Carta 119
O erro de 20 mil
Gastei 20 mil dinheiros em uma mentoria que prometia ensinar a criar um negócio e só me ensinou lançamento — reuniões às 6 da manhã e madrugadas viradas. Mas foi justamente dessa experiência cagada que nasceu o ritual mais querido da Fluida: as Cartas de Sexta.
Buenas noites, maravilhosa!
Como você chega no dia de hoje?
Hoje eu lembrei de como as cartas de sexta começaram e fiquei com vontade de contar para vocês.
Se você é uma fluida caloura, talvez não saiba que as cartas de sexta são um ritual que seguimos religiosamente há mais de 2 anos.
Então, hoje vou contar para você como essa que é uma das coisas que mais gosto de fazer na minha semana começou.
Na era paleolítica dessa empresa, nós fazíamos lançamento.
Sim, eu tinha alguns neurônios a menos e uma tendência ao masoquismo e decidi construir meu modelo de negócio baseado em uma das estratégias mais complexas, demandantes e arriscadas em termos de segurança financeira.
Bom, nessa época eu já tinha saído do mercado de startups pelo mesmo motivo.
Muita pirotecnia, investimentos altos, crescimento a qualquer custo.
Estudei alguns modelos de negócios digitais baseados em educação e tudo que se falava era lançamento.
Como boa autodidata que sou, falei: dá para aprender essa porra.
Fiz o primeiro lançamento da Fluida com uma equipe de 3 pessoas.
No modo validação mesmo.
Comprei um curso gravado.
Assisti ele todo.
Criei um checklist no Google Planilhas e vai que vai.
Lembro que fizemos toda a live de lançamento com um notebook apoiado numa cadeira da cozinha da minha sócia.
Nós duas sentadas no sofá com uma ring light xing-ling na face.
Depois dessa primeira experiência, eu falei: show. Dá para fazer, agora vamos melhorar isso.
Pesquisei, pesquisei, pesquisei e encontrei um senhor na internet que dizia que “lançamento não é modelo de negócio”, “vou te ensinar a criar um negócio de verdade”.
Eu, que já estudava modelagem de negócios há um tempo, achei deveras sensato e decidi comprar a mentoria do dito cujo.
20 mil dinheiros.
Nessa época, um produto com esse preço era raridade.
Lembro que fiquei horas sentada na mesa da cozinha com Sr. Fluido discutindo se valia a pena ou não.
Eu, preocupada com o valor do trem.
Ansiosíssima por conhecimento.
Maravilhada com a possibilidade de profissionalizar o que eu já tinha testado no modo gambiarra.
Leve dor de barriga na hora de passar o cartão.
Paguei.
20 mil dinheiros.
Aqui precisamos fazer um parêntese para você entender o tamanho desse passo para a empresária baby que eu era.
Nosso último lançamento, no modo “vamos ver o que que dá”, tinha faturado algo em torno de uns 40 mil dinheiros.
Ou seja, UM ÚNICO CURSO era METADE de todo o nosso faturamento na última ação de vendas.
Big step.
Lá fui eu.
Decidi que me dedicaria intensamente a sugar tuuuudo que a tal da mentoria iria me trazer.
No meio do rolê, o tal do mentor anuncia um desafio.
Um desafio premiado.
Pronto. Meu espírito competitivo foi acordado das profundezas.
BORA.
O desafio consistia no seguinte:
Todo mundo da turma iria lançar seus cursos AO MESMO TEMPO.
Seria uma jornada de algumas semanas, não lembro exatamente se 10 ou 12, mas era um tempo considerável.
A cada semana deveríamos executar ações de um checklist, comprovar a execução e, para cada checklist entregue, meio que a gente acumulava “pontos”.
Quem chegasse ao final e fizesse o tal do lançamento participaria da escolha dos mentores para ganhar uns prêmios deveras legais.
PRÊMIOS.
Pronto, agora não tinha mais como eu recusar.
Me inscrevi.
Contratei o time.
DOZE FUCKING PESSOAS.
E começamos o desafio.
Tráfego, UTM, copy, narrativa, storytelling, distribuição de conteúdo.
Cada semana tínhamos uma CACETADA de tarefas e conhecimento para acumular.
Aulas para assistir, páginas para criar, calendário de conteúdo, gravação, criativos… muita coisa.
Eu sempre tive facilidade para sistematizar aprendizado e conhecimento.
Percebi que, a cada semana, a cada dia, eu aprendia pelo menos uma dezena de coisas novas.
Não das coisas teóricas, que sim, eu tava aprendendo, mas da prática.
Do dia a dia.
Como manter o time empolgado com um desafio que exigia para um caralho da gente.
Como delegar tarefas que eu mesma estava fazendo pela primeira vez.
Como manter todo mundo na mesma página através de uma telinha do Zoom.
Essa mentoria tinha um grupo no Facebook dos mentorados (veja aqui mais um registro da antiguidade desse período).
Uma sexta, depois de ter entregado o danado do checklist da semana, com aquela sensação de “dever cumprido”, eu tinha tanta coisa borbulhando dentro de mim para compartilhar.
Mas não tinha nenhum lugar para fazer isso.
Decidi fazer um post na comunidade do Facebook da turma, dividindo as vozes da minha cabeça.
Abri o Facebook e topicializei meus aprendizados da semana.
Eu só precisava botar para fora.
Recebi alguns comentários.
Gente veio falar comigo no inbox… passamos mais uma semana.
Chegamos na sexta seguinte.
De novo, eu tinha muito para compartilhar.
