma feminista de carteirinha sempre sonhou em aprender (só que não).

Organizei todas as minhas peças num Notion e comecei o inventário do meu acervo.

Eu também odeio desperdício de dinheiro e ineficiência, por isso comecei a entrar na obsessão super saudável de montar um novo guarda-roupa com a maior otimização possível.

Ou seja: com peças que combinam com tudo que eu já tenho e que montam looks para o frio, para o calor, para o gelo polar, para uma palestra recheada de sapatênis ou um happy hour com minhas mentoradas.

E uma das coisas que faltava para completar meu acervo era: uma jaqueta de couro.

Não qualquer uma. Mas uma curta, com ombreira e que fosse BRANCA (como você pode ver, eu sou bem específica em meus desejos).

Não sei se você sabe, mas quando eu faço uma compra pensada, eu só aceito comprar um item que cumpra TODOS os requisitos. Se não, pra mim é dinheiro jogado fora.

Eis que fui com o Sr. Fluido numa feira de artesanato beeem grande aqui em Brasília, com produtores de todos os estados.

De repente, o Santo Graal das minhas buscas me aparece bem diante dos olhos.

Em letras garrafais:

JAQUETAS DE COURO

Logo acima de umas cinco fileiras de jaquetas ocupando todas as paredes, do teto ao chão.

Não tive dúvida. Me embrenhei na loja e pedi:

“Quero uma jaqueta branca, curta e justa.”

O vendedor separou os modelos. Tinham só dois que atendiam aos meus requisitos.

Experimentei: uma ficou justa demais. A outra: PERFEITA.

Pronto. Amei.

Sr. Fluido (que é ainda menos impulsivo que eu) me olhou:

“Tem certeza, amor?”

Confirmei o preço com o vendedor e não sobrou ao Sr. Fluido outra reação a não ser:

“TEEEEEM CERTEZA?”

Ele, coitado, não tem noção de quantos dígitos custa uma jaqueta de couro.

Como eu sabia que a danada me renderia dezenas de looks, falei:

“Vou levar.”

A vendedora claramente estava contando com a comissão pra algo muito importante, tamanha a felicidade da garota.

Pois muito que bem.

Volto pra casa com minha jaqueta, penduro na arara e fico ali, admirando a querida.

Me imaginei em todos os cenários com a minha mais nova aquisição.

Fui fazer a tal da consultoria de imagem que falei nos stories e mostrei minha mais nova conquista: a belíssima jaqueta.

A consultora falou:

“Mas… desse preço?”

Eu: pois é, também achei estranho.

Fomos caçar etiquetas e TCHARAM:

A danada NÃO ERA de couro.

Era do mais puro PLÁSTICO.

Sim. Minha mais nova aquisição era uma farsa.

Fiquei embucetada da vida, pensando em todos aqueles dígitos… mas já era.

A feira já tinha se deslocado pra outra cidade e eu jamais reaveria minhas economias.

Bom, aceitei o destino e comecei a usar a querida. Belíssima. Lindíssima. Porém, ordinária.

Passei semanas remoendo minha idiotice. Refazendo o diálogo com a vendedora.

Ela me disse VÁRIAS VEZES:

“SIIIM, é couro legítimo!”

Eu, deslumbrada pelo objeto branco, acreditei.

Afinal, é uma feira muito famosa pela qualidade dos fornecedores.

Bom. Mais uma derrota pra conta da portadora de CNPJ.

Mas o destino tinha outros planos.

Algumas semanas depois fui visitar um dos meus brechós favoritos. Tinha alguns meses que eu não passava lá.

As vendedoras todas já me conhecem de nome.

Assim que entrei, uma delas disse:

“Tem peça que chegou essa semana aqui nessa arara.”

Fui na bendita arara. Passei peça por peça e achei algo que parecia ser uma jaqueta belíssima réplica de couro.

Olhei a etiqueta de preço: 72 reais.

Claro que não era couro.

