Carta 153
Face de Ân*s
Uma mulher com cara de ânus no esporte novo virou aula sobre o que acontece quando outra mulher decide ser o oposto da Xuxa — e por que ainda somos inimigas umas das outras quando deveríamos ser aliadas.
Buenas tardes, maravilhosa.
Como a senhorita chega hoje?
Eu chego pedindo licença poética para falar de fofocas.
Uma daquelas boas, com gosto de bastidor, recheada de desconforto e, como sempre, com uma moral no final.
Mas antes de tudo, aviso: não darei nomes.
Os bois envolvidos vão permanecer anônimos.
Porém, se você for esperta ( se você acompanha nosso Instagram )talvez ligue os pontos.
Pois bem.
Comecei a praticar um novo esporte.
Ninguém sabe qual.
O que importa aqui é: é um esporte deveras dificil
E não é exatamente o tipo de atividade física que mulheres são incentivadas a fazer desde pequenas.
Comecei ali quietinha, na minha.
Hoje foi minha 14ª ou 15ª aula, o que dá mais ou menos uns dois meses.
Cheguei como iniciante, claro.
Com altíssimas expectativas totalmente impostas por mim mesma de : quero ficar boa nessa poha.
Eu tenho esse belo (ou péssimo) traço : se eu encasqueto com um trem novo, eu quero ficar ótima cabulosa profissional no trem novo (Freud explica) .
Bom, logo nas primeiras aulas, fui colocada numa turma composta majoritariamente por homis.
Nada que me fosse um grande problema por motivos de: eu já fui forjada nessa.
Toda santa mulher sabe o que esperar de um espaço composto apenas por muita testosterona e suor.
Além disso eu tenho uma arma secreta: amo o prazer de surpreender homens que me subestimam.
Gente é uma delicinha.
Porque apesar da minha diminuta estatura, eu zero modéstia a parte sou bem boa em esportes.
Mas não foi com os homens que eu tive problema, veja só que bela bosta.
Algumas aulas depois, apareceu uma mulher.
E eu, iludida, pensei: ufa.
**Agora sim. **
Entrei na aula, dei bom dia pra turma.
Olhei pra ela com aquele brilho no olho de “bora galera mulheres”.
Ela olhou pra mim com a cara mais azeda que você pode imaginar.
Nem respondeu o bom dia.
Eu, otimista, ou trouxa pensei: talvez ela seja tímida.
Talvez não tenha me ouvido. Talvez ache que o bom dia era pra outra pessoa.
Mas conforme as aulas foram acontecendo, percebi que não era isso.
A cara azeda continuava.
A cada bola mal jogada por mim, ela largava a bola no chão com um olhar muito peculiar
**Digno de prega anal. **
Eu quase podia sentir com as mãos a textura do bendito.
De início, fiquei me questionando: será que fiz algo? Será que sou tão perna de pau a ponto de merecer essa face de ânus em minha direção?
E ai que vem o plottwist.
Comecei a notar a postura da bendita com os homis.
Era toda abraços e sorrisos.
A dita cuja que chamaremos de Xuxa se transformava em outra pessoa.
Ria, fazia piada, dava bom dia, puxava assunto, chamava pelo apelido, dava tapinha no ombro.
Uma simpatia.
E comigo? A face anal permanecia.
Foi aí que eu entendi: Xuxa, a pobi xuxa caiu no conto do patriarcado.
Ela foi convecida que mulheres não são tão dignas de atenção assim.
E que legais mesmo, são os homens.
Só sei que, ao invés de tornar minha entrada naquele espaço mais leve, mais segura, mais legal, ela decidiu que ser uma xarope desagradável seria a melhor forma de criar relações com a única outra mulher da turma dela.
E aí eu te pergunto: quantas vezes você já viveu isso?
Quantas vezes você entrou num ambiente novo, cheia de medo, cheia de vontade de aprender, e ao invés de encontrar uma aliada, encontrou uma mulher pronta para tornar sua vida uma sucursal do inferno?
Pois bem.
Um dia, voltei pra aula depois de duas semanas fora.
E adivinha?
Turma nova.
