Carta 144
Imagem e Ação
Uma noite num escape room revelou o que adultos perderam: a capacidade de brincar. Uma reflexão sobre diversão, brincadeira e por que a vida de PJ não precisa ser tão sem graça.
Buenas tardes maravilhosa.
Como a senhorita chega no dia de hoje?
Eu chego querendo contar um troço que eu fiz ontem e que eu amei.
Já aviso que não tem absolutamente nada a ver com trabalho, business e negócio (mas no fim pode ser que tenha).
Primeiro preciso contextualizar.
Se você é dino Fluida, está acostumada já com as minhas comemorações de aniversário.
Para mim, estar mais um ano viva é uma puuuta coisa para comemorar. Eu AMO viver momentos felizes com as pessoas que eu amo.
Cada memória nova vivida eu sinto como se ela fosse para o meu acervo de felicidade (inclusive tem um livro muuuuuito bom que fala disso, que é o “Morra Sem Nada”. Recomendo absurdamente, e olha que foi um homem que escreveu).
Todo ano eu comemoro meu aniversário em um evento só com as minhas amigas.
Já teve micareta, piquenique, balada, pool party… Cada ano eu invento uma.
Esse ano, além da tradicional festa de maio, eu inventei um troço.
Eu queria garantir que tivesse mais experiências com as pessoas que eu amo.
Para isso eu bolei um tipo de presente diferente.
Eu criei um Google Forms (sim, esse mesmo que a gente usa para fazer funil de sessão estratégica) onde eu contava atividades que eu amaria fazer. Cada pessoa podia escolher uma atividade que eu gosto de fazer: desde andar de patins, tomar sol, ir para a cachoeira até jogar Imagem e Ação (entre outras coisas). E ela se comprometia a me dar uma daquelas experiências com ela até o meu próximo aniversário.
Eu invento muitas coisas, e uma assustadora parte das vezes as pessoas embarcam na minha.
E não é que essa aí também deu bom?
Semanas atrás eu recebi uma mensagem de uma amiga:
“Bicha, quero te dar seu presente de aniversário. Tá livre no dia tal? Mas é surpresa.”
Agendamos o dia tal.
Ela só disse:
“Roupas confortáveis, nada de salto.”
E ontem foi o tal do dia.
Ela chegou no QG da Fluida e me deu a notícia:
“Amiga, vou falar logo. Nós vamos num scape room.”
Pronto. Meu Deus, eu virei pinto no lixo imediatamente.
Eu nunca fui num troço desses, mas é o tipo de coisa que eu tenho CERTEZA que vou amar.
Lá fomos nós.
Se você nunca foi em um, vou te contar como é.
Você chega lá e escolhe uma das salas disponíveis.
Tem sala de vários temas. Os temas assustadores, sanguinolentos e violentos eu já dispensei de cara. A vida de uma dona de CNPJ já tem adrenalina o suficiente.
Escolhemos a do Harry Potter.
Você tem que deixar o celular e tudo mais guardado num armário do lado de fora.
Um funcionário te chama e põe você para ver um vídeo que explica o desafio que você vai ter que desvendar.
Até aqui eu estava achando que teria que fugir de criaturas assustadoras, pois escape room me remete à fuga. Mas não é NADA disso.
Você entra numa sala.
Em uma telinha logo na porta começa uma contagem regressiva.
60 minutos. Nessa hora você pensa: “Meu Deus do céu, UMA HORA aqui dentro não vai dar não.”
Mas assim que você vira para a sala a loucura começa.
A sala que estávamos era tipo uma sala de estar de época: cômodas, escrivaninhas, sofá, lareira, quadros, velas…
Você tem que sair buscando pistas e dicas de como resolver os enigmas na sala.
Achamos uma caixa com cadeado, uma lanterna que não acendia, um tablet, uma varinha, uns papéis esquisitos… E lá vamos nós.
Nos primeiros 15 minutos você se sente uma burra completa. Nada faz sentido.
