Carta 136
Homens de Pedra
Museus cheios de homens de pedra e igrejas que queimavam mulheres vivas: de volta das férias, uma reflexão sobre história, experiências de vida e por que faz sentido gastar os anos de jovem senhora em coisas que só jovens senhoras conseguem fazer.
Buenas noites, Maravilhosa!
Como as senhoritas chegam hoje?
Gostaria de informar que eu VOLTEEEIII!
Meu amado período de férias acabou e estou de volta em terras Fluidas.
Se tu acompanhou os stories, pôde testemunhar meus dias de sofrimento acompanhando o Sr. Fluido nas suas empreitadas buscando homens de pedra (leia-se: estátuas e mais estátuas de infindáveis museus).
Como se homens de pedra não fossem suficientes, visitamos diversos exemplares de igrejas (local o qual tenho minhas dúvidas se sou bem-vinda, vide o histórico daquelas de nós que acabaram por acidente sendo oops
queimadas vivas).
Entre igrejas, museus, homens de pedra e um frio desgramado, deu tempo de encontrar uma parte das minhas deusas que moram em SP e em seguida — glórias às deusas — me dirigir ao meu habitat natural chamado praia.
Caso não tenha ainda ficado claro: eu pertenço à espécie daquelas que é movida a sol, água (doce ou salgada) e trajes diminutos (leia-se: biquíni).
Me questiono se, em outra encarnação, eu não tenha sido uma planta litorânea.
No dia que encontrei minhas mentoradas eu contei um trem para elas que acho que vale trazer aqui para refletirmos juntas:
Que é o motivo pelo qual não gosto de visitar museus e igrejas no geral.
Para além das brincadeiras e ironias que compartilhamos nos museus, tem alguns motivos.
E hoje vou trazê-los para as senhoritas — talvez eu esteja prestes a arruinar suas próximas férias, mas o que eu posso fazer se vim ao mundo com essa cachola questionadora, não é mesmo?
Então vamos.
O primeiro motivo para eu não curtir, em regra, rolês históricos é que uma parte significativa deles exalta colonizadores que destruíram populações originárias.
Tipo: uma estátua celebrando os homi que “descobriram” o Brasil e de quebra fizeram uns genocidiozinhos aqui, uns extermínios acolá.
Fica bem difícil pra minha pessoa achar bacana esse rolê.
“Olá, o querido que escravizou meio mundo de gente, bela estátua, hein.”
Primeiro motivo.
Segundo motivo — e que não poderia ser diferente: é que 99% dos rolês históricos, museus, mostras de arte e os carai, nós estamos sempre vendo e exaltando obras de homens.
Esse prédio aqui?
Arquiteto fodão que fez.
Esse belo quadro?
Artista fodão fez também.
E esse afresco pintado na capela dessa igreja?
Homi também.
Eu juro que gostaria de ser capaz de ignorar tudo isso.
Mas cada nome que não termina com “A” exposto nas galerias, eu fico imaginando as mulheres que ficaram atrás desses caras permitindo que eles fizessem tudo isso.
Inclusive, tenho um hábito que não colabora em nada com isso, que é pesquisar o nome das esposas dos respectivos enquanto me encontro na tal exposição.
Não sei se recomendo a experiência.
E ainda tem as pobi mulheres artistas que executavam os mesmos ofícios de seus respectivos maridos e companheiros e não tiveram nadica de reconhecimento.
Ou ainda aquelas que não só não tiveram reconhecimento, como tiveram trabalhos de sua autoria sendo reconhecidos como dos seus homis.
(Vou deixar um link aqui contando algumas histórias para você ficar bem felizinha das ideias:
Até aqui você já consegue ver como rolês históricos são uma bela experiência pra minha pessoa.
Mas aqui vai um quarto motivo — mais filosófico, vamos dizer assim.
Eu tenho estudado muito sobre riqueza, estilo de vida e velhice (como se não fosse suficiente meu foco em temas levíssimos como feminismo e história das mulheres, agora eu tô nessa pira da velhice).
Eu penso a minha vida em termos de experiências.
Quais são as coisas que eu vou conseguir viver aqui antes de partir dessa para melhor?
(ou pior, vai saber né)
E uma das coisas relevantíssimas desse rolê de viver a vida que é inegável, é que a velhice nos tira um trem que me é muito caro:
Independência e movimento.
Vamos ficando assim, xoxas, capengas e mancas, por assim dizer.
Não importa o quão fortes, flexíveis e saudáveis sejamos na “juventude”, a gente envelhece, é um fato.
E eu consigo claramente ver uma linha do tempo onde, a cada década de vida, experiências diferentes estão disponíveis pra mim.
Passar 5 dias atravessando os Lençóis Maranhenses a pé, com uma mochila de trocentos quilos nas costas, não é uma experiência muito viável para uma senhora de 80 anos.
Mas é uma experiência maravilindeusa para uma jovem senhora de 30 e poucos.
Já me deslocar por entre pisos polidos e paredes de alvenaria para observar imóveis, quadros e homens de pedra é uma experiência totalmente viável e agradável mesmo para uma senhorinha de pés frios e tônus muscular inexistente.
Então, por qual motivo eu passaria os meus anos de jovem senhora desfrutando das experiências que ainda me estarão disponíveis quando eu for uma senhora-senhora?
Eu acho que faz mais sentido gastar as experiências disponíveis para jovens senhoras enquanto eu consigo fazê-las.
Sacou?
Eu não quero aqui te convencer a ir ou não ir para museus.
Na verdade, quero te provocar a pensar: quais são as experiências da sua vida que você REALMENTE quer viver e que talvez não estejam disponíveis pra você daqui a alguns anos?
A gente envelhece e fica mais preguiçosa, sem tanta energia social e sem paciência para um monte de coisa que tolera muito bem hoje.
E seria um desperdício enorme se nós, mulheres, perdêssemos anos valiosíssimos da nossa vida para chegar no final e falar “poxa, isso aqui já não dá mais”.
É gestão feminista aplicada na vida real.
Otimizar resultado com os recursos que tem.
Colocar a PF na frente da PJ.
Viver, e não só sobreviver.
É experimentar tudo que essa doida vida tem para nos oferecer, mesmo que pareça um rolê muito louco (tipo abrir uma empresa, kkk crying).
Não sei qual é a coisa que você quer demais, mas eu tô aqui pra te empurrar a botar ela na sua listinha de projetos.
E se essa coisa for na sua empresa — lançar um trem novo, mudar de nicho, demitir um time, mudar seu posicionamento… sei lá. Eu acho que você deveria fazer isso o quanto antes.
Lembra de viver.
Combinadas?