Carta 120
Sim, ele o Carnaval
Os homens crescem e continuam brincando; nós, mulheres, viramos adultas e perdemos o direito à diversão. O carnaval é um manifesto: empresárias precisam de tesão, de leveza e de espaços onde podem ser ridículas e sérias ao mesmo tempo.
Buenas tardes, Maravilhosa!
Como a senhorita chega nesta sexta?
No mundo das empresárias, temos dois times possíveis:
As que estão já com um glitter na mão e a guia dos pagamentos do mês na outra, só esperando dar 18h de sexta para carnavalizar, e o outro grupo que apenas quer botar um pijama confortável e fazer vários nadas.
Se você é uma Dino Fluida, já tem certeza inequívoca de qual time eu me incluo.
Sim, o time do glitter.
Das que amam carnaval.
Que aguardam essa data como quem aguarda o pix à vista da mentoria cara que a cliente falou que “ia falar com o marido”.
Essa sou eu.
Hoje, então, sim, falaremos sobre carnaval e nós, mulheres.
Calma que fará sentido.
Primeiro, preciso te explicar por que eu gosto tanto desse danado.
A vida adulta é, digamos, meio cinza.
A gente deixa de ser criança e perde nossos artefatos de diversão.
Brinquedo, parquinho, amiguinhos da escola, festinha de criança, colônia de férias, circo.
Existe toda uma variedade de lugares, objetos e eventos destinados à DIVERSÃO.
Nossa função no universo quando somos cotocos cambaleantes é BRINCAR.
Crescemos um tico, viramos adolescentes e a gente já não brinca, mas ainda se diverte para caralho.
É festa.
Balada.
Os namoricos.
Mais festa.
Formatura.
A galera da faculdade.
Nossa vida ainda gira em torno dos prazeres de descobrir o mundo de forma mais independente.
Do jeito que queremos.
Eis que a vida adulta chega, ou para ser mais correta, a vida PROFISSIONAL chega.
Agora queremos ser vistas como pessoas importantes.
Sérias.
Queremos e precisamos.
Para nós, mulheres, isso pega de um jeito diferente.
Queremos ser RESPEITADAS.
E nós sabemos que alegria e simpatia demais podem ser confundidas com permissividade.
Todas nós já fomos objeto desse “mal-entendido”.
Somos simpáticas “demais”, educadas “demais” e isso acaba abrindo portas para duas coisas:
-
Machos sem noção achando que a gente está dando mole (uma merda por si só).
-
Machos sem noção achando que somos “meninas” demais para darmos conta de “coisas de gente grande”.
Queremos mostrar que damos conta de coisa de gente grande.
Que podemos assumir projetos grandes.
Que podemos fazer coisas “sérias”.
E aí entendemos que precisamos NOS TORNAR mais SÉRIAS.
Frias.
Duras.
O combo “mulher, jovem e educada” acaba virando um conjunto de atributos que colocam em cheque nossa competência.
“Adultecemos”.
Fazemos questão de cortar qualquer traço que nos associe à jovialidade.
Queremos ser vistas como MULHERES. Com M maiúsculo.
Substituímos o rosa pelo vermelho.
O frufru pelo couro.
A Melissa pelo scarpin.
E vamos com nossa pastinha de executiva encarar o mundo do trabalho.
Deixamos para trás nossas Barbies, Pollys e tintas guache.
Mas, ao mesmo tempo em que nos despedimos de toda essa diversão “infantil”, os homens ao nosso lado vivem um processo diferente.
Eles viram homens de família, homens de negócio ou qualquer outro título que os homens ganham por fazer o que um adulto funcional faz sem JAMAIS precisarem abandonar seus “brinquedos” de criança.
É cool sair do escritório e ir bater uma pelada com seu time.
É sinal de jovialidade ter um videogame em casa.
É digno de um bom macho se pintar das cores do time e ir gritar feito um despirocado para homens correndo atrás de uma bola.
Eles crescem e continuam brincando.
Nenhuma mulher de negócios que eu conheço ostenta uma coleção de Barbies na parede de fundo do seu escritório.
Os homens de negócio exibem miniaturas de super-heróis, canecas com o brasão do time e réplicas de carros de corrida em suas estantes com orgulho.
Nada daquilo atinge suas competências.
Na verdade, reforça.
Os homens podem brincar.
Gritar.
Exibir comportamentos que, em nós, seriam sinal de imaturidade.
Nós precisamos nos desfazer de tudo que nos diverte para sermos adultas.
Pintamos a unha como um compromisso para o trabalho, precisamos estar apresentáveis.
Cortamos o cabelo porque os fios brancos nos fazem parecer velhas.
O que antes era brincadeira de criança vira a porra de uma tarefa a ser cumprida.
Os caras bebem cerveja e jogam sinuca enquanto fazem suas barbas.
Diversão para eles.
Trabalho para nós.
É aí que a vida fica cinza para nós.
Estamos atoladas de responsabilidades.
Cuidando de Deus e o mundo.
E não temos nem o direito à diversão.
Entende onde eu quero chegar?
O mundo adulto para os homens é um grande playground.
Para nós, é um escritório com uma lista de tarefas interminável.
Reside aí meu amor pelo carnaval e por essa coisa chamada diversão.
Nós, mulheres, PRECISAMOS criar para nós mesmas espaços onde podemos nos divertir.
Vestir roupas não sérias.
Falar coisas não sérias.
Ouvirmos músicas não sérias.
Talvez agora você, que é minha mentorada ou aluna, entenda de forma mais profunda por que em TUDO que a Fluida faz a gente coloca pitadas de diversão.
Um meme em um mapa mental de uma aula ao vivo sobre planejamento financeiro.
Um gif da Gretchen no grupo de mentoradas te lembrando de uma tarefa que você não fez.
Uma música do Timbalada e uma mentora fantasiada no último hotseat de fevereiro.
Ser feliz não vem de graça para nós.
O carnaval, para mim, é mais um símbolo disso que acreditamos na Fluida e martelamos na cabeça das senhoritas.
Tesão.
Lucro.
Transformação.
TEM QUE ser divertido, tem que ser massa, tem que ser gostoso conviver com quem está no seu time.
Tem que gerar grana para a gente poder viver a vida que quisermos sem pedir nada para ninguém.
E tem que ser bom para o mundo além de nós mesmas.
Hoje faremos uma celebração conjunta ao pilar TESÃO da gestão feminista.
Na real, um incentivo, um empurrão.
Vai BRINCAR.
Vai se divertir.
Vai se permitir não ser séria.
Não ser respeitável.
Não ser nada que alguém disse que você tinha que ser.
Brinca nessa caralha.
Se diverte nessa porra.
Fique aqui com registros meus sendo nada respeitável desde 1900 e bolinha para te inspirar a não ser também.





**OSB 1: Coincidência ou não esse vídeo apareceu logo após eu terminar essa carta: **https://www.instagram.com/reel/DGjk-P2tjXD/?utm_source=ig_web_copy_link