Você tem uma caixa com um cadeado, mas não tem a chave.
Um livro que parece ter algo preso lá dentro, mas você não consegue abrir.
Umas poções mágicas coloridas.
O cronômetro correndo.
(Aqui venho fazer uma pausa: o jogo é para no mínimo 4 pessoas e nós fomos em duas. Ou seja, tínhamos, em nossa defesa, 2 cérebros a menos).
Depois de uns 15 minutos pedimos arrego. Usamos uma das dicas que temos direito. São no máximo 3.
Pegamos a dica 1 e ela parecia nos levar exatamente para o mesmo enigma que tínhamos acabado de resolver.
“Não faz sentido!”
Começa a insanidade.
“Amiga, essa cadeira aqui com certeza tem alguma coisa suspeita.”
“PASSA A MÃO AÍ NO BURACO DESSA PAREDE!”
Tudo, absolutamente tudo que é ‘normal” começa a parecer uma peça de um quebra-cabeça.
Você fica completamente desmiolada.
(Ah, detalhe: o recorde de time mais rápido foi 38 minutos na sala que estávamos. Antes de começar eu tinha CERTEZA que bateríamos fácil esse recorde).
A pobre.
O que se seguiu foi uma humilhação intelectual.
Usamos TODAS as dicas e ainda estávamos na METADE da porra dos enigmas.
Faltavam uns 10 minutos, já tinham passado 50, e o gosto de derrota já começou a bater em minha porta.
Junto com ele, uma necessidade ABSURDA de saber que DIACHO de resposta tinha o trem que a gente estava tentando resolver.
“Amiga, véi, ah não, vamos terminar essa porra. PENSA AMIGA, PENSA!”
“VELHO, NÃO, NÃO TÁ INDO DE JEITO NENHUM!”
“Ahhhh, PORRA DE CORUJA, FILHA DA PUTA!”
O cronômetro zera, e o cara do espaço bate em nossa porta.
“Meninas, acabou o tempo.”
Desespero, agonia.
“Moço, deixa a gente ficar mais. Tem como pagar para ficar mais tempo? Pelo amor de Deus, quanto é?”
Ele inunda meu coração de esperança e diz:
“Sim, tem como.”
Nesse momento eu nem queria saber se eram 15 ou 500 reais.
EU SÓ QUERIA TERMINAR AQUELA PORRA.
Como é que eu vou perder para um punhado de caixa, cadeado e papel esquisito? Nããão, inadmissível.
Já me preparo para transferir todos os meus bens para o referido rapaz quando ele então fala:
“Ihh, não dá mais. Esse é o último horário e o caixa já fechou.”
Gente, que raiva.
O ódio.
Somos conduzidas a nos retirar da sala, deixando para trás todos os enigmas não resolvidos que me deram um baile mais tenebroso que o 7x1.
“Amiga, véi, anota os enigmas que a gente acertou, porque aí da próxima vez a gente já acerta eles mais rápido.”
“Isso, pega o Notion!!”
Abro o Notion e começo:
“Na gaveta da esquerda da escrivaninha, pegar a caixa com o cadeado menor.
No quadro dos professores, ver qual símbolo cada um tem…”
Anotamos tudo na certeza que, se dependêssemos da nossa memória, voltaríamos ali e ficaríamos empacadas nos exatos mesmos enigmas que tínhamos resolvido tempos atrás.
Usei todos os meus neurônios.
Esgotei toda a minha capacidade de equilíbrio emocional.
E tive uma das noites mais divertidas dos últimos sei lá quantos meses da minha vida.
Mas, para além de toda a diversão e a rouquidão que adquiri de tanto gritar:
“AMIGA, ACHO QUE DESCOBRI!” (não tendo descoberto nada)…
Por que eu quis trazer esse tema para a carta de hoje?
Eu passei 60 minutos no ápice da diversão possível.
100% concentrada.
Junto da minha amiga.
