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Carta 131

Cerâmica Fria

Uma gripe, dias de cama, Friends no tablet e a brilhante ideia de aprender cerâmica fria do nada: um relato semi mal-humorado de quem não sabe ficar parada nem quando devia. Nenhuma lição empreendedora prometida.

Reflexões duvidosas

Buenas noites, maravilhosa

Como a senhorita chega nessa sexta?

Eu, nesse momento, me encontro lutando contra uma gripe desgraçada que me fez o favor de roubar a minha voz e me deixar os últimos dias completamente de cama.

Vejam só que beleza.

Só que não.

Para uma pessoinha ligada no 220v, tal qual eu, passar os últimos dias no confinado espaço entre cama e sofá me deu muito tempo para os neurônios refletirem sobre basicamente tudo.

E é sobre isso que conversaremos na carta de hoje: refletiremos juntas sobre a peculiar experiência de ter o seu corpo invadido por micro-organismos indesejáveis.

Não espere lições empreendedoras e reviravoltas com belas reflexões de moral — hoje me darei ao direito de apenas lhes entreter com a ironia de minhas condições de saúde nos últimos dias.

(Eu disse que neurônios com muito tempo livre precisam criar QUALQUER COISA. Então lá vamos nós para a carta de hoje.)

A primeira delas é: eu costumava ODIAR ficar doente.

Do tipo, se eu pensasse por um segundo que talvez minha garganta estivesse me dando um sinalzinho de que estava prestes a inflamar, eu já começava com milhares de técnicas naturebas para imunidade.

Gengibre, própolis, chá de alho, mel… absolutamente tudo com propriedades anti-inflamatórias, antivirais e antibacterianas começava a ser utilizado por esse corpitcho.

A ideia de ficar vários dias sem PODER fazer as coisas que eu gosto me deixava deveras irritada.

E isso (ou qualquer traço genético que eu talvez tenha) me fez ficar doente de verdade pouquíssimas vezes na minha vida (consigo lembrar de uma gripe quando adolescente, e Covid e dengue que tive nos últimos anos).

Pois muito que bem, eu deveria ter seguido minha própria neurose antiviral.

Semana passada eu senti uma coceirinha na garganta e ignorei meus instintos de doida dos chás e não tomei nada. Esperei a natureza seguir seu curso.

Acreditei que era só um sinal de que as 29 mil trezentas e 18 horas que eu havia dado de mentorias e treinamentos para o time na semana estavam cobrando seu preço.

Tolinha eu.

Tolinha.

O que se sucedeu foi um baile da mãe natureza bem na minha cara.

A garganta arranhando foi convertida em uma total ausência de voz.

E minha energia, que costuma ser Duracell, esvaiu-se na velocidade da luz (que ironia).

Comecei a arrastar meus membros tal qual aqueles desenhos animados onde o personagem fica tão abalado com alguma frustração que os braços arrastam no chão.

Euzinha.

Logo em seguida veio minha amiga Tosse.

Penso eu que ela tenha sido enviada para que eu conquistasse meu tão sonhado tanquinho, tamanha a brutalidade da danada com meus pobres músculos do abdômen.

Já não sei mais se precisarei, algum dia da minha vida, fazer abdominais.

Acredito que a cota para uma vida humana inteira já tenha sido conquistada por aqui.

Como se já não bastasse esse combo do apocalipse, a rainha do rolê resolveu instalar-se em minha pessoa: a dona Febre.

Ô mulherzinha desagradável.

Ela começa com um calafrio, um arrepio no pescoço e, nos próximos minutos, já me encontro debaixo das cobertas, de meia, casaco, calça e — pasmem — uma bolsa de água quente para me manter aquecida.

Que agradável experiência para uma recém-aniversariante.

Do sofá para o quarto, do quarto para o sofá. Que belo trajeto.

Nos primeiros dias, em que clamava por minha saúde e a febre não dava trégua, só conseguia pensar em ficar o maior tempo possível imóvel, economizando cada molécula de ATP necessária para combater tais invasores (se você não lembra o que é ATP, favor voltar no seu livro de biologia do ensino médio e pesquisar por ciclo de Krebs — aposto que desse você lembra).

Depois de alguns dias em inércia completa, pensei: “nossa, com tanto tempo deitada no sofá, posso usar esse tempo com um hábito nada saudável: horas demais na frente da Netflix”.

