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Carta 147

Filhos da Put*

Um posicionamento sobre democracia, diversidade política e a linha que separa divergência legítima de intolerância — e por que a condenação do ex-presidente por tentativa de golpe importa.

Reflexões duvidosas

Buenas noites, maravilhosas.

Como as senhoritas chegam no dia de hoje?

A carta de hoje é um alinhamento.

Um processo que gosto de fazer de tempos em tempos sobre quem eu sou, o que eu acredito e o que eu defendo.

Eu trabalho num universo onde se posicionar traz lá seus prejuízos e por isso muita gente vai preferir ficar em cima do muro.

Se essa pessoa é uma mulher, ela tem meu pano rosa pronto para ser passado.

Eu entendo todas que temem se posicionar publicamente sobre temas espinhosos.

Não só entendo como acolho, abraço, e essas mulheres têm um aconchego debaixo do meu braço: eu sei como vocês podem se sentir incoerentes, como temem se perder de vocês mesmas e como frequentemente analisam se não estão se tornando “gurus de sapatênis” que só comunicam aquilo que lhes trará vantagem, ainda que pra isso precisem passar por cima das coisas que acreditam.

Eu entendo você e queria que você soubesse: tá tudo bem esconder certas coisas que você acredita para não prejudicar os pagamentos dos seus boletos. Tá tudo bem.

E talvez justamente por saber quantas mulheres precisam ser mais caladas do que gostariam, de vez em quando eu sinto quase que uma obrigação de falar por tantas que não podem falar.

E hoje então falarei por elas, mas principalmente por mim.

Eu posso correr alguns riscos de imagem, e mais do que isso, gosto de preservar a mim mesma a possibilidade de ser quem eu sou, e talvez por isso eu tenha construído com vocês uma relação de tanta transparência e confiança.

Mesmo com aquelas que não têm a mesma visão de mundo que eu.

Quero que aqui a gente possa ser quem somos, falar o que acreditamos e, junto de tudo isso, continuar trabalhando juntas na gestão da sua PJ para que você tenha uma PF que vale a pena ser vivida.

Justamente por isso eu quero que você saiba quem eu sou.

Que você concorde ou discorde de mim, mas que você saiba que aqui você sempre vai encontrar a verdade.

E que eu não vou omitir o que sou, o que acredito só para você gostar de mim.

Eu quero que você goste do que fazemos aqui porque você gosta de gente assim: de verdade.

Então vamos à verdade.

Estamos vivendo um momento na história brasileira sem precedentes.

Ontem, um ex-presidente foi condenado por, no português claro, planejar um golpe de estado.

E o que isso tem a ver com quem sou, e o que fazemos aqui na Fluida?

Eu vejo meu trabalho como tendo dois objetivos:

  1. me dar a vida que eu quero ter

  2. ajudar outras pessoas a terem a vida que elas querem também

E existe uma classe de pessoas que tornam o objetivo 2 mais fácil para todo mundo: mulheres.

E quando elas são empresárias, elas fazem isso ainda mais.

Mulheres são excelentes distribuidoras de renda e ótimas ferramentas de ascensão social.

Mulheres com dinheiro enriquecem o seu entorno e por isso, eu quero que mulheres enriqueçam.

Outro grupo que, quando quer, faz isso também, são os empresários.

Se aprendermos a fazer riqueza, podemos distribuí-la.

Mulheres empresárias então são, racionalmente, a escolha certeira para melhorarmos mais rápido esse mundo.

Ainda que eu não fosse emocionalmente ligada a esses dois universos, se eu usasse apenas a racionalidade, eu deveria escolher as mulheres como alvo do meu trabalho se quisesse acelerar a transformação social que acredito que esse mundo precisa.

E por isso, eu gasto 80% do meu tempo ajudando mulheres empresárias a terem empresas mais lucrativas enquanto vivem uma vida foda.

“Mas Mari, então você nunca, jamais usa seu conhecimento para ajudar empresas que não são criadas por mulheres, né?”

Eu uso sim.

Frequentemente empresas mistas procuram o meu trabalho em gestão para criarem planejamentos estratégicos, treinar seus times de líderes e aconselhar os seus executivos

E uso todo o meu conhecimento para impulsionar também essas consultorias.

Eu faço parte dos conselhos, tenho reuniões com sócios homens e mulheres, crio planejamentos, desenho organogramas…

Esse é um trabalho que vocês quase não veem acontecendo no nosso Instagram, e refletindo agora acho que deveria compartilhar mais isso com vocês.

São empresas que não necessariamente são compostas só por mulheres.

Mas que acreditam na minha visão empresarial, e principalmente na minha visão como conselheira.

Mas existe um denominador comum entre todo mundo que eu atendo.

Sejam as deusas maravilhosas faraônicas mentoradas da Vênus, sejam as empresas mistas que eu atendo corporativamente.

Eu não trabalho com filho da puta.

Simples assim.

As pessoas que eu escolho trabalhar precisam ser pessoas com as quais eu me relacionaria para além do dinheiro.

Eu não estou dizendo que você tem que fazer isso, na verdade, eu tendo um tico de poder de influência nas suas decisões, devo te aconselhar a não ser tão ferrenha nas suas posições como eu sou.

Não é para todo mundo.

E o que eu quero dizer por “filho da puta”?

Vamos destrinchar esse conceito:

  • gente que humilha os outros
  • pessoas que são antiéticas
  • que passam a perna nos outros
  • que colocam dinheiro e poder acima de tudo
  • que têm visões tão extremadas do mundo que não conseguem conceber a existência de quem pensa diferente

Poderia continuar explicando para você, mas acho que você já entendeu.

eu atendo empresas que não são compostas apenas por mulheres, que têm em seus quadros societários pessoas que não se identificam com o termo “feminista”, que politicamente estão muito mais à direita do que eu.

