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Carta 132

A doença como retrato da culpa feminina

Quando a gente fica doente, o mundo diz que é culpa nossa por não descansar o suficiente. Uma reflexão sobre como transformamos doenças em falhas pessoais — e por que está na hora de parar de nos culpar por isso.

Mulheres

Buenas tardes, maravilhosa

Como a senhorita chega hoje?

Graças ao milagre da medicina, eu me encontro em recuperação.

Gostaria de dizer que estou 100%? Sim. Porém, persiste em mim uma tosse canina que, de vez em quando, brota pra me lembrar que meus pulmões seguem em recuperação.

Na carta passada, conversamos sobre o tour da cerâmica fria, minha nova tentativa de hobby enquanto me encontrava devassada por um belo vírus.

Primeiro de tudo, preciso informar às descrentes: DEU CERTO.

Não só comprei a cerâmica fria, como aprendi a fazer a danada.

Nesse momento, já tenho um belíssimo porta-incenso em formato de folha que me aguarda para ser lixado e pintado.

Triste dia para quem não acreditou em mim.

Quando eu terminar, posto fotinha da minha obra de arte para vocês.

O papo de hoje, sim, é sobre uma das reflexões que fiz nas incontáveis horas que tive para não fazer nada a não ser pensar.

Na verdade, esse é um pensamento que me acompanha há alguns anos, mas ainda não fiz nenhum conteúdo sobre ele. Zero.

Nem carta, nem stories, BBB, Fluidcast, nem post no feed.

Então chegou a hora do bendito tema.

Isso já me aconteceu mais de uma vez, e é provável que, se você puxar da memória, vai lembrar pelo menos uma vezinha em que viveu o mesmo que eu.

A primeira vez que isso me aconteceu foi quando eu postei nos stories que tava com cólica.

Fiz alguma gracinha que eu não me lembro sobre a benevolência do meu útero de se contorcer até que eu tenha que tomar medicamentos, e rapidamente recebi um direct que começava com algo mais ou menos assim:

“Mari, o corpo tá te dando sinais, você tem que ouvir.”

Bom, até aí, nada demais.

O que veio em sequência é o tópico de hoje.

Eu fui puxar papo.

O que se seguiu foi um semi sermão

De como parecia que eu trabalhava muito.

Que se eu estava com cólicas era porque não vinha respeitando o ritmo do meu corpo.

Obviamente eu deveria desacelerar.

E “me colocar em primeiro lugar”.

Você já viveu isso?

Você já foi alertada para os perigos de não se priorizar?

Alguém já te falou que você “exige demais do seu corpo”?

Não que isso seja totalmente mentira, mas precisamos refletir melhor sobre isso.

Essa mesma “recomendação” me foi dada quando eu tive Covid e quando tive dengue.

Ouvi variações da mesma coisa:

Eu não estava cuidando de mim o suficiente.

O fato de eu ter pegado uma doença refletia, na verdade, algum tipo de falha pessoal que eu tinha cometido.

Como se o fato de ficar doente, de ser infectada por um vírus, pudesse ter sido evitado por mim mesma.

Caso eu trabalhasse menos.

Descansasse mais.

Tivesse menos estresse.

Uma dor de cabeça, e ouvimos: “ah, você deveria ficar menos tempo no computador”.

Uma cólica: “seu corpo está pedindo pra parar”.

Uma gripe: “isso é seu sistema imune te dizendo alguma coisa”.

Não refuto o fato de que cansaço, altas cargas de trabalho podem sim ser desencadeadores de uma cacetada de coisas.

Mas eu NUNCA OUVI esse comentário ser direcionado a um homem.

Não dizemos para os homens que a doença que eles têm É CULPA INTEGRAL DELES MESMOS.

Entende o que quero dizer?

Quando me dei conta disso, percebi também que eu já fui a pessoa que, várias vezes, fez esses mesmos comentários para as mulheres da minha vida.

Já disse que a ansiedade era excesso de trabalho.

Já sutilmente sugeri que ela deveria estar trabalhando demais por ter ficado doente numa época aparentemente livre de gripes.

Vamos refletir juntas:

Quando tive COVID, eu tive 2 anos DEPOIS do início da pandemia.

Sabe onde eu peguei? Em um churrasco de amigos da faculdade, onde nos reunimos para encontrar uma colega que morava há anos no exterior.

Eu não tava trabalhando.

Quando peguei dengue, mais de um ano depois da Covid, sabe onde devo ter pegado?

Na minha própria casa, que em volta tem uma cacetada de casas com piscinas, num dos bairros com maior incidência de dengue de Brasília.

Eu não tava trabalhando.

Quando dizemos às mulheres adoecidas que algo que elas DEIXARAM de fazer causou a doença, estamos na verdade dizendo que elas são as CULPADAS por suas doenças.

Não só é CRUEL como é uma enorme baboseira biológica.

Nenhuma mulher, por maior descanso, tempo livre e hábitos saudáveis que tiver, tem a capacidade de CRIAR SOZINHA ANTICORPOS PARA UM VÍRUS QUE O MUNDO INTEIRO QUERIA CRIAR UMA VACINA.

Precisamos parar de responsabilizar as mulheres por coisas absolutamente fora de seus controles.

E talvez a gente precise parar de SE culpar por coisas fora do nosso controle.

Cabeças doem.

Braços quebram.

Úteros se contraem.

Vírus se replicam.

Nada disso é uma falha pessoal sua.

Um sinal de que você é desleixada consigo mesma e que não sabe equilibrar vida com o trabalho.

Não se culpe por ficar doente.

Gripada.

Covidada.

Por ter tido depressão, pânico e ansiedade.

Se você fosse capaz de IMPEDIR tudo isso a você mesma, VOCÊ JÁ TERIA FEITO.

Mulheres não são culpadas pelas suas doenças.

As doenças são.

É como dizer que as mulheres que sofrem com relacionamentos abusivos têm “o dedo podre”.

Podres são os homens que abusam de suas parceiras de vida.

O mundo já nos coloca culpa demais.

Se permita ficar doente em paz.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·