E assim o fiz: peguei o tablet, posicionei bem ao lado de minha fuça no sofá e procurei a série mais confortável possível para meu corpo já tão exigido pela batalha com o vírus: Friends.

Sim, eu sou a pessoa que ama Friends, que já viu todos os episódios sei lá quantas vezes e que continua vendo do começo tal qual louca fosse.

Bom, nas primeiras horas de Friends eu quase achei boa minha corrente situação: deitada no sofá, de pijama, debaixo das cobertas, fazendo um total de zero coisas úteis.

Ai, que delicinha.

O problema é que não durou muito tempo.

Simplesmente foram tantas horas de cara enfiada na tela que meus pobres glóbulos oculares pediram arrego (quem usa óculos vai entender). Tem uma hora que os músculos que parecem sustentar nossos olhos falam: “ok, fim da brincadeira. Pare, por gentileza, de olhar para essa tela ou nós vamos começar a doer”.

Show.

Agora estou em casa, sem energia para me deslocar distâncias superiores à metragem da sala até o meu banheiro e sem poder olhar para telas.

Legal demais.

Vou tomar sol no quintal então.

Pego minha mais nova cadeira de praia (contei para vocês que me dei uma de aniversário? Pois esse foi um dos meus presentes).

Sento virada para o sol.

Fecho os olhos.

Meus olhos não estão nem aí para as pálpebras que acabei de colocar em cima de ambos.

Eles reclamam da luz.

Lacrimejam.

Devem ter se desacostumado com a luz natural de uma vida fora do sofá.

Me sinto uma personagem de um livro adolescente sobre vampiros e tenho que me retirar do sol.

Show. 28 a zero para o vírus.

Essa palha assada de tentar encontrar atividades de baixíssimo esforço que possam ser feitas de pijama, dentro de casa, sem o uso de telas e dentro do perímetro de um sofá se estende por mais algumas horas.

Não mais que de repente, me pego ligando para diversas papelarias próximas.

Quero saber se eles têm cerâmica fria branca.

Tem que ser da branca.

Já tenho uma pasta no Pinterest com diversas inspirações de peças que quero fazer com minhas próprias mãos.

Sei qual tipo de verniz usar, quais utensílios preciso comprar e, junto do meu querido amigo ChatGPT, aprendi hoje o que são estecas.

Pequenos utensílios que parecem um pincel com um araminho na ponta, utilizados para texturizar as complexas peças de cerâmica fria que me vejo em breve produzindo.

Sim, me pareceu uma ótima ideia desenvolver um novo hobby do mais absoluto nada enquanto me encontro descabelada de pijama, com sérias dificuldades para lavar o cabelo, tamanha a moleza e preguiça.

(não me julguem aqui, eu tenho um cabelo de vários centímetros — não sei quantos — mas dá uma trabalheira danada).

Bem-vinda à minha cachola.

Espero que, com esse humilhante relato, eu encontre outros espécimes com essas peculiares características (me diz se você é assim também, por gentileza).

Disse no começo da carta que eu odiava ficar doente (no passado) e eu, por um momento, quase achei que tinha passado dessa fase. Mas venho aqui apenas partilhar o quanto continuo achando todo esse processo um belo dum cocô.

Temos hoje alguma belíssima lição de empreendedorismo e estilo de vida?

Não.

Falaremos sobre alguma conclusão perspicaz que tanto tempo de ócio me fez alcançar?

Também não.

Hoje ficaremos apenas com relatos semi mal-humorados de uma jovem senhora que gosta por demais da vida.

E que nesse momento enfrenta um mix de tédio, irritação e autopiedade um tico patéticos.

Sim, às vezes a gente pode só reclamar e sermos levemente complacentes demais com nossos chororôs.

Não precisamos transformar cada microexperiência das nossas vidas em grandes oportunidades de reflexão (embora meu cérebro faça isso sem que eu consiga impedi-lo).

Enquanto escrevo essa carta com um nada atraente pijama quentinho, espero que pelo menos eu tenha conseguido te arrancar umas risadinhas de canto de boca.

Ou quem sabe você apenas me ache ainda mais desajustada do que achava antes.

Não me importa.

Agora tenho coisas muito mais importantes a fazer.

Preciso selecionar mais algumas inspirações belíssimas de porta-velas que farei em breve.

Com a cerâmica fria que ainda não possuo.

Por motivos de: não tive energia para ir na papelaria comprá-la.

Yey para mim.

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