Mas todas elas se enquadram na categoria

“não filho da puta”.

Existe uma diferença enorme entre posicionamento político e caráter.

Não são a mesma coisa.

Eu dou treinamentos, entrego planejamentos para empresas que politicamente sempre apertaram nas urnas números diferentes dos meus.

Mas essas pessoas não são filhas da puta.

Ou seja, democracia é esse sistema imperfeito que diz “ó, a gente não vai concordar em tudo, então vamos tentar viver de boa?”

É assim que eu enxergo o meu trabalho.

Muitas mulheres já chegaram aqui dizendo “Mari, eu não acho que eu sou feminista, mas eu adoro o que você faz. Posso ser sua mentorada?”

Sócios que têm sócias já chegaram aqui dizendo “Mari, nosso quadro societário não é composto só por mulheres, mas a gente quer muito a sua visão estratégica. Será que você poderia prestar uma consultoria para nós?”

Eu sempre vou criar e ter espaços exclusivamente femininos, porque isso faz parte da minha missão pessoal.

Mas para todas essas pessoas, que se enquadram na categoria

“não filho da puta”

, a resposta é sim.

Vou prestar consultorias, dar treinamentos, criar planejamentos e analisar sua margem.

Desde que você não seja um filho da puta.

E é aí que entra o começo da nossa carta.

Nós, como Estado, estamos vivendo esse momento.

O momento de separar os filhos da puta dos não filhos da puta.

Nós queremos que todo mundo que não é um filho da puta possa falar suas ideias.

Que possamos discordar, debater, conversar e continuar em lados opostos.

Mas defender até o último segundo a possibilidade de existência do “outro lado”.

E filhos da puta não fazem isso.

Eles não permitem divergência.

Eles não aceitam as regras do jogo.

Eles querem criar o próprio jogo.

E essas pessoas não têm meu apoio.

E o ex-presidente é uma delas.

Então essa carta é um posicionamento e uma clarificação das minhas crenças.

Eu sou uma mulher que acredita na democracia, que acha que ela é a melhor imperfeição que conseguimos chegar como sociedade até agora.

Eu sou uma mulher, não sou religiosa, acredito que mulheres devem decidir sobre os próprios corpos, e não acredito em meritocracia — e eu consigo facilmente sentar na mesma mesa e trabalhar com líderes que vão à igreja todo domingo, leem a Bíblia todo dia e acreditam que a meritocracia é justa.

Eu consigo sentar com essas pessoas, criar planos juntas e alavancar as empresas dessas pessoas.

Discutimos sobre fontes de receita, formas de remuneração da equipe e produtos que serão criados.

E nós conseguimos fazer isso sem nos esfaquear.

Olha que coisa curiosa: dá para viver não só pacificamente, mas dá para criar coisas MARAVILHOSAS junto de pessoas que têm uma visão política diferente da sua.

Se eu faço isso com meus clientes corporativos, acredito que nós, como sociedade brasileira, também conseguimos.

Não é tão difícil assim.

E é por isso que a condenação de um ex-presidente por tentativa de golpe de Estado me enche de alegria.

Não sei se a palavra é só alegria, é quase como uma sensação de “uffa, talvez a gente tenha jeito”, quase como que um alívio.

Nós, como sociedade, fomos longe demais na intolerância aos divergentes.

E passamos da hora de voltar a agir como pessoas civilizadas.

E para isso precisaremos não separar quem pensa igual e quem pensa diferente de nós.

Mas sim, os filhos da puta dos não filhos da puta.

E de acordo com o julgamento de ontem o ex-presidente condenado se enquadra nos filhos da puta.

E filhos da puta são aqueles que usam seu poder para fazer prevalecer a sua visão de mundo.

Não para divulgá-la, mas para tornar criminosas todas as visões divergentes.

Existe um abismo

entre divergir politicamente e extirpar a existência de quem discorda de você.

Um golpe de Estado se enquadra na segunda categoria.

A justiça nem sempre é justa, os humanos nem sempre acertam e uma série de injustiças acontecerão no que chamamos de democracia.

Mas eu ainda vou continuar defendendo que, enquanto não temos nada melhor, essas são as regras do jogo.

As regras do jogo são: pense e deixe pensar.

E qualquer um que não as respeita tem que ser corrigido.

Ou, no caso de ontem: punido.

Não porque a punição individual resolva tudo, mas porque ela é um recado para todos: galera, a gente ainda acredita que, ainda que o resultado do jogo não nos beneficie, nós vamos seguir as regras que combinamos.

É um recado coletivo.

Assim como fazemos com a nossa equipe.

Ninguém precisa amar trabalhar na sua empresa e concordar com todas as regras.

Mas para permanecer dentro dela, as pessoas precisam seguir as regras coletivamente acordadas.

E destituir, mediante violência e poder bélico, um presidente eleito democraticamente não é algo dentro das regras o ex-presidente se enquadra na minha categoria de filhos da puta.

E todos aqueles que não estão nessa categoria, mesmo que divirjam de mim em trocentos aspectos terão espaço na minha vida, poderão beber do meu conhecimento e sentaremos juntos em mesas onde são criadas coisas magníficas.

Não porque eu os tolero, mas porque acredito que é exatamente isso que deveríamos construir como sociedade é desse mundo que eu tenho vontade de participar.

E é ele que eu tenho construído todos os dias.

E vou continuar construindo com todo mundo que acredita que divergir politicamente não é um problema. Que não só podemos, como DEVEMOS trabalhar juntos.

Exceto os filhos da puta.

Para eles estão reservadas as leis da nossa imperfeita, porém preciosa, democracia.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·