Uma jaqueta daquelas condições, nova, seria pelo menos uns 700 reais. Uma usada estaria perto dos 400.

72 reais? Só podia ser plástico.

Bom, como achei belíssima, decidi experimentar.

Junto dela, repousava um sobretudo que também imitava couro. Belíssimo. Esse já por singelos 150 dinheiros.

Imitação bem realista, mas também: não seria legítimo nem aqui, nem na China (que, inclusive, era a origem da jaqueta branca ordinária que comprei antes).

Mais pra frente da arara, me deparo com uma terceira jaqueta. Réplica de couro claro, muito macio, tão macio que falei:

“Gente, se me dissessem que é pelica, eu acreditava. Bela imitação.”

90 dinheiros.

Peguei as três peças e fui experimentar. Todas me caíram PERFEITAMENTE bem.

Parêntese necessário:

Eu tenho 1,59m. Sei que não parece, mas sim, eu sou bem baixinha.

Achar peças que fiquem com bom caimento em mim, principalmente essas mais estruturadas, não é fácil.

82% das vezes eu fico parecendo o Didi Mocó com terno branco de ombreiras.

Essas, porém, deviam pertencer a uma senhora exatamente nas minhas dimensões.

Sem sobrar, sem faltar, sem agarrar nos braços. Sabe?

Aquilo era um milagre divino. Todas estavam exatamente nas proporções do meu corpo (sim, eu também estudei esse caralho).

Pensei:

“Olha, que belas imitações de couro. São lindas, combinam com tudo que tenho.

Mas como não são de couro, não vão durar 30, 40 anos. Será que vale a pena?”

Parêntese 2:

Peças de couro duram literalmente DÉCADAS.

Uma das heranças familiares que tenho é uma jaqueta preta belíssima que era da minha avó, quando ela era jovem nas baladas da vida.

Minha avó tem mais de 80 ANOS e a danada (da jaqueta, embora sirva pra minha vó também) segue IMPECAVELMENTE PERFEITA.

Coisas feitas pra durar ganham meu coração.

Mas não era o caso ali. Claramente eram imitações que repousavam na arara.

Três peças. Menos de 300 reais. Belíssimas.

Tirei foto. Consultei meu acervo no Notion. Pedi pro ChatGPT criar alguns looks, e a resposta dele não podia ser mais enfática:

“TODAS AS PEÇAS CASAM PERFEITAMENTE COM O ESTILO QUE VOCÊ VEM CONSTRUINDO.”

(Um belo de um baba ovários, vamos combinar, mas ainda assim valia a pena ouvi-lo.)

Pensei: ok, vou levar. Amei. São lindas. Eu amo jaquetas, amo terceira peça e, mesmo não sendo de couro, elas vão durar bastante.

Entrego as peças pro caixa, ele começa a bipar tudo e PAUSA por um instante.

Momento dramático.

Ele faz uma cara quase de dor de barriga e me enuncia, com voz de pesar:

“Moça… temos um problema. O preço tá errado na etiqueta. Essa aqui é de couro legítimo.”

A jaqueta de 72 reais (que eu tinha CERTEZA ser uma imitação) ERA DE COURO.

Eu já tava feliz de levar a querida pra casa mesmo que ela fosse de plástico funbanga, mas agora, ela não só era uma jaqueta de couro, como custava 3x menos do que eu achava que valeria.

A vendedora, coitada, não sabia onde enfiar a cara.

Ela pensou dois segundos e disse:

“Ok, o erro foi nosso. Vamos manter o valor da etiqueta.”

Eu, naquele momento, já me sentia vingada pelo universo.

Uma jaqueta de 70 dinheiros que eu já levaria mesmo sendo de plástico, agora se revelava uma legítima descendente dos bovinos.

Realeza.

Passei as outras peças também, essas com os preços corretos, segundo as etiquetas.

Vim pra casa saltitante com:

  • meu sobretudo de couro mentiroso
  • a jaqueta molinha que fingia ser pelica
  • e a jaqueta de couro legítimo

300 dinheiros.

