Carta 126
Acene e Sorria
Duas sócias chegaram ao limite e a solução começou com uma coisa simples: dar nome ao que estavam sentindo. Um caso real de gestão feminista que prova que cuidar da mulher e cuidar da empresa são a mesma coisa.
Buenas tardes maravilhosa.
Como a senhorita chega nessa sexta?
Eu chego com um tanto de acontecimentos novos por aqui em dona Fluida.
Maaaas farei suspense e vou contar um deles semana que vem se tudo der certo.
Mas hoje vamos conversar sobre um causo do Conselho.
(O Conselho é nosso programa individual onde eu me torno conselheira estratégica e decido as decisões de longo prazo com as empresárias.)
Esse é um causo que eu já mediei mais de uma vez.
Sensível.
E que é necessário muito jogo de cintura para resolver.
Inclusive, já recebi casos de empresas que me procuraram para resolver porque outros consultores não tinham conseguido sanar.
A solução parece cabeluda e difícil.
Mas se você olhar para ela pelas lentes da gestão feminista, se resolve papum.
Pois muito que bem, alguns dados vão ser mudados para preservar, logicamente, o anonimato das Fluidas em questão.
Mas vamos ao causo.
Duas sócias chegam para mim.
Estamos trabalhando há alguns meses já.
Quando elas chegaram na Fluida, vinham de um crescimento acelerado, mas desordenado.
Elas, que estavam acostumadas a trabalharem no modo “faz tudo”, agora tinham equipe para liderar.
“Como eu delego isso?""Quanto posso exigir do time?""Como saber quem eu posso contratar?”
E TODOS aqueles dilemas de quando a gente finalmente entende que temos uma empresa maior que nós mesmas.
Nos últimos encontros, elas relataram alguns projetos que não estavam avançando tanto quanto gostariam.
Bandeira amarela — será que tá rolando algo?
Vamos esperar mais algumas semanas.
Sim, tinha mais alguma coisa.
Entramos em reunião e eu rapidinho notei o clima.
O clima do elefante branco no meio da sala.
Dava para SENTIR que não estava tudo bem.
Pergunto como elas estão se sentindo com as ações do último mês.
Correm as lágrimas.
“Não tô dando conta de fazer as ações que estão na minha mão.”
Secam-se as lágrimas e rapidamente o foco muda para:
“Então tá, as lágrimas já foram, vamos ao trabalho.”
Nesse momento, eu quero que você rastreie sua memória à última vez que fez isso com você mesma:
“Não tô dando conta, mas vamos continuar.""Tá impossível, mas eu vou conseguir.”Interrompo o fluxo de “vamos seguir”
E com minha sutileza ponho as cartas na mesa:
“Nós não vamos seguir assim.”
Digo o que ambas estão pensando, mas não têm coragem de reconhecer para si mesmas.
Uma delas está há algum tempo vivendo desafios pessoais.
Desafios esses que estavam limando o tesão no negócio.
E sem tesão, não há mulher nesse planeta que dê cabo das hercúleas tarefas de crescer uma empresa enquanto se aprende a fazer isso.
Uma empresária sem tesão tentando a todo custo fazer o que DEVE, mas sem conseguir.
Uma sócia se sentindo sobrecarregada, tentando a todo custo ajudar a amiga que não tem dado conta de tudo.
Uma empresa criada por mulheres vivendo as consequências de não termos as cartas na mesa. De sermos tão políticas e delicadas umas com as outras que ficamos com medo de dizer a verdade.
A verdade é que não tá dando mais.
Não desse jeito.
Fingir que o problema que nos assombra não existe não vai nos ajudar a resolvê-lo.
Boremos as cartas na mesa:
- Uma das duas não tá bem
- A outra tá preocupadíssima
- A empresa precisa que as tarefas sejam feitas
O que fazer então?
Criar um plano para o PIOR CENÁRIO.
Sim, é isso que faremos.
