Carta 124
Aceite ser boa [CARTA EXTRA]
Quando somos boas em algo, nossa primeira reação é nos justificar — como se a competência precisasse de desculpa. Uma história sobre beach tennis, descrédito e o dia em que paramos de pedir licença para ser incríveis.
Buenas tardes, maravilhosa.
Como você chega nessa sexta-feira?
Esses dias parei pra pensar em um troço que eu lido na terapia HÁ ANOS. E achei justo compartilhar com você.
Se você é Fluida das antigas, talvez já saiba dessa faceta minha: sou absolutamente louca por esportes.
Não pode aparecer uma atividade física nova que eu já quero meter meu nome, testar, ver se rola identificação.
Tem gente que coleciona selos de viagem. Eu coleciono vivência esportiva.
Essa paixão me acompanha desde pirralha.
E esses dias lembrei de uma história muito doida da época da escola.
Imagina: eu, com meus atuais 1,59m (por mais que muita gente ache que eu sou alta — ilusão de ótica, tá?), agora pensa em mim criança.
Nunca fui uma das mais altas da turma.
E aí a escola abriu uma seletiva de vôlei.
E eu lá, com fogo no cool desde sempre, falei: “Vou participar.”
Não porque eu era alta.
Mas porque eu amava esporte.
Porque eu queria conhecer aquilo.
Queria estar dentro.
Entrei na seletiva com umas 40 meninas. Muitas mais altas do que eu. Muitas já jogavam vôlei.
Mas, na hora, eu nem pensei que isso podia me eliminar.
As fases foram passando.
Até que cheguei na última.
Entrei na quadra e pensei: ué, cadê o povo?
Tinha no máximo umas cinco meninas ali.
E eu ali, assustada, sem entender direito que aquela seletiva tinha um tom eliminatório real oficial. Eu achava que era só uma experiência coletiva, sei lá. Ingenuidade de quem só queria viver a parada.
Corta pra minha vida adulta.
Joguei vôlei, basquete, handebol, fiz musculação, ioga, crossfit, escalada e já fiz até simulação do pulo de pára-quedas…
Um dia, aliás, tava em mais um treino qualquer e vi que ia começar uma aula de beach tennis.
Nunca tinha jogado.
Mas já tava lá mesmo, suja, com raquete na mão, falei: “Vambora.”
Entrei. Joguei. Curti.
No meio do treino, o professor veio até mim:
— Nossa, que legal! Há quanto tempo você joga?
E eu:
— Hoje. Primeira vez.
A cara dele foi de total descrédito. Como se eu tivesse mentindo.
E ele insistiu:
— Tá, mas você já jogava antes, né?
E eu ali: “Não. Nunca joguei antes. Faz uma hora que eu comecei.”
E aquilo começou a me angustiar.
Porque eu sou uma pessoa que preza pela verdade, pela confiança, pela integridade.
E ali tava alguém questionando tudo isso em mim — só porque eu tava indo bem.
E aí o que eu fiz?
Comecei a me justificar.
“É porque eu sempre gostei de esportes…”
“É porque eu sou rápida…”
“Talvez a ioga tenha ajudado na força e precisão dos braços…”
Saí de lá esquisita. Sabe aquele nó na garganta que fica quietinho mas te aperta o peito?
E depois de muitos anos de terapia, de conversas comigo mesma, de entender meus próprios processos, eu cheguei numa coisa que quero compartilhar contigo:
A gente vive tentando justificar por que é boa em algo.
“Como você se tornou uma boa vendedora?”
“Como você aprendeu a liderar assim?”
“Como você consegue gerir seu negócio desse jeito?”
E a gente entra no modo explicação automática:
“Ah, porque eu sempre fui comunicativa…”
“Porque eu sou muito dedicada…”
“Porque eu estudei muito…”
Mas me diz uma coisa:
Você já viu alguém perguntar pra um homem por que ele é bom no que faz?
Ninguém chega pra um homem e fala:
“Mas por que você é um bom empresário?”
“Mas como você conseguiu esse resultado?”
“Mas você sempre foi assim?”
Homens não se justificam.
Eles simplesmente são bons. E ponto.
E ainda são aplaudidos por isso.
Enquanto isso, a gente tá ali, tentando explicar nossa competência pra ver se ela parece menos ofensiva, menos assustadora, menos… inaceitável.
Mas hoje, maravilhosa, eu vim aqui pra te lembrar:
Você não precisa se justificar por ser boa.
Simplesmente não precisa.
Eu sou uma boa empresária.
Eu sou uma vendedora foda.
Eu sou uma tia incrível.
Acabou.
Você não precisa fazer malabarismo pra que sua competência pareça mais digerível.
O mundo não espera que mulheres sejam tão boas quanto a gente é.
Mas adivinha? O mundo que lute.
Você é boa.
Você é gigante.
Você é incrível.
E isso não é sorte, não é acaso, não é jeitinho.
É potência.
E potência não se explica. Potência se vive.
Que você se permita ser boa, e ponto.