Carta 152
Ácido úrico
Marcar território é uma arte que cachorros dominam melhor do que a maioria das empresárias: um documento impecável abriu portas inesperadas e virou um pitch espontâneo sobre o valor de assinar o próprio trabalho.
Buenas tardes, maravilhosa.
Como a senhorita chega nessa sexta-feira?
Eu tô chegando com uma história que envolve postes e urina… e por mais improvável que pareça, sim, ela vai fazer sentido.
Confie em mim, como sempre.
Essa semana fui atender uma empresa que atende uma das empresas das quais eu sou conselheira. E, como você já sabe, o trabalho de conselheira não é só sentar numa cadeirinha chique e dar pitaco baseado em vozes da cachola.
Existe uma cacetada de trabalho de bastidor.
E um deles é: escrever os troços que eu oriento as empresas a fazerem.
Na prática: se vai entrar alguém novo na equipe, a gente cria um descritivo de cargo.
Se vai começar o treinamento de um funcionário, criamos um cronograma.
Se vamos acompanhar as métricas comerciais, vem dashboard.
Ou seja: aqui na Fluida a gente vive fazendo documento.
E por que a gente documenta tudo? Porque documento é gestão.
Não dá pra depender de memória, de “alguém me falou”, de “lembra que a Mariana comentou isso?”
Então, se você quer uma empresa onde as coisas funcionem do jeito que você decidiu, minha filha, você precisa escrever.
Documentar. Registrar.
Pois bem.
Fui eu, feliz e saltitante, fazer uma reunião com uma dessas empresas terceirizadas.
Achei que seria coisa rápida: a moça queria tirar umas dúvidas sobre uma documentação que eu tinha enviado.
Dez minutinhos e pronto.
Mas ela me pede uma vídeo-chamada.
Eu, aceitei.
Marcamos a vídeo chamada e assim que as câmeras aparecem a primeira coisa que ela me pergunta:
“Antes de tudo, eu queria entender o seu trabalho.”
Fiquei sem entender por que raios ela queria saber do MEU trabalho, se estávamos ali para resolver o problema de uma empresa que eu não sou a dona, sou a Conselheira.
Como não entendi patavinas, eu fiz aquela cara de quem não entendeu e ela prontamente respondeu a minha face de dúvida:
“Porque nenhum dos nossos clientes nunca entregou uma documentação como essa que você fez. E eu queria entender quem é você, o que você faz, como funciona o seu trabalho.”
Entendi.
Ou seja, acompanha comigo, eu teoricamente fui chamada para orientar um stakeholder sobre o planejamento de uma das empresas que aconselho, mas na real eu acabei sendo convidada para fazer um pitch do meu trabalho.
E tudo isso por causa de um documento.
Um papel.
Uma página.
Um bendito Notion com texto, contexto e instrução.
Mas tem um detalhe: nele estava estampado o meu nomezinho.
Eu podia ter feito o danado do documento e ninguém sequer saber que ele era meu.
Mas ela soube.
E só soube por que eu fiz questão de deixar isso claro.
Mesmo num documento que teoricamente seria usado só internamente na empresa.
E o ponto tá ai.
TEORICAMENTE.
Por que eu estou te contando tudo isso?
Pensa comigo: quantas vezes você ficou pensando que um trem que você faz NIGUÉM ESTAVA VENDO?
E que talvez nem valia a pena ser tão perfeita maravilhosa, por que NINGUEM VAI VER MESMO.
Talvez a senhorita esteja se orientando pela média do que os OUTROS fazem.
E se tem uma coisa que eu preciso te dizer hoje, agora, com todas as letras é: pare de usar a régua dos outros.
A régua dos outros tá cheia de erro de cálculo.
A régua dos outros tá cheia de plaquinha de faturamento que esconde caixa negativo
Talvez você esteja achando que tá exagerando, que tá fazendo demais, que tá entregando mais do que deveria.
E eu quero te lembrar que talvez você só esteja fazendo o que precisa ser feito.
O que deveria ser o básico, mas que virou extraordinário simplesmente porque ninguém mais tem coragem ou paciência de fazer.
Sim, dá trabalho.
Sim, toma tempo.
Sim, tem gente que vai dizer que não precisa.
Mas adivinha?
Quando você menos imagina TEM ALGUÉM VENDO.
E é aí que entram os cachorros.
E os postes.
Sim, agora chegou a parte da urina.
O que os cachorros fazem quando querem marcar território?
Isso mesmo.
Eles mijam no post.
Você precisa mijar mais nos seus.
Porque senão alguém vai fazer isso por você.
Vai pegar o seu trabalho.
Vai usar o seu conteúdo.
Vai copiar o seu processo.
E você vai ficar aí se perguntando por que ninguém te reconhece.
Sabe por quê?
Porque você mesma não colocou o seu nome.
Você mesma não deixou claro que aquilo é seu.
Você fez a coisa linda, perfeita, maravilhosa… mas ficou com medo de parecer metida.
Ficou com vergonha de colocar sua assinatura.
Ficou com receio de alguém achar que você tá se achando.
E aí, minha filha, o mundo que lute pra adivinhar que foi você.
Então, vamos alinhar umas coisas aqui, entre nós:
- Quando você criar uma planilha, escreva lá que é sua.
- Quando você apresentar uma ideia, diga que é sua.
- Quando você desenvolver um produto, registre que é seu.
- Quando você montar um treinamento, fale para todo mundo que ele nasceu da sua cabeça.
Você pode ter medo de parecer arrogante, mas pior que parecer arrogante é ser invisível.
A mulherada tem um talento extraordinário pra se esconder.
Apaga o nome, esconde a autoria, diminui o feito.
E depois fica esperando reconhecimento.
Reconhecimento é construído, minha filha.
Tem que dar a sua mijada
Então, fica aqui a lembrança da carta de hoje:
-
Faça o que precisa ser feito. Mesmo que ninguém mais esteja fazendo.
-
Mije nos postes que forem seus
E da próxima vez que você se perguntar por que fulana tá bombando com um trabalho meia boca, lembre-se: talvez ela só tenha mijado onde você teve vergonha de se assumir sua autoria.
Boa sexta.
Vai lá marcar teu território.