Professor dividiu as duplas e me colocou logo com quem?
Com Xuxa, claro.
O benção.
Como de praxe, joguei a bola para a abençoada e advinha?
Cara de cool.
Não sei se naquele dia a minha TPM resolveu dar o ar da graça, mas fato que algo dentro de minha pessoa se emputeceu e resolvi revidar.
Na primeira cara torta que ela fez, eu virei e falei bem alto:
“O quê que foi?”
todos os olhos se viraram para ela NA HORA.
A pobi congelou, ela não esperava que eu fosse denunciar a cara de cool com a qual ela me olhava a cada passe.
O constrangimento dela foi visível.
Vi na hora o nascimento de um novo divertidamente : a vergonha.
Era palpável o constrangimento de ter sido exposta na frente de todo mundo.
Meu lado malévola, cofesso, bateu palminhas.
Bom, mas a parte mais importante vem agora.
Nesse mesmo dia, entrou uma mulher nova na turma.
Ela, como eu a alguns meses atrás, nunca tinha jogado esse trem na vida. 100% iniciante.
Como o espírito ragatanga da TPM havia me possuído, entrei em uma missão pessoal de constranger ainda mais a face de ânus.
Pensei “hum, o que seria uma forma bem didática de mostrar que ela poderia ter sido muito menos cuzona comigo?”
A respsota veio:
Eu vou fazer com essa aluna nova o que ela, se quisesse, poderia ter feito comigo.
“Essa mulher pode ter duas experiências. A experiência que eu tive com a Xuxa. Ou a experiência oposta.”
E foi aí que eu decidi: eu não seria Xuxa.
Eu seria o oposto da Xuxa.
Eu que nem sou veterana, mas sei mais do que ela sabe agora.
Eu que, semanas antes, era também uma iniciante ansiando por uma cumplicidade feminina.
Fui até a novata e decidi: “tu vai ser minha protegida hoje”
Passei os outros 60 minutos da aula fazendo tudo que achava que a face de anus poderia ter feito comigo.
Ou melhor o que eu GOSTARIA que mulheres fizessem umas com as outras.
Orientei ela em cada parte da aula.
Gritei dezenas de vezes *“uhul, ahazou” *
“vai por aqui ó”
“isso, é desse jeito”
E em poucos minutos, o clima da aula mudou completamente.
A atmosfera carregada foi substituída por “BORA GALERA MULHERES”.
O ambiente, que era um cu, virou acolhimento.
E sabe quem não participou de nada disso?
**A Xuxa, claro. **
Que assistia tudo em silêncio, talvez pela primeira vez se dando conta de que era possível fazer diferente.
Essa poderia ser uma carta apenas para eu expressas minha indignação frente as mulheres que ainda não aprenderam a colaborar.
Ou somente uma catarse da minha infantil raiva de uma celeuma infantil por conta de uma bola.
Porém para não depor tanto contra a minha pessoa, eu quero fazer uma reflexão construtiva:
Nem todas as mulheres estão prontas para deixar de ser Xuxa.
Nem todas as mulheres entenderam que a gente não é inimiga uma da outra.
Nem todas conseguiram soltar o vício de buscar aprovação masculina a qualquer custo.
Mas sabe o que você pode fazer?
Você pode escolher não ser Xuxa.
Você pode escolher criar um ambiente melhor para a próxima mulher que chegar.
Você pode ser aquela que facilita a vida da outa pobi mulher que acabou de chegar.
Você pode fazer o que ninguém fez por você.
E eu gosto de pensar que talvez… essa mulher nova que entrou na aula e recebeu apoio de mim vai querer fazer exatamente isso: incentivar uma a outra, só porque antes de qualquer coisa, somos mulheres.
Quem sabe assim aos poucos, a gente substitui cada Xuxa por uma vilã de Xuxa.
E se um dia você foi uma Xuxa, tudo bem.
Espero que hoje você esteja mais do outro lado.
E se ainda for, espero de coração que essa carta te faça refletir.
Ou pelo menos, que te faça tomar vergonha na cara e parar de fazer cara de ânus para outras mulheres.