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Carta 127

Aceita que é seu

Da coxinha no café improvisado à sala própria com janelão e jardim: uma história sobre a dificuldade de reconhecer que o que conquistamos realmente é nosso. Pode colocar os enfeites — essa sala é sua.

Nóias da cabeça

Oi, maravilhosa

Como a senhorita chega no dia de hoje?

Como sempre, sexta é Family Day por aqui e nesse momento me encontro sentada na casa da minha vó com meu sobrinho dormindo do meu lado no sofá.

Eu custo a acreditar que essas são as minhas sextas.

É até meio esquisito saber que sextas não são dia de trabalho aqui.

Essa semana, inclusive, conversamos muito sobre isso com a mulherada da Vênus.

Sobre isso.

Ter dificuldade de reconhecer onde a gente chegou.

Não só dificuldade, mas às vezes até um certo espanto, medo mesmo de tudo que andamos.

Ela tava contando que abriu uma planilha de dez anos atrás do negócio dela, que mostrava o que ela tinha recebido no mês.

Era uma quantia dez vezes menor do que ela faz hoje.

Olha que doido, se a gente soubesse que em dez anos faríamos 10 vezes mais do que fazemos hoje, será que teríamos tanta insegurança com as nossas próprias incapacidades?

Esse mês eu vivi algo bem parecido, e é sobre isso que vamos conversar hoje.

No comecinho da Fluida, lá em 2015-2016 por aí (apenasmente uma década para trás) quando começamos, eu e Fla, a gente ia para cafés da cidade trabalhar.

Não tínhamos nada além de uma ideia e um grupo no Facebook (se você não sabe dessa história, depois posso contar aqui, me pede que eu conto).

Pediamos uma coxinha e um café e usurpávamos a cadeira do pobi do café por horas.

Nessa época não tínhamos passado ainda pela pandemia e trabalho remoto era um trem bem escasso, então ninguém ficava bravo com duas fedelhas passando a tarde em seus estabelecimentos (que diga-se de passagem estavam quase sempre vazios nas horas em que trabalhávamos).

Pois muito que bem.

Um tempo depois começamos a sentir a necessidade de um lugar para reuniões e atendimentos.

O problema era que o caixa da Fluida não dava para fazer uma compra de mês no supermercado.

Tínhamos acabado de começar e eu já tinha saído do meu emprego para focar só na Fluida, ou seja, meu salário era o que a gente conseguia fazer no mês.

Comecei a usar a minha reserva e passamos a juntar todos os centavos das nossas consultorias, mentorias vendidas.

Tudinho indo para uma conta PF tal qual eu sempre falo que vocês nunca devem fazer (pra vocês verem de onde eu comecei).

Juntamos, juntamos, juntamos até que “olha, tem até uma graninha aqui”.

E nós sem nadinha de pró-labore.

Bom, uma amiga que tinha começado a empreender há pouco falou: “gente, vocês não querem dividir uma sala comigo e com outra colega não?”

Parecia um sonho, íamos ter a nossa própria mesa.

Uma internet NOSSA com os nossos caracteres.

Não um wi-fi duvidoso que exigia que se fizesse um check-in no Facebook para mostrarmos que estávamos no tal do café.

Juntamos todas as pregas do cool e fomos dividir a sala.

3 empresas.

4 empresárias.

Um rodízio de quem podia fazer reunião em qual hora.

Uma das empresas (que tinha alugado a sala em primeiro lugar) decidiu fechar e fomos todas despejadas.

Voltamos para os cafés e para a busca frenética por outra sala.

Só pra você se situar: estamos em Brasília, um dos metros quadrados mais caros desse país.

Achamos uma sala de coworking, desses bem descolados com pinturas em cores vibrantes e uma decoração excêntrica para não dizer outra coisa.

O obstáculo: o aluguel era simplesmente impraticável.

Maior do que nosso faturamento MENSAL (nessa época já estávamos fazendo lançamento, então o faturamento era uma montanha russa descarrilhada).

Mandamos mensagem para todas as amigas empreendedoras também e convencemos não uma, não duas, não três, mas outras QUATRO amigas a dividirem a sala com a gente.

6 mulheres.

Empreendedoras de primeira viagem juntando seus parcos reais para ter a dignidade de uma cadeira para chamar de sua.

Eu vou descrever essa sala para você:

Imagine uma mesa dessas retangulares em que cabem 4 pessoas, 2 de um lado e 2 do outro.

Agora imagine uma lâmpada.

E uma porta.

Pronto, essa era a nossa sala.

A bicha era tão pequena que você não tinha como sair da sua cadeira sem esbarrar a bunda na parede que ficava imediatamente colada nas suas costas.

Se quem estivesse no canto quisesse levantar, a pobi que estava na quina da mesa tinha que levantar para a outra sair.

E nós AMÁVAMOS aquela sala.

Chegava todo dia com a chave para abrir e pensava: “ahh que foda, a gente tem uma sala nossa”.

Veio a pandemia, e obviamente voltamos todas a trabalhar em casa.

Adeus salinha superfaturada com a busanfa colada na parede.

Olá home office.