Vamos trabalhar com o pior cenário. Fiquemos preparadas para ele, que qualquer coisa melhor do que o pior cenário é lucro.
Sócia 1 que não tá dando conta → A senhorita vai tirar uma licença.
Sócia 2 que tá com medo de ficar sobrecarregada → Vamos contratar uma pessoa pra ficar com você.
Começamos o planejamento dos pormenores:
Que dia vai ser a licença da Sócia 1?
Qual a descrição do cargo da nova funcionária?
Quanto pagaremos para ela?
E o time que já existe, como comunicar para eles?
Notion que vai, planilha que vem… plano pronto.
Desenhamos o pior cenário.
Pergunto como elas estão se sentindo com o plano:
Sócia 1: “Tô com vontade de fazer isso.”
A mesma mulher que menos de uma hora atrás limpava as lágrimas com a culpa de não ter vontade de fazer mais nada na empresa há meses.
Qual foi a mágica?
Que espécie de bruxaria é capaz de causar uma transformação tão profunda em tão pouco tempo?
Nada mais nada menos que
SENTIR A VERDADE.
Explico o que quero dizer com isso:
Fomos treinadas para ignorar nossos sintomas.
Negar os alertas.
Se ele se diz “ciumento”, tá tudo bem — é só que ele te ama demais.
Se o colega de trabalho parece ter roubado sua ideia, tudo bem — talvez ele não tenha percebido.
Se você sente com todas as suas forças que seu caminho não é ser submissa, não tem problema… você se acostuma.
Aprendemos que nossos sinais internos devem ser IGNORADOS.
Ignoramos nossa bússola interna.
“Acene e sorria.”
Se todas as mulheres começassem a reconhecer seus desconfortos, o mundo tava lascado.
“Uai, por que esse cara ganha mais que eu fazendo a mesma tarefa?”
“Oxi, por que o pai do meu filho dorme todas as noites enquanto eu acordo 28 vezes de madrugada para amamentar?”
Nos ensinaram que ser mulher é ASSENTIR.
Mesmo com os maiores absurdos.
Eles podem escolher se querem ou não ser pais.
Eu posso ser presa se fizer o mesmo.
O mundo tá cheio de troços que deveriam nos causar desconfortos tremendos.
Mas aprendemos a silenciá-los.
Faremos a mesma coisa nas nossas PJs.
Não foi mágica.
Foi simplesmente dar a permissão pra que aquelas duas mulheres pudessem RECONHECER o que estavam sentindo.
Nesse momento você deve estar pensando: “Uai gente, mas isso é uma consultoria de gestão ou um espaço de terapia?”
É aí que mora o X da questão.
Essa divisão cartesiana entre o que é EMPRESA e o que é PESSOA FÍSICA só funciona para quem pode ser tudo que quiser na sua PF.
Adivinha quem não pode?
Nós, mulheres.
Não existe separação entre a PF e a PJ dessa forma quando falamos de negócios femininos.
Gerir negócios femininos é gerir a socialização feminina
.
Cuidar de negócios criados por mulheres é cuidar dessas mulheres
.
Em primeiro lugar.
É isso que você precisa entender para ontem.
Não existe empresa feminina que cresce sem caos, sem que a gente mexa profundamente nos comportamentos e aprendizados que foram forjados na cabeça dessas mulheres.
Consultores comuns jamais saberão resolver esse tipo de desafio.
Simplesmente porque para eles esse é um problema da esfera “feminina”.
E tudo que é feminino, pode ser ignorado.
Eu quero que você leve da carta de hoje 3 coisas:
-
TUDO que acontece na PF faz parte da sua PJ.
-
Não deixe ninguém te convencer de que seus desconfortos devem ser ignorados.
-
Se você até hoje não acreditava que era possível sentir e gerir ao mesmo tempo — você pode.
Na verdade, você sempre pôde.
Você só foi silenciada.
Bem-vinda à Gestão Feminista.