Abri o grupo.
Fiz o segundo post com os aprendizados da semana.
Dessa vez, recebi mensagens no WhatsApp, directs do Insta falando do tal do post.
Esse ritual se repetiu todas as semanas do danado do desafio.
A cada sexta, eu sentava no final da semana.
Organizava todos os meus erros e acertos e dividia com meus coleguinhas o que tinha descoberto na prática.
Esse lançamento foi um dos mais robustos e complexos que fizemos.
Muita gente.
Muita copy.
Muito conteúdo.
Durante esse lançamento, as demandas eram tão altas que a única hora que eu conseguia fazer reunião com o time de estratégia era às SEIS DA MANHÃ.
Sim, é isso mesmo.
Hoje eu consigo perceber a insanidade contida nessas palavras.
Mas, na época, eu só queria dar o meu melhor.
E parecia que o melhor, que o certo, era varar madrugadas trabalhando e fazer reuniões de pijama porque não havia nenhum outro horário livre na agenda atolada de demandas.
Dormia quase nada.
Comia quase sempre na frente do computador.
Varei madrugadas gravando criativos scriptados que me exigiam matar uma das minhas melhores habilidades: ser eu mesma.
Segui, continuei, fui firme no checklist.
Executei TODAS as tarefas.
Não perdemos nenhum checklist.
Seguimos tudo à risca.
Ultrapassamos a meta.
Montamos uma turma linda.
E não ganhamos nenhum prêmio.
Mas, no fim do lançamento, depois que a correria passou, me dei alguns dias de reflexão.
E entendi que não era aquela vida que eu queria para o meu time.
A sensação era de Copa do Mundo, estávamos todas extasiadas de termos concluído aquilo juntas.
Mas eu notava que estávamos todas cansadas.
Inclusive eu.
Fazia sentido varar madrugadas para trabalhar?
Eu queria fazer reuniões às 6 da manhã?
Estava disposta a cortar pedacinhos de mim para caber numa narrativa?
Um detalhe importante: meu sobrinho, meu primeiro sobrinho, o que me fez decidir não trabalhar nas sextas para ficar com ele, estava para nascer.
Eu passei todo o lançamento torcendo, todo dia, para que ele nascesse depois
que fechássemos o carrinho.
Acho que ninguém sabe disso.
Mas eu tinha medo de simplesmente não poder viver o dia que ele nascesse.
Eu passava o dia entre o escritório e o quarto, sempre com o computador no colo, aprovando uma copy, fazendo uma reunião, gravando alguma coisa.
Nesse lançamento, eu mal vi seu Fluido.
Ia dormir depois dele.
E acordava antes.
Lembro dele me trazendo comida enquanto eu trabalhava, os pratos se acumulando ao lado do computador.
O universo me ama demais.
Baby Fluida nasceu menos de uma semana depois do carrinho fechado.
É, não
era aquela vida que eu queria.
A mentoria que tinha me prometido criar “um negócio” me ensinou muita coisa.
Mas tudo era sobre lançamento.
Fluxo de caixa?Gestão de pessoas?Liderança, modelagem de negócios?
Nunca nem vi.
Lançamento, lançamento, lançamento.
Me senti ludibriada.
O discurso de “vou te ensinar a criar um negócio” mais uma vez não passou de uma bela copy recheada da mesma cegueira do digital.
Eu gastei 20 mil dinheiros para ter certeza
de onde não
queria estar.
Passei centenas de horas na frente de um computador.
Ultrapassei limites do meu corpo.
O que ficou então dessa experiência, no mínimo, desgastante?
Para que isso serviu no final de tudo isso?
Lembra dos posts toda sexta sobre os aprendizados da semana?
Então, eu percebi que uma das coisas mais legais que eu tinha feito durante todo esse desafio eram os benditos posts na sexta.
Cada post gerava um punhado de conversas profundas e interessantíssimas com meus coleguinhas de mentoria.
Elogios, debates, conversas interessantes…
Porra, eu gostei demais disso.
Viro para o meu time e falo:
“Que tal se a gente transformasse esses posts de sexta em uma newsletter para mandar para as Fluídas toda sexta?”
Meu time, como sempre:
BORA.
Nasce então nossas “Cartas de Sexta”.
O ritual queridinho da Fluida.
Conversas semanais onde podemos ser nós mesmas.
Respostas na minha inbox cheias de ondinhas me contando o quanto a carta reverberou, cutucou, fez rolar lágrimas.
Por que eu quis contar isso para vocês hoje?
Eu gastei 20 mil dinheiros para chegar num lugar que eu não queria.
Me forcei a seguir checklists que não faziam sentido para a vida que eu queria levar.
Mas foi justamente essa experiência aparentemente cagada que criou o que estamos vivendo agora, nesta carta.
O que eu quero te dizer é o seguinte:
Coisas maravilhosas acontecem em meio a coisas cagadas.
Experiências que você não repetiria de jeito nenhum te ensinam lições preciosas sobre coisas que você quer fazer para sempre.
A vida de empreender é, muitas vezes, assim, um mix de contradição.
Ácida e doce.
Fofinha e áspera.
Eu não sei qual experiência você está vivendo hoje.
Mas talvez, só talvez, sua “Carta de Sexta” esteja nascendo justamente dessa jornada cagada que hoje parece só um erro.
Não
é um erro se você se dá a oportunidade de decidir
o que quer de verdade.
Segue.
Faz o checklist.
Depois, se dê tempo para transformar as coisas cagadas em coisas maravilindas.