Passamos 3 anos bem lindas trabalhando de casa.

Melhorei meu escritório em casa.

Compramos mesa, cadeira, ring light… toda a parafernália.

Mas eu voltei a sentir saudade do olho no olho.

Principalmente de ATENDER presencialmente.

Eis que eu começo a pensar: “nossa, seria legal se a gente tivesse uma sala, né?”

Como seria maravilhoso voltar a atender presencialmente.

Nossa, eu ia botar um quadro bem lindo com os mantras da Fluida bem atrás de mim.

O universo ouviu.

Recebo uma mensagem:

“mari, vagou uma sala aqui, você quer testar?”

Meus divertidamente gritaram de alegria, porém tratei de mantê-los contidos:

“calma, vocês nem sabem se a gente pode pagar essa sala.”

Fui ver a sala.

Ampla.

Com um janelão.

Luz solar.

Virada para um jardim.

Me imaginei atendendo ali.

Gravando vídeos ácidos.

Respondendo minhas mentoradas com meus áudios acelerados.

Meus divertidamente foram banhados de dopamina antecipando os momentos felicíssimos na nova sala.

Prontamente minha censora enuncia:

“mariana, não faz sentido alugar uma sala, você pode muito bem continuar atendendo de casa.”

“verdade, isso vai aumentar o custo fixo com aluguel em 5x, melhor investir em tráfego, é mais inteligente.”

E a vontade de ter a danada da sala berrando do outro lado.

Resisti por dias até receber a mensagem: “tem outra pessoa na lista de espera, você vai querer?”

Possuída pelo espírito da irresponsabilidade, disse: “tá bom, vamos testar um mês.”

Peguei a chave da sala e dei dois gritinhos quando me vi lá dentro banhada de luz solar COM A MINHA PRÓPRIA MESA.

Minhas cadeiras.

Minhas paredes.

“TÁ bom, mas não se empolga muito porque esse custo não vai dar para sustentar muito tempo, já já você vai ter que sair.”

Peguei minha pressa de usufruir do escritório próprio e comecei a imaginar o quanto ele podia ficar mais a cara da Fluida ainda.

“eu podia colocar uma poltrona aqui, um quadro aqui e uma adega daquele ladinho, ahh ia ficar lindo.”

Ao mesmo tempo ponderava meu lobo frontal:

“é, mas compra umas coisas baratinhas porque quando você for sair daqui não perde muito dinheiro.”

E isso se seguiu por vários dias.

Eu amando cada segundo sentada naquela sala.

E me despedindo dela na mesma medida.

Já percebeu onde eu quero chegar?

Hoje, felizmente, nós podemos pagar uma belíssima sala para acomodar meu popô durante meu trabalho.

Nós podemos.

Nosso caixa diz que sim.

Nosso faturamento diz que sim.

O ganho absurdo de produtividade berra um milhão de vezes que sim.

Mas eu no fundo sentia que “aquela sala ainda não era minha”.

Que a decisão de alugá-la era um passo irresponsável de uma mentora que a todo tempo lembra suas pupilas da responsabilidade financeira que cada uma tem que ter com a empresa.

Precisei de muitos dias, e algumas sessões de terapia, para reconhecer enfim que a porra da sala era minha.

Que eu podia comprar enfeites que durassem mais do que alguns meses porque talvez, quem sabe, talvez eu não teria que sair de lá correndo por inadimplência.

É muito difícil aceitar os louros depois dos dias de 7x1.

A gente se sente quase indigna e com uma pontinha de culpa por ter “tanto”.

Não é bizarro isso?

Que a gente trabalhe tanto, estude tanto, faça tanto pelas nossas empresas e ainda assim tenha dificuldade de reconhecer o que é nosso?

Para o mundo: tudo.

Para nós: nada.

Hoje eu vim te lembrar de aceitar, e rápido, as salas que já são suas.

De colocar enfeites e quadros belíssimos em todas as paredes que você pagou com o seu salário.

De sorrir e dar gritinhos de alegria ao abrir a sua adega, na sua própria sala, e ver que tudo ali um dia foi um sonho.

Não importa o quanto a gente avance.

Acredito fortemente que sempre precisaremos umas das outras para lembrar o quanto merecemos aquilo que conquistamos.

Pode ser uma sala com uma poltrona belíssima e 98 itens com a cor da sua logo.

Um apartamento cheio de plantinhas que você ama passar o final de semana.

Um celular melhor que rolou de comprar com a divisão de lucro.

Ou os suados 5 mil seguidores.

Tudo isso é seu.

Pode aceitar.

É seu.

OBS 1:

Se você pescou o fio da meada: sim, eu vou voltar a atender presencialmente tal qual os Maias. Olho no olho, pé descalço em cima do sofá do jeitinho que a Fluida é, uma conversa deliciosa entre amigas inteligentíssimas. Em breve vou abrir a minha agenda aqui, pra gente passar boas horas resolvendo os B.O.s da sua empresa, na minha belíssima sala. Se você quer ser uma das primeiras, já me grita aqui.

Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·   Nenhuma mulher é livre sem dinheiro, nenhuma empresária é livre sem gestão   ·