Usando todas as minhas habilidades para fazer coisas que não me dariam literalmente nada.
Ou seja: eu passei 60 minutos brincando.
60 minutos nunca passaram TÃO rápido na minha vida.
Em 60 minutos eu faço um planejamento semestral para minhas mentoradas.
Atendo uns vários hotseats.
Faço reunião de 1x1 com o time.
Como é que aquela faixa de tempo tão alargada ficou tão diminuta com o advento da brincadeira?
A conclusão é triste, minhas amigas:
A vida de adulto é mesmo uma chatice.
Quem quer voltar para uma planilha cheia de fórmula depois de QUASE TER LIBERTADO A BOLA DOURADA QUE FAZ SEI LÁ O QUÊ DO HARRY POTTER, CARA?
Não tem como competir.
E, como quase tudo na minha vida, eu tive várias reflexões que queria dividir com você.
Eu não sei que fenômeno esquisito é esse, mas nunca ficou tão latente para mim como a rotina adulta é totalmente desprovida de diversão.
Trânsito.
Trabalho.
Trânsito.
Rola Netflix.
Cama.
Que coisa véia sem graça.
Me fez pensar no meu sobrinho que, não importa a hora que tenha ido dormir, acorda 6 da manhã ligado no 220v.
E que, por muitas vezes, sofre ao ir dormir dizendo: “Mas vai demorar demais para chegar amanhã.”
E eu lembro que eu era exatamente assim quando criança.
Lembro nitidamente da sensação de achar dormir um desperdício de vida.
TANTA COISA ACONTECENDO E EU VOU DORMIRRRR???
Era uma tortura.
Eu me revirava hoooras na cama até meu pobre cérebro animado para explorar tudo que a vida tem para me dar conseguisse enfim descansar.
Ainda hoje eu sou assim.
Só que, ao invés de estar pensando em qual próxima brincadeira eu vou fazer, na minha cachola passam fluxos de caixa, planos de ação e todos os B.O.s das minhas clientes que eu ainda não resolvi.
Bom demais.
Eu não sei se trabalhar com coisas que a gente gosta bagunça os trem, mas eu percebi que, ainda que eu me divirta MUITO na Fluida com as sereias, estar 60 minutos em um escape room me deu mais energia do que a meta batida antes do previsto.
Juro para você.
E eu tava ó o ó da rabiola antes de ir.
O que me leva a outra reflexão que já trouxe aqui: o quanto nós, mulheres, perdemos nossos brinquedos de criança e os homens continuam usando eles até que a morte os separe.
Lembra dessa carta?
Acordei decidida a acabar com essa palhaçada. Ou, na verdade, começar.
Abri o grupo do aniversário e contei que tinha ganhado o primeiro presente.
Descrevi minha experiência divertidíssima e, em poucos minutos, tínhamos mais 6 adultas de vida chata dizendo: “Eu voooou no escape room!”
Ainda não fechamos a data.
Mas…
Eu estou publicamente me comprometendo a give my jumps para tentar inserir doses de BRINCADEIRA nessa vida de PJ.
Não é possível que não dê para a gente se divertir enquanto vive, paga boleto e faz dinheiro.
Me recuso.
Tem que ser mais legal do que isso. E, como tudo que eu vivo de bom para mim eu quero para vocês, eu vim te dar uma cutucada também.
Qual foi a última vez que você riu tanto que acordou com a voz rouca de tanta falação?
Quando foi a sua última gargalhada de jogar a cabeça para trás?
Se você me perguntasse isso ontem, eu não saberia dizer. Mas hoje eu segui no projeto diversão e acabei de gastar mais dígitos do que gostaria em 59 créditos de um parque de diversão com meu sobrinho.
Ele acha que eu fui levar ele.
Eu fui é me divertir.
Às vezes você só tá precisando de um Imagem e Ação entre amigas para colorir essa vida cheia de metas.
E, se você for, me chama.
Mas é melhor que você esteja no meu time.
BORA TIMEEEEEE.