A vida já estava boa nesse momento.

Mas o mundo quis me recompensar ainda mais.

Cheguei em casa, fui averiguar com mais detalhes as demais peças.

O sobretudo também queria sair do armário: o querido tinha uma ETIQUETA DE TODO TAMANHO atestando a legitimidade do couro.

Meu Deus, o universo me ama.

Eu tinha trazido pra casa não uma, mas duas jaquetas de couro.

Obrigada, vacas.

Fui averiguar a terceira, aquela que imitava um couro bem molinho e delicado.

Estava ainda com todas as etiquetas originais, botões sobressalentes, não tinha sido usada.

Mas a etiqueta estava em alguma língua asiática.

Usei meu belo ChatGPT e descobri mais uma surpresa:

Mais um chá revelação:

SIM. A QUERIDA ERA DE COURO.

E couro de cabra.

Um couro molinho, liso, aconchegante, que duraria décadas.

Meu Deus.

Meus anos sendo vegana estavam me recompensando.

As vacas realmente pareciam querer o meu bem.

Pesquisei mais um tico e descobri a loja da querida.

Logo abaixo, o preço da original:

MAIS DE DOIS MIL FUCKING REAIS.

Sim, minha senhora.

EU AGORA ESTAVA NO CÉU.

A deusa dos couros ouviu meu lamento e decidiu me recompensar.

Eu tinha agora um belíssimo acervo:

  • a tão desejada jaqueta branca (plástica, porém bela)
  • e mais três jaquetas BELÍSSIMAS DE COURO PURÍSSIMO

Todos os dinheiros juntos dessas quatro peças não deram nem um QUINTO do que eu gastaria se soubesse que elas eram de couro.

Sim, eu não sei se você sabe, mas aparentemente pele de vaca é um troço que nunca desvaloriza e que custa os olhos da cara (ou o couro da vaca, no caso).

Pesquisei 89 vezes: no Gemini, no ChatGPT, mandei vídeo pras entendidas de couro, li e reli as etiquetas 50 vezes.

Era isso mesmo.

Eu comprei por muitos dinheiros uma jaqueta bela porém ordinária, achando que ela duraria décadas…

Passei semanas me sentindo uma trouxa por ter caído no papo da vendedora.

E num dia qualquer, sou agraciada com TRÊS OUTRAS JAQUETAS legitimíssimas — ainda por cima com o preço errado, PRA MENOS.

Obrigada, universo.

Bom, agora você deve estar pensando: “Caraca, a Mari é sortuda, né? O universo realmente gosta dessa mulher.”

Pois ouça essa:

Quando descobri que a jaqueta branca era de PLÁSTICO (daqueles que, em semanas de seca, vão esfarelar e se desintegrar tal qual uma sacola biodegradável),

o ódio de ser enganada me possuiu por alguns dias.

Comecei a caçar todas as pistas possíveis para encontrar a tal loja da feira que me passou a perna.

Lembra: era uma feira nacional, que roda de estado em estado. Os stands são despersonalizados, você não sabe de que marca está comprando. É tudo meio que uma grande multiloja ambulante, sacou?

A feira já estava em outro estado. Eu não tinha cartão do stand. Nem a sacola de compra tinha marca ou algum contato.

Mas o ódio nos leva a lugares maravilhosos.

Achei o perfil do Instagram da feira. Entrei no link da bio. Achei um site.

No site: NENHUM telefone de contato.

Fuçando, fuçando, fuçando, no rodapé do site achei o nome da agência que fez o site.

Achei o site da agência.

Pesquisei o CNPJ da agência.

Achei o nome do sócio.

Procurei o nome do sócio na internet, mandei mensagem pra meio mundo e, adivinhem?

Achei o WhatsApp do dono da loja.

O sócio. Proprietário. O DONO DE TUDO.

Juntei toda minha frustração e escrevi:

Expliquei que achava um absurdo ele vender jaquetas de plástico dizendo que eram de couro. Que aquilo era uma palha assada. Que eu queria meu reembolso.

Eu sabia que não ia conseguir nada (nem nota fiscal eu tinha). Mas precisava despejar a frustração da jaqueta não alcançada em algum lugar.

Esperei uma resposta grosseira e ríspida.

Para a surpresa de um total de uma pessoa (eu), não foi isso que aconteceu:

O sócio me respondeu educadíssimo.

Contou que, a cada cidade da feira, eles contratam uma equipe local de vendedores, e que, em Brasília especificamente, ele tem uma equipe mais fixa.

Mas que, no dia anterior à feira, um dos vendedores teve um problema e ele precisou pegar um freela.

Esse cara nunca tinha sido treinado. Nunca tinha trabalhado com a marca.

Só que não dava pra deixar o restante da equipe sobrecarregada.

O negócio é que: sim, eles vendem jaquetas de couro verdadeiro. Mas também vendem jaquetas que imitam couro.

O bendito vendedor misturou tudo na arara.

Jaquetas de couro caríssimas e jaquetas de plástico esfarelento que não deveriam ser caríssimas assim.

Não sabemos se foi má-fé ou falta de treinamento.

Mas fato é que a bendita da vendedora me falou 98 vezes que o troço era couro.

E eu comprei.

Ele se desculpou imensamente e disse:

“Se você for empresária, vai entender: é difícil treinar mão de obra em vendas.”

Meu Deus. Quando ele falou isso, meu coração de gestão apenas derreteu.

Eu, que vejo todos os dias os perrengues que minhas mentoradas vivem com equipe de vendas…

Eu, que sei como é desafiador fazer bons treinamentos…

Me compadeci.

Um pobi empresário.

(Nesse momento, quase me converti ao Partido Novo e fui abraçar o véio da Havan, tamanha a empatia com o empresariado brasileiro.)

A comoção já tava feita. Ele já tinha me convencido que não tinha culpa.

E aí ele solta:

“Vou te mandar as fotos dos modelos de couro legítimo que temos, você escolhe a que quiser e eu mando entregar. O erro foi nosso. Vamos corrigir.”

CABÔ.

Matou a empresária.

Ganhou meu coração.

Destruiu toda a minha raiva.

Me conquistou pra todo o sempre.

Se tem uma coisa que eu AMO são empresas que reconhecem seus erros e NÃO DEIXAM o cliente sair insatisfeito.

Pronto.

Mais uma descendente bovina vindo parar no meu acervo.

Eu comprei a jaqueta branca esfarelenta por muito mais dígitos do que ela valia.

Mas o universo resolveu me recompensar.

Não com um reembolso.

Não com um pedido de desculpas.

Não com um bombom de arrependimento.

Mas sim com QUATRO OUTRAS JAQUETINHAS BELÍSSIMAS por um valor menor do que UM QUINTO do que eu gastaria pra comprá-las se soubesse que eram de couro.

Sim, é isso mesmo que você ouviu.

Comprei uma fajuta. Ganhei quatro verdadeiras.

Os dias de glória chegaram.

Agora, você deve estar se perguntando:

“Tá. Mas o que essa carta tem pra me ensinar sobre gestão e negócios?”

Vou te responder:

Nada.

Absolutamente nada.

Eu só quis dividir com vocês essa epopeia courina que vivi nos últimos dias.

Então, se você ficou aqui nessa carta esperando aprender algo… eu vou ter que estar te decepcionando.

Faltam duas semanas pro Natal, então a gente pode pegar leve no aprendizado, num pode não?

Podemos só falar de amenidades e dar umas boas gargalhadas juntas?

Podemos.

Esse é o propósito da carta de hoje.

Te entreter com um ensaio de 18 laudas sobre jaquetas de couro.

Bem-vindas à minha cabeça.

OBS¹: Quando você me ver por aí desfilando com belas jaquetas, saiba que eu estou me sentindo belíssima e abençoada. Fique à vontade para me elogiar.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·